Em reportagem divulgada no último domingo, o programa "Fantástico", da TV Globo, revelou mais mensagens de apostadores envolvidos na "Operação Penalidade Máxima 2", que investiga esquemas de apostas ocorridos no Campeonato Brasileiro 2022.
As apostas em questão ocorreram na 25ª rodada do último Brasileirão, em setembro do ano passado. No total, cinco jogadores deveriam tomar cinco cartões amarelos em partidas do torneio, o que de fato ocorreu. Com isso, o grupo investigado teve um lucro de R$ 700 mil.
Os atletas que deveriam levar os amarelos eram:
Alef Manga (Coritiba) e Diego Porfírio (Coritiba), em Coritiba x América-MG
Vítor Mendes (Juventude), em Juventude x Avaí
Nino Paraíba (Ceará), em Ceará x Flamengo
Bryan García (Athletico-PR), em Athletico-PR x Fluminense
A situação mais inacreditável foi a de Bryan García, que, recentemente, teve seu contrato terminado pelo Athletico-PR.
No jogo entre Furacão e Flu, ele entrou em campo apenas aos 42 do 2º tempo, mas ainda assim conseguiu ser advertido.
No grupo de WhatsApp investigado na operação, um dos apostadores envia mensagens de alívio após o atleta rubro-negro tomar o amarelo.
"Até chorei de felicidade. Você é louco. Que peso que eu estava nas costas, que esse maluco não tomava (o amarelo)", diz o apostador Bruno Lopez de Moura, em áudio divulgado pelo "Fantástico".
Os cinco atletas, por sua vez, já foram chamados para depor. Bryan García, Nino Paraíba e Diego Porfírio já falaram com a promotoria na última sexta-feira (19), enquanto Alef Manga e Vítor Mendes ainda são aguardados.
De acordo com o promotor Fernando Cesconetto, dois atletas, cujos nomes não foram revelados, admitiram culpa na fraude.
A expectativa do MP é que os três ouvidos costurem acordos para colaborar na investigação, como outros jogadores já fizeram. No entanto, isso só será possível se todos se declararem culpados.
"Para que haja o acordo de não persecução penal, a condição principal é que haja confissão e reconhecimento da prática do crime", explicou Cesconetto, à TV Globo.
Os cinco jogadores que participaram de lances mostrados no Fantástico já foram convocados para dar depoimento. Três deles, Nino Paraíba, Bryan Garcia e Diego Porfírio, falaram com os promotores na última sexta-feira (19); dois reconheceram participação na fraude. A expectativa do MP é que os três façam acordo.
Até o momento, Bryan García e Nino Paraíba tiveram seus contratos encerrados com Athletico-PR e América-MG, respectivamente. Alef Manga e Vítor Mendes, por sua vez, estão afastados por Coritiba e Fluminense, respectivamente.
Já Diogo Porfírio, atualmente no Guarani, segue atuando normalmente. Em contato com a TV Globo, ele informou que está que está "colaborando com a Justiça".
A defesa de Alef Manga ainda alega que o atacante só aparece citado até o momento em conversas de terceiros nos grupos de WhatsApp monitorados pelo MP, o que não comprovaria seu envolvimento no esquema.
Quais são os jogos que estão sob investigação na Série A?
Quais jogadores estão sendo investigados?
Gabriel Tota (Ypiranga-RS)
Igor Cariús (Sport)
Paulo Miranda (Náutico)
Matheus Gomes (Sergipe)
Quais jogadores também foram citados no processo?
Vitor Mendes (Fluminense)
Richard (Cruzeiro)
Nino Paraíba (América-MG)
Dadá Belmonte (América-MG)
Kevin Lomonaco (Red Bull Bragantino)
Moraes Jr. (Juventude)
Nikolas Farias (Novo Hamburgo)
Jarro Pedroso (Inter de Santa Maria)
Nathan (Grêmio)
Pedrinho (Athletico-PR)
Bryan García (Athletico-PR)
Quais jogadores foram afastados por seus clubes?
Raphael Rodrigues (Avaí)
Max Alves (Colorado Rapids)
Quais jogadores tiveram contrato rescindido?
Apenas dois atletas perderam seus respectivos contratos por causa de envolvimento, ambos do Athletico-PR: o lateral-esquerdo Pedrinho e o meia Bryan Garcia. Alguns dias depois, Nino Paraíba também teve seu contrato encerrado com o América-MG. Zagueiro do Santos, Eduardo Bauermann foi suspenso preventivamente pelo clube.
Além disso, o STJD ainda anunciou suspensão de 30 dias de Moraes, Gabriel Tota, Paulo Miranda, Igor Cariús, Fernando Neto, Matheus Gomes, e Kevin Lomónaco.
Quem são os apostadores e membros da organização criminosa?
Bruno Lopez de Moura
Ícaro Fernando Calixto dos Santos
Luís Felipe Rodrigues de Castro
Victor Yamasaki Fernandes
Zildo Peixoto Neto
Thiago Chambó Andrade
Romário Hugo dos Santos
William de Oliveira Souza
Pedro Gama dos Santos Júnior
O que os jogadores faziam para manipular as partidas?
Os atletas e envolvidos suspeitos estão sendo investigados por manipulação da seguinte forma: receber cartões amarelo ou vermelho, cometer um pênalti, garantir uma derrota parcial no 1º tempo, número de escanteios, etc.
Como começou a investigação?
O processo de investigação tocado pelo Ministério Público de Goiás começou no fim do ano passado, com a apuração de diversas provas apresentadas pela promotoria sobre atos criminosos envolvendo jogadores e grupos de apostadores, com propostas que chegavam até R$ 100 mil em lances que poderiam gerar lucro em sites do ramo.
Um apostador fazia a função de cooptar um jogador, que teria a "função" de cometer um pênalti, receber um cartão ou até mesmo colaborar para a construção do resultado da partida - normalmente uma derrota de sua equipe.
As primeiras denúncias ouvidas pela operação surgiram no fim de 2022, quando o volante Romário, então jogador do Vila Nova (GO), aceitou R$ 150 mil para cometer um pênalti contra o Sport, em partida válida pela Série B.
Na ocasião, o atleta embolsou R$ 10 mil imediatamente e só ganharia o restante caso o plano funcionasse. Romário, porém, sequer foi relacionado para a partida, o que estragou a ideia.
A história chegou até Hugo Jorge Bravo, presidente do time goiano e também policial militar, que buscou provas e as entregou ao Ministério Público do estado. A partir daí, criou-se a operação "Penalidade Máxima" para investigar provas e suspeitas sobre o assunto.
Na primeira denúncia, havia a suspeita de manipulação em três jogos da Série B, mas os últimos acontecimentos levaram os investigadores a crer que o problema era de âmbito nacional e havia acontecido em campeonatos estaduais e também na primeira divisão do Brasileiro.
Além de Romário, outros sete jogadores foram denunciados pelo Ministério Público por participarem do esquema de fabricação de resultados: Joseph (Tombense), Mateusinho (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Cuiabá), Gabriel Domingos (Vila Nova), Allan Godói (Sampaio Corrêa), André Queixo (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Ituano), Ygor Catatau (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Sepahan, do Irã) e Paulo Sérgio (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Operário-PR).
Algum jogador de futebol foi preso?
Nenhum jogador preso, só pessoas envolvidas nos pedidos de manipulação. Foram três mandados de prisão em São Paulo, mas só para não atletas.
Foram apreendidas granadas de efeito moral em um mandado de prisão em São Paulo a armas de fogo em outro endereço, também em terras paulistas. Nesse local, houve também um flagrante de armas de fogo sem o devido registro.
Quais as punições previstas para os considerados culpados?
Os atletas ou aliciadores podem ser indiciados via Estatuto do Torcedor e também podem responder por crime por lavagem de dinheiro, se for o caso.
Ronaldo Piacente, procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), informou que, caso sejam comprovados os fatos que estão sendo investigados, os jogadores serão denunciados nos artigos 243 e/ou 243-A do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) por ''atuarem, deliberadamente, de modo prejudicial à equipe que defende'' e/ou ''atuarem de forma contrária à ética desportiva com o fim de influenciar o resultado de partida, prova ou equivalente''.
As punições do artigo 243 são: multa de R$ 100 a 100 mil e suspensão de 180 a 330 dias.
Já o artigo 243-A prevê: ''multa de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.00,00 (cem mil reais) e suspensão de seis a doze partidas, provas ou equivalentes, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, ou pelo prazo de cento e oitenta a trezentos e sessenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código; no caso de reincidência, a pena será de eliminação''.
O que diz a CBF?
A Confederação Brasileira de Futebol se colocou à disposição para dar "todo apoio necessário" à investigação e também solicitou, via ofício, a participação da Presidência da República e do Ministério da Justiça, solicitando que a Polícia Federal entre no caso, com o objetivo de centralizar todas as informações a respeito da investigação.
A CBF ressaltou, também, que não há qualquer possibilidade de suspender o Campeonato Brasileiro deste ano e que se sente igualmente vítima desses criminosos, uma vez que não foi, até o momento, oficialmente informada pelas autoridades sobre os fatos.
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O que diz o Ministério da Justiça?
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, determinou que a Polícia Federal investigue as denúncias de manipulação de jogos do Campeonato Brasileiro das Séries A e B de 2022.
''Diante de indícios de manipulação de resultados em competições esportivas, com repercussão interestadual e até internacional, estou determinando hoje que seja instaurado Inquérito na Polícia Federal para as investigações legalmente cabíveis'', escreveu Dino em seu perfil do Twitter.
