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OPINIÃO: No Flamengo, Bap, enfim, tem seu treinador

As pessoas que ouviram o presidente Luiz Eduardo Baptista criticar Filipe Luís, publica e despreocupadamente, desde que assumiu a cadeira, não estão surpresas com a demissão do técnico do Flamengo. A decisão que redefiniu os “padrões culturais” do futebol brasileiro nas relações clube-treinador pode ser descrita – empregando um termo usado nas últimas semanas para espezinhar Filipe – como um gesto autoral. O jovem multicampeão era o técnico do Flamengo, mas não o técnico de Bap, um dirigente cujo perfil não tolera o sucesso associado a um nome que não seja o próprio.

O presidente rubro-negro foi quem tumultuou o início da temporada ao ordenar o chamado ao elenco titular, no meio das curtas férias, para socorrer o clube no campeonato estadual. O receio de ver o “clube europeu que está no Brasil por acaso” disputar o quadrangular da morte da FERJ implodiu o planejamento traçado e criou um time formado por futebolistas descondicionados e descontentes às vésperas de duas decisões de troféus. Por óbvio, essa não é a única explicação para o declínio das atuações do Flamengo, mas ignorá-la é convenientemente útil ao expediente de transferir o problema ao treinador que dispõe do melhor elenco da América do Sul, de modo que se vire. Que a massa pouco interessada no que se passa antes dos resultados pense assim, vá lá. Gestão profissional e moderna soa como outra coisa.

Em situações dessa natureza, os fatos não costumam importar para a maioria. Até mesmo quem tem a função de informar o faz, com frequência, sem oferecer os devidos contextos, para não comprometer relações ou por preguiça mesmo. Sobre a hipótese de Bap ter se irritado ao saber de contatos do agente de Filipe com outro(s) clube(s) – não foi apenas o Chelsea – durante as negociações para a renovação de seu contrato com o Flamengo, cabe perguntar: por que um clube pode conversar com outros técnicos, mas o técnico não pode conversar com outros clubes? Há interessantes relatos de interações entre o Flamengo e Leonardo Jardim em dezembro do ano passado, mas, por algum motivo, decidiu-se apresentar Filipe como um mercador insensível.

Diante das constantes cobranças quando o dirigente médio do futebol brasileiro – Bap se diferencia, frise-se, pela trajetória como executivo de indiscutível sucesso, que provavelmente está na origem do comportamento prepotente que caracteriza sua atuação – decide demitir um treinador, há quem pondere que o Brasil é distinto e que é preciso respeitar suas peculiaridades. Como se o país do jogador do futebol, que exporta excelência dentro do campo, não precisasse de profissionalismo no andar de cima. Uma linha de raciocínio que ajuda a explicar ao mundo por que, mesmo desfrutando de clima abençoado e tecnologia disponível, as principais competições brasileiras são disputadas, salvo as exceções conhecidas, em pastos naturais e/ou sintéticos.

Registre-se, e isso é importante, que o “treinador estrangeiro” já compreendeu o funcionamento das coisas. Em Nottingham, ao saber das notícias do dia no país que foi sua casa por pouco mais de um ano, Vítor Pereira certamente reconheceu o roteiro do técnico que se desliga de um clube alegando questões pessoais e muda de ideia em pouco tempo. Com Leonardo Jardim e o Flamengo, as coincidências são a nacionalidade do treinador e o clube de destino. O restante da história promete ser mais agradável, já que o Flamengo não deve demorar a recuperar o nível costumeiro e o que realmente importa no calendário mal começou. A diferença é que agora Bap tem seu técnico. É ele quem manda no jardim rubro-negro.

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