<
>

Das polêmicas com galácticos no Real à influência em contratações: por que o Chelsea escolheu Xabi Alonso

O Chelsea anunciou nos últimos dias a contratação de Xabi Alonso, ex-treinador do Real Madrid e do Bayer Leverkusen, para a vaga de Liam Rosenior. O acordo é válido por quatro anos, e o espanhol começará no cargo a partir do dia 1° de julho.

Em seu último trabalho, no Real Madrid, Xabi Alonso conviveu com crises e durou apenas 233 dias no comando. Por que, então, o Chelsea está dando uma chance desta para ele? A ESPN traz informações sobre o que deu errado para o técnico em Madri e o que ele pode fazer na Premier League.

Passagem pelo Real Madrid:

Confrontos com jogadores:

Se fosse preciso apontar um único fator determinante para explicar o fracasso de Alonso no Bernabéu, seria a forma como seu relacionamento com jogadores importantes se deteriorou durante os sete meses nos quais ele esteve no comando da equipe.

A ESPN noticiou em janeiro que Vinícius Jr., Jude Bellingham e Federico Valverde eram três jogadores de destaque que não haviam se adaptado aos métodos de Alonso.

A relação de Vinícius com o técnico começou a “derreter” poucas semanas após a chegada de Alonso, e o jogador e seu estafe logo se convenceram de que o novo treinador não era fã dele.

O “estopim” foi o fato do treinador ter cogitado escalar o ponta-esquerda numa posição incomum para ele, a ponta-direita, e ao planejar não escalá-lo na semifinal do Mundial de Clubes do Real Madrid contra o Paris Saint-Germain, antes de uma reformulação forçada por lesão o trazer de volta ao time titular.

No início de LALIGA, Alonso deixou Vinícius fora da equipe diversas vezes, apesar de ele estar em plena forma física.

A situação explodiu publicamente quando Alonso o substituiu durante o clássico de outubro contra o Barcelona. Vinícius reagiu com raiva, gritando: "Vou embora, é isso?", enquanto saía furioso em direção ao túnel. Essa relação nunca se recuperou, com fontes próximas ao jogador dizendo à ESPN que o técnico foi um grande obstáculo para a renovação do contrato do craque, que termina em 2027.

Assim como Vinícius, o meio-campista Valverde também se mostrou insatisfeito por atuar fora de posição. "Eu não nasci para jogar na lateral direita", declarou à imprensa durante uma partida da Champions League, contra o Kairat Almaty.

Foi nesta ocasião que o uruguaio também foi visto se aquecendo na linha lateral com pouco entusiasmo aparente, após ser deixado fora da equipe.

Alonso também tinha uma visão para o meio-campista Bellingham, que contrastava com a liberdade de movimento que ele desfrutava anteriormente. "Quero que [Bellingham] seja o mais eficiente possível", disse Alonso no início da temporada.

"Jude tem capacidade para cobrir muito campo, mas precisa começar no lugar certo." Em janeiro, o inglês negou os relatos de descontentamento nos bastidores como "fabricados ou exagerados". Mas Alonso foi demitido quatro dias depois.

Dúvidas por parte dos dirigentes do clube

A forma como Alonso lidou com os craques do Real Madrid só aumentou as dúvidas na diretoria sobre se ele era o homem certo para o cargo. A ESPN noticiou que o presidente Florentino Pérez estava preocupado com a falta de experiência, mas Alonso era o favorito do diretor-geral do Real Madrid, José Ángel Sánchez, cuja recomendação foi aceita por Pérez.

Alonso estava ciente dessas dúvidas, assim como os jogadores. Isso significava que ele estava em desvantagem desde o início, e quaisquer problemas ao longo do caminho só aumentavam a incerteza.

Quando as crises explodiram, Alonso não recebeu o apoio incondicional do clube. Em vez disso, suas decisões foram questionadas, com indícios nos bastidores de que o treinador era, pelo menos em parte, culpado.

Alguns dirigentes já duvidavam da gestão de Alonso em relação a Vinícius desde o início, e havia preocupações com o condicionamento físico e o histórico de lesões da equipe.

Conforme a temporada do Real Madrid desandava em dezembro, uma fonte disse à ESPN que Alonso, pressionado a reverter a situação, parecia apático e abatido no centro de treinamento de Valdebebas.

Quando Alonso foi finalmente demitido em janeiro deste ano, houve arrependimento por parte de algumas figuras importantes do Real Madrid pelo fato de a decisão de demiti-lo não ter sido tomada antes, em vez de permitir que uma situação insustentável se arrastasse.

Decepções em jogos importantes

Em janeiro, o Real Madrid já havia sofrido algumas derrotas significativas, minando ainda mais a confiança no projeto. A primeira ocorreu no início da temporada, quando o time foi goleado por 4 a 0 pelo PSG na semifinal do Mundial de Clubes, no primeiro teste de Alonso contra um adversário de elite.

Alonso estava relutante em assumir o comando antes do Mundial de Clubes, acreditando que seria preferível começar depois, mas as circunstâncias — com a saída do ex-técnico do Real Madrid, Carlo Ancelotti, para assumir a Seleção Brasileira — o obrigaram a fazê-lo. Isso resultou em uma estreia apressada e uma pré-temporada conturbada.

"Acho que a origem disso está no Mundial de Clubes", disse Pérez em entrevista na última semana, quando questionado sobre a má temporada do Real Madrid. "Não tivemos pré-temporada. Tivemos lesões... Pensamos que com uma mudança [a saída de Alonso] poderíamos resolver o problema."

Apesar do bom desempenho do Real no início da temporada 2025/26 — com 13 vitórias nos primeiros 14 jogos —, o próximo grande desafio trouxe outra derrota esmagadora: 5 a 2 para o Atlético de Madrid. "Foi um jogo ruim", admitiu Alonso depois da partida. "Não jogamos bem, com ou sem a bola... Sabemos que estamos em uma 'fase de reconstrução'. Mas não há desculpas."

Apesar de ter sido o primeiro revés do Real Madrid na temporada, o resultado abalou a confiança em Alonso. Em seguida, vieram duas derrotas na Champions League, para Liverpool e Manchester City, em uma sequência de apenas duas vitórias em oito jogos.

Foi por volta da partida contra o City, que aconteceu três dias depois da derrota para o Celta de Vigo em dezembro, em LALIGA, que o clube começou a cogitar seriamente a sua demissão.

Não há muita paciência em Madri. E, naquela altura, a confiança no treinador, nos seus métodos e na sua aptidão para o cargo já se estava perto de um esgotamento.

Houve algum aspecto positivo?

Seria injusto e impreciso descartar a breve passagem de Alonso pelo Real Madrid como um fracasso absoluto. Houve sinais, no Mundial de Clubes e nos dois primeiros meses de LALIGA, de uma equipe com ideias novas e uma identidade coletiva mais coesa. O futebol não era brilhante, mas muitas vezes era eficaz.

O ponto alto foi, sem dúvida, a vitória do Real Madrid por 2 a 1 sobre o Barcelona, em 26 de outubro. O Barça havia vencido todos os quatro clássicos da temporada 2024/25, por placares expressivos (como o 4 a 0 no Bernabéu).

Nesse contexto, a vitória de outubro foi psicologicamente importante para restabelecer a sensação de equilíbrio entre as duas equipes. Infelizmente para Alonso, a partida também foi palco da rebeldia de Vinícius em campo, que, de muitas maneiras, marcou o início do fim.

Parte do fracasso de Alonso pode ser atribuído às peculiaridades do clube, ao seu vestiário repleto de estrelas acostumadas à abordagem liberal de Ancelotti e à impaciência incansável de Pérez.

"Já demiti três treinadores em uma temporada", disse o presidente esta semana ao ser questionado sobre Alonso. "Não é a primeira vez que isso acontece." No entanto, também existem questões legítimas a serem levantadas sobre a incapacidade de Alonso de adaptar uma abordagem que se mostrou eficaz no Bayer Leverkusen a um ambiente muito diferente.

Início no Chelsea

Por que Alonso e por que agora?

Vamos voltar 12 meses, quando Alonso anunciou sua saída do Bayer Leverkusen. Na época, o treinador de 44 anos era um dos jovens talentos mais promissores do futebol europeu, e o Real Madrid acreditava estar contratando a próxima grande estrela do futebol europeu.

O Chelsea ainda acredita que está contratando alguém que continua sendo um dos melhores jovens treinadores do futebol. Os proprietários e diretores esportivos do clube tinham uma lista restrita que incluía Andoni Iraola, do Bournemouth, Marco Silva, do Fulham, e Alonso, ao iniciarem a busca por um sucessor para Rosenior.

Fontes disseram à ESPN que a contratação de Rosenior foi vista como um erro e uma lição aprendida pela diretoria, e que a principal conclusão foi que o elenco precisava de um técnico experiente e com histórico comprovado para conduzi-lo adiante e garantir que os jogadores realizassem seu potencial.

Alonso ainda tem pouca experiência, aos 44 anos, mas o Chelsea precisava agir rápido para evitar a possibilidade de o Liverpool contratá-lo caso Arne Slot fosse demitido do Anfield.

E o clube acredita ter contratado um técnico de alto nível a tempo de influenciar as contratações e saídas no mercado de transferências da janela de verão... o que é um dos principais motivos para a saída de outros jogadores.

Que garantias Alonso pediu/recebeu?

Fontes disseram à ESPN que Alonso quer que o Chelsea aprimore seu modelo de contratações, investindo em jogadores mais experientes em vez de se concentrar apenas em novos talentos, algo em que já gastou mais de 2 bilhões de libras com pouco retorno nos últimos anos.

Fontes afirmaram que o Chelsea agora entende a importância de ter jogadores mais experientes em elenco talentoso, porém jovem e em grande parte inexperiente, enquanto Alonso também espera que sua voz tenha mais peso do que a de seus antecessores quando se trata de gestão e desenvolvimento da equipe.

A recusa do clube em alterar seu plano de contratações foi um problema que frustrou tanto Pochettino quanto Maresca, mas fontes afirmaram que Alonso assumiu o comando após ser informado de que o recrutamento evoluiria.

Tendo trabalhado em uma estrutura no Leverkusen que incluía diretores esportivos e técnicos, as fontes acrescentaram que Alonso está familiarizado com o modelo do Chelsea e confortável com sua abordagem (os Blues têm cinco diretores esportivos, incluindo Paul Winstanley e Laurence Stewart), mas que são necessários os ajustes que ele deseja implementar.

Embora a estrutura do Chelsea continue a envolver a participação de diretores esportivos, analistas de dados e do departamento médico do clube, Alonso terá mais controle do que qualquer um de seus antecessores durante a era BlueCo.

Como ele vai jogar? Com três zagueiros ou no esquema 4-3-3?

O sucesso de Alonso no Leverkusen teve como base a sua formação 3-4-3 e ele tem os jogadores para seguir um caminho semelhante no Chelsea.

A chave do sistema está nos laterais, com Jeremie Frimpong (atualmente no Liverpool) e Alex Grimaldo desempenhando papéis importantes para Alonso no Leverkusen.

Malo Gusto e Marc Cucurella têm qualidade para jogar como laterais sob o comando de Alonso no Chelsea, enquanto Enzo Fernández e Moisés Caicedo não teriam problemas para atuar como os dois volantes, com Cole Palmer potencialmente desempenhando a função de Florian Wirtz como um camisa 10 atrás do atacante.

Mas, após se transferir para o Real Madrid, Alonso adotou o esquema tático 4-2-3-1, que tem sido frequentemente utilizado pelo Chelsea nas últimas temporadas.

Independentemente do sistema tático que escolher, Alonso tem jogadores suficientes para ser flexível, mas a profundidade do seu elenco pode ditar qual caminho ele seguirá regularmente.

A contratação de Alonso significa que os principais jogadores do Chelsea vão ficar?

O Chelsea está em 9° lugar na tabela com 49 pontos, mas entra na última semana da temporada com uma remota chance de se classificar para uma competição europeia na próxima temporada.

O cenário mais realista é que o clube não consiga vagas em competições europeias, o que levanta dúvidas sobre permanências de jogadores importantes como Enzo Fernández, Cole Palmer e João Pedro , que, segundo fontes da ESPN, está na lista de alvos do Barcelona para substituir Robert Lewandowski.

A contratação de Alonso é uma declaração de intenções da diretoria do Chelsea. Sua reputação como jogador e treinador é considerada um fator significativo para convencer os principais nomes do clube a permanecerem e contribuirá para persuadi-los de que o clube está falando sério em termos de disputar grandes títulos.

No entanto, sua queda no Real Madrid se deveu em grande parte à sua incapacidade de gerir um elenco de grandes estrelas e egos; ele nunca conseguiu criar um ambiente harmonioso no vestiário.

Rosenior perdeu o emprego no Chelsea por razões semelhantes – resultados e descontentamento dos jogadores – embora grande parte de sua incapacidade de convencer os jogadores se devesse à falta de experiência de alto nível dele.

Alonso tem isso de sobra e é improvável que enfrente o ceticismo do elenco que acabou afetando Rosenior. Quando entrar no centro de treinamento, Alonso conquistará instantaneamente o respeito e a autoridade que Rosenior nunca conseguiu, então ele tem grandes chances de manter o elenco unido para o futuro.

*Com informações de Alex Kirkland e Mark Ogden