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Ex-diretor do Corinthians aponta fator 'anormal' no caso VaideBet e revela isolamento no clube: 'Não me querem aqui'

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Augusto Melo aponta 'culpados' pela saída da VaideBet como patrocinadora do Corinthians: 'Não querem o bem' (2:31)

Presidente do clube concede entrevista coletiva nesta segunda-feira (10) para prestar esclarecimentos sobre as recentes polêmicas que envolvem o time (2:31)

O Corinthians se movimenta nos bastidores em busca de um novo patrocinador máster após a VaideBet anunciar a rescisão unilateral do contrato com o clube após as denúncias sobre a participação um suposto “laranja” com repasses em pagamentos do clube à Rede Social Media Design Ltda, que atuou na intermediação do acordo.

O tema foi decisivo para o racha na diretoria alvinegra nomeada no início da gestão Augusto Melo.

Ao revelar a atuação de um “laranja” ligado à Neoway Soluções Integradas em Serviços Ltda, empresa que teria recebido parte dos pagamentos feitos pelo Corinthians à Rede Social Media Design Ltda, o jornalista Juca Kfouri detalhou ainda uma pressão feita por Marcelo Mariano, diretor administrativo do clube, para que as notas fiscais emitidas pela intermediação fossem pagas no Parque São Jorge, mesmo na ausência de Rozallah Santoro, então diretor financeiro.

Questionado em entrevista à rádio Energia 97 sobre os pagamentos feitos à intermediária do contrato com a VaideBet, o agora ex-dirigente alvinegro se manifestou pela primeira vez sobre o tema.

“De forma muito objetiva: você tem um contrato que passou pelo jurídico, que foi assinado pelo presidente, que tem uma prestação de serviço reconhecida pelo clube. A empresa emite uma nota. Eu só não paguei todas as notas por não ter dinheiro no caixa. Se tivesse dinheiro no caixa, com fluxo positivo, todas as notas estariam pagas”, disse Rozallah.

“Com relação à legitimidade do processo de serviço e cobrança, não há dúvida. A questão é: dada a pouca capacidade de caixa, eu tenho que priorizar pagamentos. E sim: notas foram pagas quando eu não estava lá”.

“Isso é um grande absurdo? Isso é um médio absurdo. Você tem uma escala de prioridades: acordo judicial, folha de pagamento de funcionários, PROFUT, vale-alimentação, plano de saúde, folha do elenco, imagem. Você vai tendo essa prioridade. Depois que passou isso, se você tem sobra de caixa, aí pode pagar. Por acaso, naquela ocasião, a gente tinha caixa para fazer pagamento. O que não é normal é você fazer a priorização de um valor desse sem alinhar comigo. Isso foi motivo de repreensão à minha equipe. Independentemente de o que aconteceu, deveriam ter me acessado. Eu estava absolutamente disponível pelo celular. Sem dúvida foi uma coisa anormal [pagamento das notas sem consentimento]”.

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'Impeachment? Isso não existe', diz Augusto Melo sobre possibilidade de deixar a presidência do Corinthians

Presidente do clube concede entrevista coletiva nesta segunda-feira (10) para prestar esclarecimentos sobre as recentes polêmicas que envolvem o time

Essa, segundo Rozallah Santoro, foi uma das ingerências vividas durante o período à frente do departamento financeiro do Corinthians.

O ex-dirigente revelou ainda que atravessou um período de isolamento no clube nas semanas antes de entregar o cargo e deixar a função.

Santoro, inclusive, descartou que tenha visto as declarações sobre “traição” feitas por Augusto Melo como uma indireta a ele e seu grupo político após o desembarque da gestão.

“Na fala do presidente, quando ele diz que se sente traído por quem saiu, eu não visto essa carapuça. Em momento nenhum a gente deixou de apoiar, trabalhar pela gestão, empenhar toda energia disponível para fazer a coisa dar certo. Quem conviveu comigo no clube sabe que eu chegava 8h30 da manhã e saia 19h30. Estava lá todos os dias à disposição dele. Essa carapuça não me serve. O meu desgaste com a gestão tem exatamente uma gênese em pareceres técnicos que não foram seguidos”.

“Quando você fala em fluxo de caixa, há coisas que você não pode deixar de pagar. No começo da gestão tudo ia muito bem. A gente conseguiu equacionar e equilibrar os investimentos que precisa ser feito na reestruturação do elenco. E se acertados ou não, não estou questionando isso. A gente conseguiu equacionar a parte de investimentos que seriam feitos nesse primeiro ciclo para remontar o elenco com a venda de jogadores. O que a gente tinha para investir na remontagem do elenco era um recurso que tinha origem no próprio elenco, que era a venda do Moscardo. A gente sabia que iria sofrer com um fluxo de caixa. Em que pese a gente saber o tamanho do problema, surpreendeu a quantidade de valores vencidos que a gente pegou. Quando a gente fala de curto prazo, se pressupõe que tem algum prazo. A gente encentrou uma situação que tinha um pouco mais de um ano e meio de resultado operacional vencido. Isso é uma situação absolutamente desesperadora em termos de fluxo de caixa”.

“Dito isso, a gente tem que olhar fonte de receita. Posso contar: um dos meus votos vencidos foi a precificação de ingresso. Todas as propostas de precificação que fizemos preservaram três setores do estádio: norte, sul e leste superior. Como se a gente criasse um anel com os ingressos mais acessíveis. Preservado isso, a gente tinha que buscar a receita prevista para a bilheteria em outros setores. Um exemplo prático: se a gente fizer uma projeção pelo preço atual que se cobra nos ingressos, a gente já abre um gap orçamentário de R$ 20 milhões no ano. A gente não está entregando a meta orçamentária de receita. Nosso parecer técnico era: você tem produtos diferentes e que terão preços diferentes. ‘Ah, mas eu fiz a promessa de ingresso popular. Você não vai mexer no ingresso popular’. Assim como esses há exemplos de pareceres técnicos que foram dados no âmbito do trabalho da Ernst & Young, que na hora de serem implantadas, o que prevaleceu foi a decisão política. Esse é o tipo de coisa que para o financeiro, na situação em que a gente está, você é o portador da má notícia. Quem é que quer receber uma pessoa que vai dizer que não tem dinheiro, que não pode gastar. E sendo o portador da má noticia, somado a outras desavenças normais do dia a dia, fato é que houve um distanciamento do Augusto em que teve período de mais de um mês em que eu não tinha interlocução com ele. Minha interlocução com ele era via Marcelinho [Marcelo Mariano, atual Diretor Administrativo], ou via Vinícius Cascone [Secretário Geral]”.

“Fui retirado de algumas pautas. Estava liderando e com autonomia a negociação dos direitos e transmissão, e fui afastado disso. Passei a ter que pedir benção para tudo. A caneta é dele [Augusto Melo], faz parte. Eu fazia toda semana uma projeção de fluxo de caixa, mostrava o que a gente iria pagar. E vocês conhecem um pedaço da história. Quando começa a ter a ingerência. Faz parte do jogo discutir o que é prioridade de pagamento, tudo tem um motivo. Quando a gente não chega a uma conclusão, alguém dá o voto de minerva. Quando isso não vem do presidente, vira uma questão de ingerência. O Marcelo descia no meu andar e dizia: ‘O presidente me pediu para vir aqui ver isso, isso e isso’. Mas o presidente podia me ligar. Eu estava no meu ramal, não precisava nem ser no celular. O fato de não ter interlocução é muito ruim. No final do dia o meu CPF está lá. Se eu estou fazendo parte da gestão e sei da história profissional que eu tenho, não posso estar à margem do processo decisório, e não posso ter alguém entre eu e o presidente fazendo o papel de interlocução. A relação veio se desgastando por causa disso”.

“A decisão de sair aconteceu duas semanas atrás, e tinha relação com ingerência. Foi no dia em que o Sergio [Moura, ex-superintendente de marketing] se afastou. Teve aquele podcast do Cross. E no podcast, em uma das falas, o Augusto diz: ‘O Marcelo vai lá mesmo, autoriza 30 ou 40 pagamentos por dia. E é para ele ir lá mesmo’. Quando eu fui falar com o Augusto, eu disse: ‘Você já me demitiu no podcast. Eu só vim aqui te entregar o cargo’. Ele disse: ‘Não, isso não vai mais acontecer. Autonomia total, ingerência zero’. Demos um voto de confiança, e que não durou duas semanas. Nessa semana mesmo eu tive um episódio evidente de ingerência. Não a ver com prioridade de pagamento, mas com um processo interno dentro do departamento financeiro que quem aprovou eletronicamente foi o Marcelinho à revelia mais uma vez. Pensando profissionalmente no que eu estava fazendo, eu entendi: ‘Não me querem mais aqui’. A sugestão técnica não tem peso, a decisão é política. Então você não precisa de gente técnica na gestão por não estar fazendo uma gestão técnica. Chegou uma hora que, se eu não tenho interlocução com a pessoa que decide, eu não posso correr o risco de o fluxo de informação chegar para essa pessoa de forma distorcida e no final do dia estar assinando uma coisa que não foi exatamente o que eu tenho conforto em assinar”.

O Corinthians ainda não anunciou um novo nome para a função de diretor financeiro após a saída de Rozallah Santoro. O cargo de diretor jurídico, vago desde a renúncia de Yun Ki Lee, será ocupado por Leonardo Pantaleão.

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