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Felipe Melo diz como deu volta por cima após drama que quase 'encerrou' carreira: 'Muitas vezes saí do treino chorando'

Líder e um dos capitães do Fluminense, que nesta quinta-feira (24), no Maracanã, a partir das 21h30 (de Brasília), recebe o Olimpia, pela ida das quartas de final da CONMEBOL Libertadores, com transmissão exclusiva pela ESPN no Star+, Felipe Melo vive um dos seus melhores momentos com a camisa tricolor. Porém, a boa fase do defensor foi precedida por momentos difíceis. E que inclusive colocaram em xeque a sua própria carreira.

Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, o veterano de 40 anos, que segue com a raça de sempre dentro das quatro linhas, voltou alguns meses na linha do tempo da carreira e relembrou que viveu um drama em 2022, pouco tempo depois de deixar o Palmeiras, onde teve uma passagem com muitos títulos, incluindo o bicampeonato da Libertadores, para se juntar ao Tricolor das Laranjeiras, clube do coração do pai e de alguns familiares.

No jogo de ida da decisão do Campeonato Carioca do ano passado contra o Flamengo, que terminou com vitória do Flu por 2 a 0, com dois gols de Germán Cano, Felipe sofreu uma séria lesão no joelho e foi preciso passar por uma cirurgia. Além de ter ficado de fora do segundo jogo, que confirmou o título estadual do Tricolor das Laranjeiras após uma década, o defensor ficou quase dois meses longe dos gramados.

"Eu começo a temporada em 2022, chego no Fluminense com outros companheiros e nós ajudamos o Fluminense a sair de uma fila de dez anos sem uma conquista de um campeonato estadual. E muitas pessoas não lembram ou não querem lembrar, mas, de quebra, nós vencemos o campeonato estadual e impedimos o nosso maior rival, um dos nossos maiores rivais a serem tetracampeões. Se não me engano, apenas o Fluminense é tetracampeão do campeonato do Rio de Janeiro. Ganhamos, tiramos da fila. Só que eu paguei um preço muito alto por aquela primeira final que nós vencemos por 2 a 0. Porque naquele momento eu coloquei o Fluminense acima da minha saúde. E essa foi a verdade. Eu não tenho dúvida. Se fosse outro jogador, de outra equipe, (iriam ficar): 'o que ele fez? Olha isso', porque eu vejo alguns jogadores dão um passe que eu faço dez por jogo, os caras falam que é maravilhoso, mas eu acostumei mal o pessoal dessa maneira. Então eu, com cinco minutos de jogo, subo em uma bola com o nosso rival pra cabecear, nosso rival bem maior do que eu de estatura. E quando eu caí no chão, rompi o meu menisco e eu já tinha um certo problema por causa da idade da minha cartilagem, que é o normal do atleta de futebol".

"Então eu fiquei batendo um osso com osso, 90 minutos de jogo. Nós vencemos. Não consegui jogar o segundo jogo, empatamos 1 a 1 o segundo jogo, fomos campeões, que era o objetivo do nosso primeiro semestre, claro, depois em termo de conquista, porque nós tínhamos perdido a classificação para a Libertadores. Mas em termos de conquistas, de levantar troféus, era a conquista do Campeonato Carioca", começou por dizer.

Felipe ainda lembrou que, em meio ao drama que viveu na carreira, escutando inclusive que poderia não voltar mais a jogar, contou com o apoio da diretoria do Fluminense, incluindo o presidente Mário Bittencourt e o ex-atacante e diretor de planejamento esportivo, Fred, assim como do técnico Fernando Diniz, que teve o seu retorno oficializado em abril do ano passado, quando ainda estava em recuperação.

"Eu fui fazer um exame, o cara falou assim: 'cara, olha só, vamos ver porque eu acho que vai ter outra coisa aí'. Aí quando eu abro meu joelho, ele olha meu joelho e fala:' vamos ver se ele vai voltar a jogar futebol'. Então eu sabia que o processo seria árduo, eu não tinha dúvida que o processo seria lento, seria difícil, mas eu tenho muito orgulho e para mim é um prazer enorme poder retribuir o que o Fluminense fez por mim. Abriu as portas para jogar no grande clube, o que o presidente fez por mim, abrir as portas e jogar num clube como é o Fluminense hoje. O diretor, que era meu companheiro na época, o Fred, chegou, por exemplo, 'traz o Felipe Melo, que ele vai nos ajudar muito'. Então eu não tenho nem um sentimento de 'poxa, não deveria ter jogado aquele jogo, eu devia ter saído, porque aí eu ficaria um mês só de fora e de repente voltaria depois'. Não. Pelo contrário. Tenho um prazer muito grande de ter ajudado o Fluminense, de ter colocado o Fluminense acima do meu estado de saúde, do meu estado físico e por isso eu vim arrastando muito", prosseguiu.

"Muitas vezes eu saí do treino chorando. Confesso que teve uma vez aqui que eu saí do treino chorando, e o Diniz me chamou para conversar e falou comigo: 'não precisa falar nada, só me dá um abraço'. E dei um abraço no Diniz, que disse: 'fica tranquilo que vai dar tudo certo'. Aí entra também a minha fé em Deus. Sou um cara muito de fé. A Palavra de Deus diz: 'Sem fé é impossível agradar a Deus'. Então, eu tenho muita fé em Deus. E, hoje, eu vivo o milagre de Deus na minha vida. Eu só consigo jogar porque é um milagre. Então, não é fácil. Eu trabalho todos os dias no meu clube, fora do clube, todo dia eu estou buscando sempre melhorar. Então eu estou dando uma resposta dentro de campo, não para o torcedor, mas para mim mesmo falando que dá para continuar jogando, dá para continuar ajudando. Isso é fruto de muito, muito trabalho e muita perseverança, sem dúvida nenhuma. E é por isso que eu tenho muita gratidão a Deus".

'Olha onde eu cheguei!'

Com passagens por alguns dos principais clubes do Brasil e da Europa, sem contar a seleção brasileira, com quem disputou a Copa do Mundo de 2010, Felipe Melo revelou que precisou "retornar às origens" para conseguir tirar forças para seguir com a sua recuperação durante o período da lesão e dar a volta por cima nos gramados com a camisa do Fluminense.

"Eu trago à memória aquilo que me dá esperança. Eu lembro de quando eu era um garoto bem, bem, bem jovem, que tinha apenas um sonho de me tornar um atleta profissional, que acordava às 4h45 para pegar um ônibus lotado e muitas vezes via o pessoal saindo dos bailes, namorando, dando os beijos na boca das meninas, enfim. E eu não podia, não podia curtir, não podia. Eu abdiquei de ser adolescente para buscar o meu sonho. Então eu busco, eu volto no ano passado, que é a coisa que me dá esperança: 'cara, olha só que olha o que eu conquistei. Olha que Deus fez eu conquistar. Olha onde eu cheguei!' Poxa, isso aí me dá muita força. É claro que quando a gente vê e olha a família que Deus me deu, a esposa, os meus filhos, entender que eu sou espelho para eles. Isso me dá força realmente para continuar e para continuar sonhando, sem dúvida nenhuma. Porque enquanto a gente está sonhando, é porque nós temos força para conquistar", disse.

O que também o motivou a seguir batalhando no dia a dia nos gramados foi o propósito com o qual aceitou a proposta do Fluminense. E Felipe revelou, inclusive, que chegou a repensar em relação à continuidade da carreira. O defensor também contou o "segredo" para manter a forma aos 40 anos.

"Eu aprendi há muitos anos atrás, há mais de uma década eu aprendi com um grande amigo e ele falou comigo assim: 'Cara, conforme você vai tendo mais idade, a cada ano que passa você vai ter que perder um quilo, porque você vai começar a ficar mais lento, normal, por causa da idade. E vai começar a pesar um pouco mais. Então você vai ter que perder um pouco mais de peso'. E eu tenho feito isso, sabe? A cada ano que passa eu perco um quilo. A cada ano que passa eu tenho mais. E de fato, o ano passado, passou diversas vezes na minha cabeça de encerrar a carreira. Mas eu vim para cá com um grande sonho. O meu grande sonho é fazer história de verdade no Fluminense, fazer uma história que ninguém fez. E nós temos esse sonho ainda em aberto, porque nós estamos na competição que é a maior obsessão de sucesso que é a Libertadores. Todo mundo sabe disso. Então, eu vejo que hoje nós jogamos contra várias equipes importantes. E como eu falo que eu gosto de trazer na memória a esperança", disse.

"Eu lembro quando nós fomos jogar lá no Peru e eu saí no intervalo do jogo, no primeiro jogo da Libertadores, e o primeiro gol que nós sofremos na Libertadores foi uma falha minha, porque o cara roubou a bola cometendo falta. O juiz não deu falta. De fato, acabou sendo um erro meu. Depois eu cometi uma falta que não foi falta, mas o juiz deu falta, me deu o cartão amarelo e eu saí de campo no intervalo. Vencemos aquele jogo, mas o Diniz, que me deu toda confiança, me colocou de titular e alguns dias depois, no segundo jogo da final, nós tínhamos que reverter um resultado, um placar de 2 a 0. E ali eu acho que começou a minha caminhada, como eu falo, eu trazer à memória, aquilo me dá esperança, eu trago a memória quando a gente joga contra um time que é muito forte, com jogadores de nível de seleção brasileira, de seleção de seus países, e a gente consegue ajudar a equipe, seja na parte tática, na parte técnica, a parte física. Então, sem dúvida nenhuma, isso me faz com que isso me faz entender que dá para continuar jogando. Dá pra continuar ajudando. Enquanto eu puder ajudar, puder colaborar. E quando eu falo ajudar eu não falo somente no campo, eu falo também em fazer com que os meus companheiros joguem melhor, se comportem melhor dentro de campo com a liderança que eu tenho, poder conduzir a equipe a grandes conquistas, ajudar o próprio capitão, que é muito mais jovem do que eu, que é o Nino, a se tornar ainda melhor o capitão, a fazer com que ele continue com uma regularidade na seleção brasileira, porque é isso que ele merece. Então, assim, enquanto eu achar que dá para continuar dessa maneira, eu sigo no futebol. Sigo sonhando, sigo com as minhas convicções, sem dúvida nenhuma".

Por último, Felipe também falou sobre a sua importância dentro do Fluminense, não só dentro, mas também fora de campo. E o defensor revelou que essa função de ser um dos líderes do elenco o orgulha, inclusive já rendendo frutos, como o volante André, cria de Xerém que hoje é especulado em gigantes da Europa e é convocado para a seleção.

"Isso para mim é motivo de muito orgulho e gratidão. Mais uma vez, gratidão. Muita, mas muita gratidão a Deus, porque é o líder nasce líder. Não é um cara que vai nascer pacato na dele, do nada ele vai se tornar o líder. Não, o cara já nasce com um espírito de liderança, chega na escola, ele é o líder que faz as coisas, ele que que toma a frente das coisas todas. Então, eu nasci dessa maneira, graças a Deus, e eu tenho melhorado muito como líder, como capitão. Tenho melhorado muito mesmo porque no clube passado eu fui um grande líder, ajudei muito, mas eu também pequei muitas vezes e aqui eu sou um grande líder, tenho ajudado muito e já pequei, mas muito menos do que no passado. Então eu sou o líder que continuo precisando de ser moldado, mas a cada dia que passa eu entendo que eu consigo ser um melhor líder, um melhor amigo, o melhor companheiro. E isso de fato tem ajudado bastante também o Felipe a crescer dentro de campo, a crescer como companheiro", disse.

"Eu vejo que aqui no Fluminense as pessoas gostam muito de mim e de fato é um grupo muito especial, um grupo que se gosta muito. Então eu espero continuar ajudando com a minha liderança. Eu lembro quando eu cheguei, quando eu estava no Palmeiras, alguns atletas subiram da base. Eu falei 'olha, vou tentar te ajudar e até alguns atletas que estão na Europa'. Quando eu cheguei no Fluminense, eu falei com o André: 'você foi revelação no campeonato. Vou fazer você ser melhor jogador do campeonato e você vai pra seleção brasileira e daqui a pouco você vai para um grande clube Europa. Você não vai para o time que é intermediário, vai para um grande clube na Europa, beleza?' E já está na seleção brasileira, sendo cortejado por grandes clubes. Espero que continue conosco para nos ajudar a conquistar, assim como Nino, assim como o Samuel Xavier, que está no segundo ano consecutivo como um dos melhores laterais direitos do Brasil. Assim como o Fábio, que também é um grande líder, já tem uma idade até mais do que eu, mas tem demonstrado como um garoto, assim como o Ganso, voltou a jogar aquele futebol que encanta. Enfim. Então nós temos realmente um time, mas mais que isso, uma família", finalizou.


Na atual temporada, Felipe Melo tem 34 jogos disputados com o Fluminense - 26 deles como titular - e já balançou as redes em duas oportunidades, uma na Copa do Brasil e outra no Brasileirão. O veterano ainda busca o primeiro tento na Libertadores com a armadura tricolor. Desde que assinou com o clube carioca, o defensor também faturou os Cariocas de 2022 e 2023.

Onde assistir a Fluminense x Olimpia?

Fluminense x Olimpia, pelas quartas da CONMEBOL Libertadores, terá transmissão exclusiva pela ESPN no Star+, nesta quinta-feira (24), às 21h30 (horário de Brasília).

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