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Caso VaideBet: o que acontece após Augusto Melo e ex-dirigentes do Corinthians se tornarem réus na Justiça

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Um ano e um mês após a abertura da investigação instaurada pela Delegacia de Crimes Financeiros, do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), Augusto Melo agora é formalmente réu no processo que envolve o contrato de patrocínio com a casa de apostas VaideBet.

Afastado da presidência do Corinthians pelo Conselho Deliberativo desde 26 de março, o dirigente é acusado pelos crimes de associação criminosa, furto duplamente qualificado por fraude e concurso de pessoas e lavagem de dinheiro.

A decisão de acolher a denúncia oferecida pelo Ministério Público foi tomada na segunda-feira (21) pela juíza Marcia Mayumi Okoda Oshiro, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital.

Segundo apurou a ESPN, o departamento jurídico do Corinthians formalizará pedido à Justiça para que o clube atue como auxiliar de acusação no processo.

Além de Augusto Melo, também se tornaram réus Marcelo Mariano, ex-diretor administrativo, Sérgio Moura, ex-superintendente de marketing, e Alex Cassundé, empresário que é citado como intermediário no contrato firmado entre Corinthians e VaideBet.

A decisão ainda tornou réus os empresários Victor Henrique de Shimada e Ulisses de Souza Jorge pelo crime de lavagem de dinheiro.

As denúncias contra Edna Oliveira dos Santos, apontada como “laranja” nos repasses feitos pela Rede Social Media Design, empresa de Alex Cassundé, e Yun Ki Lee, ex-diretor jurídico do Corinthians, foram arquivadas.

A manifestação do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) negou ainda o pedido para o fim do sigilo processual, que foi feito pela defesa de Augusto Melo, "em razão das informações bancárias e fiscais dos investigados".

O que acontece agora?

Formalmente acusados pela Justiça, Augusto Melo e os outros envolvidos passam a responder a processo judicial. O próximo passo é a citação aos réus a respeito das acusações e para a convocação à apresentação de defesa no prazo de 10 dias, “podendo em sua resposta arguir preliminares e alegar tudo que interesse à sua defesa, oferecer documentos e justificações e especificar as provas pretendidas, podendo, ainda, arrolar testemunhas”.

O passo seguinte é o de instrução processual, momento em que são apresentadas provas, perícias, declaração e testemunhas e outros elementos necessários para a elaboração de teses da defesa e da acusação antes das alegações finais, que antecede a sentença da Justiça.

O que dizem os artigos citados no processo que envolvem os dirigentes do Corinthians?

  • Código Penal:

Art. 288. Associarem-se 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes

Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: (Furto qualificado)

§ 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido:

II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;

IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas

  • Lei nº 9.613 (Dos Crimes de "Lavagem" ou Ocultação de Bens, Direitos e Valores)

Art. 1° Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal.

§ 1° Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a utilização de bens, direitos ou valores provenientes de infração penal:

II - os adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda, tem em depósito, movimenta ou transfere;

§ 4º A pena será aumentada de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços) se os crimes definidos nesta Lei forem cometidos de forma reiterada, por intermédio de organização criminosa ou por meio da utilização de ativo virtual.

O que diz a defesa de Augusto Melo?

"O presidente do Corinthians, Augusto Melo, afirma que todas as acusações contra ele são falsas. Ele é vítima de um processo ilegal e repleto de nulidades e abusos, como o acesso a dados do Coaf sem autorização judicial e a participação da Policia Civil e do Ministério Público de São Paulo em um caso de competência da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, uma vez que envolve um contrato internacional.

O recebimento da denúncia pela Justiça é uma etapa formal do processo, que não altera em nada o curso da ação. A defesa vai impetrar os habeas corpus necessários com o objetivo de fulminar esse processo kafkiano e ilegal.

O presidente Augusto Melo nada deve e nada teme, por isso já solicitou o fim do sigilo que impede o acesso da torcida corinthiana à íntegra dos documentos da ação. A defesa também solicitou que as autoridades competentes, a PF e o MPF, cuidem do caso. Está em curso ainda uma investigação defensiva, conforme regulamentado pela OAB, que comprovará a inocência do presidente legitimamente eleito do Corinthians.

Augusto Melo segue confiante de que a verdade prevalecerá e reitera seu compromisso com a retomada da organização financeira do clube, que sofreu grande retrocesso desde que ele foi retirado do cargo por seus adversários políticos, que hoje conduzem uma gestão conhecida pelo não pagamento de obrigações e depreciação do clube dentro e fora de campo".

Como o dinheiro de comissão do Corinthians foi parar em conta suspeita

Follow the Money”. Ou “Siga o Dinheiro”, em português. Esse foi o processo conduzido pela Delegacia de Crimes Financeiros, do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), para conduzir a investigação no chamado 'caso VaideBet', que indicou que parte dos valores pagos pelo Corinthians à "Rede Social Media Design" acabaram em uma conta que estaria ligada ao crime organizado.

A agência que pertence ao empresário Alex Cassundé é parte do contrato de patrocínio máster firmado entre Corinthians e VaideBet, sendo incluída no acordo como intermediária.

Um relatório sobre o caminho do dinheiro, ao qual a ESPN teve acesso, detalhou durante a investigação as movimentações realizadas através de dados obtidos juntos ao COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e extratos bancários.

A empresa "Rede Social Media Design" recebeu R$ 1,4 milhão a título de comissão em dois pagamentos de R$ 700 mil: o primeiro em 18 de março de 2024; o segundo em 21 de março.

Dessa quantia, R$ 1 milhão foi repassado então à "Neoway Soluções Integradas", empresa que tinha como proprietária Edna Oliveira dos Santos, mulher que teria sido usada como “laranja”.

A investigação conduzida pela Polícia Civil apontou ainda que Alex Cassundé esteve no Parque São Jorge no dia em que a primeira transferência bancária à Neoway foi realizada, no dia 25 de março.

Segundo apontam indícios apurados pela investigação, pouco mais de R$ 1 milhão chegou fracionadamente durante o decorrer de semana à conta da "UJ Football Talent Intermediação" através de repasses feitos por duas empresas: "Wave Intermediações e Tecnologias LTDA" (R$ 874.150,00) e "Victory Trading Intermediação de Negócios” (R$ 200.000,00).

A investigação da Delegacia de Crimes Financeiros apontou ainda que o “único sócio da Victory, Victor Henrique de Oliveira Shimada, foi preso em janeiro de 2025 pela Policia Federal, tendo permanecido pouco mais de duas semanas detido, acusado, tudo indica, da prática de furto qualificado e lavagem de dinheiro”.

Como revelou uma reportagem do SBT, a “UJ Football Talent” foi citada em acordo de delação premiada firmado por Antônio Vinícius Gritzbach com o Ministério Público de São Paulo como empresa ligada a integrantes do crime organizado.

O empresário foi morto no dia 8 de novembro de 2024 no estacionamento do Aeroporto Internacional de Guarulhos.

A ESPN detalha abaixo o passo a passo da comissão paga pelo Corinthians até a conta da UJ Football Talent Intermediação:

  • 18 de março: pagamento de R$ 700 mil do Corinthians à Rede Social Media Design

  • 21 de março: pagamento de R$ 700 mil do Corinthians à Rede Social Media Design

  • 25 de março: Rede Social Media Design envia R$ 580 mil à Neoway Soluções Integradas (data em que Alex Cassundé esteve presencialmente no Parque São Jorge)

  • 26 de março: Rede Social Media Design envia R$ 462 mil à Neoway Soluções Integradas

  • 26 de março: Neoway faz envio de R$ 600 mil à Wave Intermediações e Tecnologias LTDA

  • 26 de março: Neoway faz envio de R$ 400 mil à Wave Intermediações e Tecnologias LTDA

  • 26 de março: Wave envia R$ 467.325,00 à UJ Football Talent Intermediação

  • 27 de março: Neoway envia R$ 40 mil à Thabs Soluções Integradas

"(...) Tudo estava a indicar que o compromisso da NEOWAY, enquanto empresa fantasma e titular de contas de passagem, era receber dinheiro e imediatamente enviá-lo ao destinatário indicado”, cita o relatório da Delegacia de Crimes Financeiros.

  • 28 de março: Wave envia R$ 206.825,00 à UJ Football Talent Intermediação

  • 28 de março: Wave envia R$ 200 mil à UJ Football Talent Intermediação

  • 28 de março: Victory Trading Intermediação de Negócios envia R$ 200 mil à UJ Football Talent Intermediação

“Parece-nos nítido, destarte, que aqueles que deram causa ao desvio de dinheiro dos cofres do Sport Club Corinthians Paulista se utilizaram das tradicionais estratégias de lavagem de dinheiro para, não só introduzir os valores no sistema financeiro e distanciar o capital ilícito de sua origem, visando, assim, evitar uma associação direta com a infração antecedente (daí o uso de duas camadas de empresas - NEOWAY e, depois, WAVE /VICTORY), como também fracionar os recursos criminosos em transito e, deste modo, pulveriza-los em duas , três ou amis operações, tudo para dificultar a reconstrução da trilha do papel”, cita o relatório.

A “Wave” está no centro do relatório por apresentar movimentações consideradas suspeitas, tendo registrado cerca de 23 operações de depósito em espécie entre 2023 e 2024, somando valores na casa de R$ 3 milhões.

O relatório detalha ainda que a empresa movimentou R$ 290 milhões entre agosto de 2023 e setembro de 2024 em uma conta do Banco do Brasil.

Ainda segundo relatório do DPPC, a “Wave Intermediações e Tecnologias LTDA” teve operação encerrada no dia 25 de abril, pouco tempo após a inclusão online nos autos do processo dos depoimentos de Augusto Melo, Marcelo Mariano e Sergio Moura, além de Rubens Gomes, ex-diretor de futebol do Corinthians.

“Na oitiva deste (Rubens Gomes), feita em aditamento, num dado momento lhe foi dirigido questionamento sobre a UJ Football, o que nos faz presumir que, possivelmente, alguém tenha ficado sabendo desta menção e, concluído que havíamos descoberto o caminho do dinheiro, tratou imediatamente de encerrar a principal empresa usada para mobilizar a engrenagem: a WAVE”, aponta o relatório da Polícia Civil.