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Da guerra na Ucrânia à estreia na Champions: a história de Guilherme Smith

Guilherme Smith, do Union St. Gilloise Getty Images

Em fevereiro de 2022, enquanto a Rússia iniciava a invasão em larga escala da Ucrânia, Guilherme Smith fugia a pé do país. A escalada militar no território ucraniano fez com que o atacante brasileiro, ao lado de companheiros do Zorya Luhansk, precisasse abandonar às pressas o leste ucraniano para tentar salvar a própria vida. Quase quatro anos depois, Guilherme estreava na Champions League.

A trajetória percorrida pelo jogador nascido em Juiz de Fora (MG) parece improvável até para a ficção. Do som das explosões no Leste Europeu ao hino da Champions na Allianz Arena, um dos estádios mais imponentes do futebol mundial, Guilherme atravessou fronteiras físicas, emocionais e profissionais.

"Na hora em que tocou o hino, passou um filme na cabeça. Eu assistia aos jogos da Champions com o meu pai, com os amigos em casa. Ficávamos conversando, sonhando que um dia eu estaria ali, mas não imaginava que seria tão rápido assim", afirmou em entrevista exclusiva à ESPN, após a partida em que o Union Saint-Gilloise foi derrotado pelo Bayern, por 2 a 0, em Munique, na última quarta-feira.

Uma imagem chamou a atenção de quem acompanhava a transmissão. Quando o hino da Champions começou a tocar, a câmera passou pelo brasileiro e flagrou seu sorriso - um sorriso genuíno. "Minha forma de expressar emoção não é através de lágrimas, e sim de sorrisos. Por isso dei aquela risada de alegria. Estava desfrutando muito aquele momento, porque sabia que era algo especial na minha vida e na vida dos meus familiares".

Ex-Botafogo, Guilherme atuava no Zorya ao lado dos compatriotas Juninho e Cristian Dall Bello. Todos foram pegos de surpresa pela escalada da guerra e, juntos, iniciaram a fuga do leste ucraniano. Luhansk fica na região de Donbass, área estratégica e disputada desde 2014, que se tornaria um dos primeiros focos da nova invasão russa em fevereiro de 2022.

Com o grupo estavam a esposa de Juninho e o filho pequeno do casal, de apenas três anos. Conseguiram deixar a região de trem, mas o país já vivia um colapso logístico. Estações lotadas, informações desencontradas e a ausência de qualquer coordenação oficial expunham um Estado em ruptura.

O objetivo era chegar à fronteira com a Polônia. Quando se aproximaram, porém, já não havia mais meios de transporte disponíveis. Optaram por caminhar cerca de 60 quilômetros, em meio ao frio, à incerteza e carregando uma criança pequena. Ao alcançarem a divisa, foram impedidos de atravessar. Passaram a noite ao relento, sem abrigo, com o calor de uma fogueira, antes de serem obrigados a retornar a Lviv.

"Esta noite foi a mais triste da minha vida, e com certeza a pior. A divisa da Ucrânia com a Polônia não é nada do que falam. Andamos 60 km para chegar lá. Quando chegamos, fomos tratados como lixo".

O desabafo foi publicado por Guilherme Smith em seu Instagram no dia 27 de fevereiro daquele ano. A mensagem expunha mais do que o cansaço físico: revelava a sensação de abandono. Naquele dia, não havia sorrisos. Havia lágrimas, medo e desespero. A travessia para a Polônia só aconteceu quatro dias depois, em 1º de março.

A retomada da carreira começou longe dos holofotes. Emprestado pelo Zorya ao sub-23 do Braga, em Portugal, Guilherme precisou recomeçar praticamente do zero. Foi na Estônia, porém, que conseguiu reconstruir sua trajetória esportiva.

Contratado pelo Nõmme Kalju, disputou 44 jogos entre 2024 e 2025, marcou 16 gols, deu 14 assistências e voltou a se colocar no radar do futebol europeu. O desempenho chamou a atenção do Union Saint-Gilloise, que em agosto acertou contrato até 2029 com o atacante brasileiro.

"Vinha jogando como titular no Campeonato Belga e na Copa, então eu esperava iniciar contra o Bayern. Mas, claro, é uma ansiedade tremenda fazer sua estreia na Champions. Tentei ao máximo controlar, mas fiquei bastante ansioso no dia anterior".

Guilherme passou a receber mais oportunidades com o técnico David Hubert, no cargo desde outubro, após a saída de Sébastien Pocognoli para o Monaco. Em Munique, atuou como ala pela esquerda, fechando a linha de cinco defensores. Em muitos momentos, teve a responsabilidade de marcar Michael Olise, um dos destaques da temporada europeia.

"Eles erram muito pouco. É preciso estar com o nível de concentração muito alto. Qualquer brecha, eles aproveitam. Foi uma experiência incrível. Tomamos dois gols no segundo tempo, mas acredito que fizemos um bom jogo. Eles têm muita tranquilidade para jogar, para buscar o resultado. Sabem que são bons, esperam muito dos seus pontas e do Harry Kane".

Algo marcante nas conversas com Guilherme Smith é sua autoconfiança. Em entrevista ao podcast Futebol no Mundo, em maio do ano passado, quando ainda era destaque na Estônia, já colocava a seleção brasileira como objetivo e afirmava que todos ainda ouviriam falar muito dele. Agora, começam a ouvir.

"Percebi contra o Bayern que tenho nível para jogar nesses times também. Estou em um grande clube, aproveitando as oportunidades e trabalhando muito forte para, quem sabe um dia, estar em um clube desses também".

Quase quatro anos depois de atravessar fronteiras a pé para sobreviver, Guilherme Smith atravessava outro limite: o da elite do futebol europeu.