Nos seus mais de 20 anos como técnico, Vagner Mancini já perdeu as contas de quantas equipes treinou e brinca em entrevista à ESPN: "No vigésimo parei de contar".
Hoje no Red Bull Bragantino, o treinador de 59 anos vive um momento distinto do que foi o início de temporada com o Massa Bruta. A equipe, que antes segurou uma invencibilidade de nove partidas durante janeiro, não vence há seis jogos e enfrentará o Flamengo na próxima rodada do Campeonato Brasileiro.
A pressão sob uma resposta aumenta e Mancini sente isso. Afinal, a "maquina de moer" técnicos no futebol brasileiro passa quase a cada rodada, mas o experiente treinador se sente respaldado pela diretoria e tem a "receita" para reverter a situação.
“Essa pressão me deixa chateado, porque eu estou vendo aí no mercado técnico serem demitidos com seis, sete rodadas do campeonato brasileiro. Eu acho que aí já é uma questão de gestão. Aqui, nós temos um cenário totalmente diferente. Eu não estou dizendo com isso que amanhã eu não posso ser demitido ou não, porque todo mundo assina um contrato e um dia vai ter que sair do clube, essa é a verdade, mas eu espero sair só quando me mandarem embora. Aqui (Red Bull Bragantino) se pensa futebol diferente. Aqui há conversas diárias de profissionais sobre tudo aquilo que está acontecendo. Quando a gente estava nove jogos invictos, sem tomar gol e tudo mais, a gente também falava todos os dias sobre isso”, disse.
“Você não pode exaltar um treinador por ter ganhado cinco jogos em sequência e também não pode execrar porque ele perdeu cinco jogos. Porque isso pode acontecer com qualquer um. Você tem que analisar o trabalho, o dia a dia, o quanto que ele agrega, o quanto que vai ser difícil uma mudança, e o quanto que está na hora de você trocar. Porque às vezes o cara não está mais sendo ouvido, ele perde a conexão com o grupo. Então eu acho que tudo isso tem que ser analisado. E não são em três jogos que isso vai acontecer. Então eu estou muito tranquilo, sei que além de tudo eu tenho o time para reverter a situação e a gente vai reverter e daqui a pouco a gente vai estar falando de uma sequência de vitórias”, continuou.
Vagner Mancini foi contratado pelo Bragantino em outubro de 2025 com o aval de Jürgen Klopp, diretor global de futebol da Red Bull. A relação foi se estreitando ao longo do tempo e o técnico recebeu um elogio que o fez confirmar que o trabalho implantado no Massa Bruta está no caminho certo: "Nos disseram que somos o time que mais perto está da mentalidade Red Bull que ele quer implantar."
"Ter uma pessoa como o Klopp à disposição é um privilégio para nós. Eu que há pouco tempo admirava os times dele, Borussia, Liverpool, enfim, a forma como ele jogava, de repente eu venho pra um lugar onde a gente tem a possibilidade de conversar com ele em alguns momentos é um privilégio. Acho que todo treinador gostaria de ter alguém ali na sua equipe que fizesse isso. As conversas não são tão frequentes, ele deve estar no Brasil daqui a um tempo, mas a gente já fez algumas conversas e foram de mais ou menos uma hora com todo o staff, falando sobre futebol, sobre montagem, muito ricas em termos técnicos e também táticos".
"Eu acho que ele faz muito bem feito o papel dele e é bacana. Eu estou esperando ansiosamente a vinda dele para cá, porque nas vezes em que os auxiliares vieram, nós tivemos uma conexão muito grande com o trabalho que está sendo feito e como eles pensam. Até nos elogiaram dizendo que nós somos o time que mais perto está da mentalidade Red Bull que ele quer implantar. E isso, logicamente, que é um elogio, mas que nós sabemos que não pode ficar somente nisso. A gente tem que ganhar jogos e mostrar que realmente há eficiência naquilo que nós estamos fazendo".
O CT do Red Bull Bragantino é realmente o melhor do futebol brasileiro? Mancini já passou por grandes clubes do futebol brasileiro, como Corinthians, São Paulo e Grêmio, mas não titubeou ao ser questionado: "Nós temos o melhor".
“Nós temos o melhor CT do Brasil, não tenho dúvida. Pelo que eu conheço, e eu já passei em vários clubes de vários estados, a estrutura que nos oferecem é realmente top. Dá a impressão que você está na Europa. Mas melhor do que a estrutura são os profissionais que trabalham aqui. O nível é muito alto em todos os setores, seja qual for, a gente tem uma entrega de material, de humanidade, de sinceridade, acima de qualquer outro clube. Acho que isso é o grande ganho. Óbvio que a estrutura é maravilhosa, mas as pessoas realmente são melhores do que a estrutura”.
No dia 7 de março de 2009, Vagner Mancini, então técnico do Santos, chamou um garoto franzino para entrar em campo pela primeira vez, em partida contra o Oeste, pelo Paulistão. O jovem era Neymar, com quem criou uma relação de intimidade ao longo dos anos e chegou a dar conselhos sobre amadurecimento.
A dúvida sobre a presença ou não do camisa 10 do Peixe na Copa do Mundo de 2026 é tema certo nas meses de debate, mas para o técnico, o craque tem que estar entre os 26 selecionados de Carlo Ancelotti.
“Eu dei o conselho (no início de carreira de Neymar), eu não sei se ele lembra, mas com certeza eu dei (risos). O Neymar é um fora de série, essa é a verdade. Ele tem um potencial que sem dúvida nenhuma eu levaria para a Copa. Agora, acredito eu também que a CBF deve estar em contato com o Neymar. E foi feito um projeto para que ele estivesse pronto para ir para a Copa do Mundo. Se ele vai ou não, e aí a gente tem que respeitar, é uma decisão do Ancelotti. Mas eu acho, pelo que eu tenho visto, que nós não temos um atleta com a capacidade de decidir jogos como o Neymar. Nós temos outros grandes jogadores e eu acho que, mais uma vez, as pessoas vão acreditar que o Brasil pode ser campeão, porque nós temos material humano para isso. Mas, enfim, eu levaria o Neymar. Se a gente for analisar o Neymar, e eu que peguei ele lá em 2009, ainda o menino e tudo mais, que já viveu muitas coisas de lá até hoje, a gente pode até fazer algum tipo de crítica à postura dele em algumas coisas. Eu prefiro não julgar, porque a gente nunca sabe o que está se passando com a outra pessoa. Mas eu acho que ele pode, sim, ajudar a seleção a partir do momento que ele esteja focado. Não é só o Neymar, é qualquer jogador”.
“Estarei torcendo muito hoje para que o Neymar esteja em campo, porque ele pode realmente representar essa gota a mais que nós temos e que com certeza as outras seleções não terão”.
Confira a entrevista com Vagner Mancini na íntegra no YouTube da ESPN Brasil.
