Há exatamente um ano, a Argentina de Lionel Messi venceu a França em uma das maiores finais de Copas do Mundo, e conquistou o terceiro título mundial de sua história. Depois de um emocionante 3 a 3 no tempo normal e na prorrogação, a festa dos sul-americanos só aconteceu após triunfo por 4 a 2 nos pênaltis.
Em entrevista ao Star+, Lionel Messi deu a sua visão de como foi a Copa do Mundo, os bastidores das partidas e o que o craque pensou antes de cada duelo decisivo da Argentina no Mundial do Qatar. O ponto de partida, aliás, foi um grande balde de água fria para os “hermanos”.
Argentina x Arábia Saudita
A equipe de Lionel Scaloni perdeu, de virada, para a modesta seleção da Arábia Saudita, gerando preocupação em Messi. Ao Star+, o craque falou em sentimento de vergonha, mas destacou que o grupo soube lidar com a pressão pela má estreia, algo fundamental para a sequência da equipe na Copa.
“No dia seguinte, tivemos permissão para sair com visitantes ou fazer o que quiséssemos. Deixei aquele dia passar para que eles esquecessem o que tinha acontecido e então mandei uma mensagem para o grupo. E aí começamos a avançar, cada um dizendo o que pensava daquele momento”, disse Messi.
“Não tínhamos nada para nos culpar, tinha sido uma vergonha. Foi um momento de não cair e continuar confiando no que vínhamos fazendo. Não podíamos ter dúvidas, não precisávamos mudar nada. Eu disse: ‘Esqueça o que aconteceu e comece do zero, porque se vencermos os dois jogos, nos classificaremos em primeiro lugar no grupo”.
Argentina x México
O confronto seguinte seria contra o México e uma vitória era fundamental para manter vivo o sonho de classificação. Em um tenso confronto, coube a Messi resolver e abrir o marcador, já no segundo tempo, trazendo tranquilidade ao time. Para o astro, a campanha da seleção na Copa “recomeçou” após o triunfo contra os mexicanos.
“Foi muito difícil jogar contra o México. Sempre foi um rival difícil, nos enfrentamos muitas vezes e apesar de quase sempre vencermos, sempre foi difícil. Eles deixaram a bola com a gente, nos fazem correr, é difícil pressioná-los. Foi um dos jogos mais difíceis ao nível da cabeça”.
“Depois desse gol, o time começou a jogar como vinha fazendo. Um peso foi tirado de seus ombros e ele relaxou. O jogo foi diferente. Sabíamos que a Copa do Mundo estava recomeçando para nós. O jogo contra o México foi o ponto de partida. Mais do que nunca tínhamos que ser o que tínhamos sido e assim foi. A equipe foi melhor em todos os jogos”.
Argentina x Polônia
A Argentina estava de volta aos trilhos e coroou a “correção de rota” com um 2 a 0 em cima da Polônia, na última rodada da fase de grupos. Apesar da vitória, o duelo ficou marcado por um pênalti perdido por Messi ainda no primeiro tempo.
“Apesar das coisas ruins, tirei muitas coisas positivas daquele pênalti. A partir daí, comecei a chutar de diferentes formas nos treinos. Voltei como nos velhos tempos, comecei a assistir, esperando mais um pouco, até o último segundo. Marquei muitos pênaltis contra o Rulli, contra o Franco (Armani), mas menos contra o Dibu”.
Alívio com eliminação do Brasil e “drama” contra a Holanda
Nas oitavas, a Argentina despachou a Austrália nas oitavas de final e enfrentaria a Holanda na fase seguinte. Mas, antes do duelo diante da seleção de Van Gaal, Messi e cia. estavam de olho na partida entre Brasil e Croácia, que terminou com a eliminação brasileira nos pênaltis.
A queda da equipe de Tite, nas palavras de Messi, foi um “alívio” para os “hermanos”. “Saímos para jogar contra a Holanda, com o Brasil vencendo por 1 a 0. Perto do estádio veio o empate e a prorrogação. No vestiário, eu estava me massageando e começaram os pênaltis”.
“Nós estávamos assistindo pelo telefone em uma sala, e Agüero estava me alertando sobre os pênaltis. Eu estava me aquecendo e vendo suas mensagens. Os pênaltis terminaram e saímos para nos aquecer. Começou a gritaria, jogar contra o Brasil é muito difícil numa Copa do Mundo. A raiva que veio da Copa América por sermos campeões lá. Foi um alívio para nós a queda do Brasil”.
Em campo, a Argentina mais uma vez viveu um drama ao levar o empate por 2 a 2 graças a um gol de Weghorst, aos 55 minutos do segundo tempo. Em meio ao confronto, Messi mostrou uma personalidade mais agressiva do que o habitual ao bater boca com Louis Van Gaal e membros do banco de reservas holandês.
"Eu não estava irritado. Me incomoda quando as pessoas falam fora de campo e desrespeitam o rival. Eu nunca fui assim. Um milhão de coisas podem acontecer em campo e tudo permanece lá. Antes do jogo eu nunca fazia isso e não gosto quando fazem isso comigo. Acho que (Van Gaal) fez um pouco de propósito, o goleiro também falou. Eu não gosto”, explicou.
Argentina x Croácia
Após o duro golpe do empate sofrido no fim, a Argentina voltou a respirar aliviada ao vencer, nos pênaltis, por 4 a 3. Na semifinal, o rival da vez seria a Croácia, algoz da seleção brasileira. Com uma atuação impressionante, os “hermanos” atropelaram os europeus por 3 a 0.
O grande lance da semifinal foi de Messi. O craque recebeu uma cobrança de lateral pelo lado direito de campo e fez o que quis com o zagueiro Gvardiol. Após lindo lance, o craque só rolou para Julián Álvarez fazer o terceiro e coroar a ovação ao camisa 10 no Qatar.
“Quis levar a bola para dentro, tentar cruzar na corrida, mas não consegui. A bola saiu do meu caminho, por isso parei. Eu parei a corrida e me comprometi a ir para um lado e ir para o outro. Mas, a primeira intenção foi cruzar na frente dele para que ele me fizesse falta ou para que eu não tocasse e fosse para o gol”, explicou o astro.
Argentina x França
Na grande final, Messi e cia. teriam pela frente ninguém menos do que a França de Kylian Mbappé, atual seleção campeã mundial. Messi, mais uma vez, foi um dos grandes nomes da partida. Com uma atuação avassaladora, a seleção sul-americana abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo com gols do camisa 10 e de Ángel Di María. “O contra-ataque que marcamos foi terrível. Muito rápido, foi um golaço”, disse o astro ao falar sobre o segundo gol.
Porém, a final estava longe de terminar. No segundo tempo, a França reagiu e empatou o confronto em 2 a 2. Messi conta que ficou possesso com o segundo gol francês, que nasceu de uma perda de bola do próprio craque.
“Fiquei com muita raiva porque tinha perdido a bola. Aconteceu o mesmo no jogo com a Croácia. Queria levar para a bola dentro, saiu e acabei perdendo. A raiva do gol ter vindo de uma derrota minha, embora tenha sido no meio-campo e longe. Foi uma bola que tivemos”.
Coube então a Messi voltar a marcar, desta vez, na prorrogação. Para o astro, a final estava terminada. “Eu tinha certeza de que a bola havia entrado, então percebi que eles estavam verificando se estava impedido. Depois de tudo o que aconteceu, pensei que estava tudo acabado”.
Mas, a França foi valente e buscou mais uma vez o empate com Mbappé, que havia marcado os outros dois gols.
Pênaltis da decisão
Com o resultado de 3 a 3, os pênaltis mais uma vez entraram em ação. A Argentina foi perfeita na marca da cal, enquanto Coman e Tchouaméni desperdiçaram suas cobranças.
A derradeira batida estava nos pés de Gonzalo Montiel. Ao Star+, Messi contou a aflição que viveu momentos antes do pênalti e relembrou todo o sofrimento dele e de sua família com relação aos maus resultados da seleção argentina em Mundiais anteriores.
“Pedi a Deus e estava falando com Montiel para marcar. Apesar de estarmos tranquilos porque o Dibu salvou dois, tivemos mais chances. Eu disse a ele para terminar ali, para terminar tudo”.
“Minha família sofreu muito mais do que eu porque vivenciou o mesmo ou muito mais do que eu. Tanto as alegrias quanto as derrotas. Tendo contado com todos estes anos de críticas da seleção. Minha mãe, meu pai, meu irmão, minha irmã, meu sobrinho, que também mora na Argentina e cresceu com tudo isso. Sempre crítico e sempre me matando. Foi uma espécie de dizer 'É isso, conseguimos, conseguimos tudo, o melhor é a Copa do Mundo'. É isso, acabou”.
E acabou nos pés de Gonzalo Montiel. O argentino marcou o quarto gol de pênalti, que fez explodir a torcida no Qatar. Há exatamente um ano, estava selado o primeiro título de Copa do Mundo da história de Lionel Messi e o terceiro dos “hermanos”.
Por fim, Messi revelou como foi o olhar à icônica taça antes de erguê-la para o mundo: "Comecei a tocá-la, estava andando e foi a primeira vez que a vi. Tinha luz, brilhava. Foi surpreendente. É isso, posso tocar agora. Ela era bonita”.
A entrevista de Lionel Messi foi concedida para a série "Campeões, um ano depois", exclusiva do Star+ e ainda sem data de estreia prevista para o Brasil.
