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'Só queria ir embora': brasileiros revelam bastidores do que aconteceu com Milan em final épica da Champions em Istambul

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Kaká relembra derrota do Milan para o Liverpool na Champions de 2004/05: 'Surreal tomar três gols em seis minutos' (4:07)

Na única decisão da Champions disputada no estádio Olímpico Atatürk, o Liverpool venceu o título de 2005 nos pênaltis após o Milan abrir 3 a 0. E o "Milagre de Istambul" até hoje não saiu da memória dos jogadores derrotados. (4:07)

O palco da final entre Manchester City e Inter de Milão ficou marcado por uma das maiores viradas da história do futebol. Na única decisão da Champions League disputada no estádio Olímpico Atatürk, o Liverpool venceu o título de 2005 nos pênaltis após o Milan abrir 3 a 0 no primeiro tempo. O duelo, que ficou conhecido como o "Milagre de Istambul", até hoje não saiu da memória dos jogadores derrotados naquele 25 de maio.

Os rossoneros, que haviam vencido a competição em 2003 e eram os principais favoritos, entraram em campo com um esquadrão estrelado por nomes como Kaká, Andriy Shevchenko, Alessandro Nesta, Clarence Seedorf, Andrea Pirlo e outros craques, enquanto os Reds eram uma equipe bem mais modesta, tendo como principal líder o meio-campista Steven Gerrard.

Logo no primeiro minuto de jogo, o Milan abriu o placar com Paolo Maldini. Antes do intervalo, Hernán Crespo balançou as redes mais duas vezes, uma delas com assistência primorosa de Kaká. Parecia que o título estava nas mãos dos comandados por Carlo Ancelotti...

No retorno para o segundo tempo, Shevchenko soltou uma bomba e quase fez o quarto gol, mas foi parado por uma ótima defesa de Dudek. Em seguida, o Liverpool acordou e protagonizou uma reação incrível em apenas sete minutos. Gerrard, Smicer e Xabi Alonso deixaram tudo igual.

"É uma final que ninguém sabe explicar e até hoje nós procuramos uma explicação. A gente vinha de uma sequência de vitórias em qualquer lugar da Europa. Nós tivemos um primeiro tempo em que o Liverpool parecia um time de segunda divisão. Eles não conseguiam ver a bola, não pegavam na bola. Nós amassamos e fomos muito superiores", disse Serginho, ex-lateral do Milan e com passagens por São Paulo e Cruzeiro, ao ESPN.com.br.

"Com a qualidade dos jogadores nós tínhamos e pela vantagem que construímos, foi muito surreal! Nos gols que nós levamos podem até ter ocorrido algum erro individual, mas no geral não foram nada absurdos. O Dida até defendeu um pênalti do Alonso, mas no rebote ele fez o gol", disse Kaká, também ao ESPN.com.br.

Após o apagão, o Milan se recuperou e teve outras chances de vencer a partida. No tempo normal, Traoré, dos Reds, salvou um chute de Shevchenko em cima da linha. No final da prorrogação, o goleiro polonês Dudek fez dois milagres no mesmo lance, ao defender uma cabeçada do ucraniano e depois pegar - quando estava caído no chão - o rebote do próprio atacante, que dentro da pequena área soltou uma bomba à queima-roupa.

"Aquela bola foi um milagre que não tem explicação no mundo do futebol", disse Serginho.

Na decisão por pênaltis, o Liverpool converteu três das quatro primeiras cobranças. Em compensação, o Milan desperdiçou os dois primeiros chutes com Serginho e Pirlo.

"O sentimento era que por tudo o que aconteceu não iríamos vencer nos pênaltis porque tivemos chances, mas o Dudek pegou. Para você ter uma ideia, os nossos primeiros cobradores eram os que tinham os melhores aproveitamentos nos treinos. Foi um abalo muito grande no nosso time", recordou o ex-lateral.

Em seguida, Tomasson e Kaká converteram suas cobranças. No entanto, Shevchenko deu uma cavadinha quase no meio do gol e viu Dudek fazer a defesa para garantir o título para os Reds.

"Foi uma derrota muito dura pela forma que aconteceu. Era a minha primeira final e pensei: 'Será que terei outra oportunidade de chegar aqui de novo e ser campeão um dia?'. Lembro muito pouco de tudo porque foi tão duro ter que ficar no campo depois para receber a medalha de prata. Só queria ir embora, mas tive que viver esse processo que te faz crescer e entender que os outros estavam ali vencendo. Quando chegamos ao hotel teve um jantar bem triste e cada um foi para o seu quarto", recordou Kaká.

A revanche em 2007

Após perder a final em uma quarta-feira, o Milan voltou a campo contra a Udinese, no domingo, brigando pelo titulo do Italiano contra a Juventus.

"Foi uma lição muito boa profissional e de vida. Foi muito interessante aprender com meus companheiros a velocidade de reação. Não tivemos tempo de lamentar e tínhamos que ganhar de qualquer jeito. Ver como eles reagiram foi muito legal essa superação e resiliência: 'Perdemos, vamos corrigir as falhas e ir para outra'", afirmou o antigo camisa 22.

Mesmo com a derrota, a diretoria do Milan manteve o técnico Carlo Ancelotti e boa parte do elenco.

"Esse trabalho foi muito importante de liderança tanto do treinador de motivar e trazendo o time de volta quanto dos atletas. Era um time com muitos lideres como o Maldini, Costacurta, Cafu, Sheva, Crespo, Pirlo, Seedorf, Gattuso... Os caras estavam tristes, mas não ficaram desmotivados. Eles ficaram em pé lutando e querendo. Essa força de superação do coletivo fez toda diferença", disse Kaká.

A atitude foi recompensada dois anos depois, quando o clube rossonero chegou à final da Champions contra o mesmo Liverpool. Desta vez, porém, vitória do time italiano por 2 a 1.

"O futebol nos deu outra oportunidade. Na segunda final entramos com a sensação que tínhamos que atropelar porque não poderíamos passar pela mesma coisa. O futebol é uma coisa tão estranha que na segunda final eles jogaram melhor, mas perderam. E na primeira, nós jogamos melhor, mas perdemos. Essas coisas só acontecem no futebol, por isso tem essa magia e é tão apaixonante", disse Serginho.