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Tradicional palco da Copinha, Pacaembu chega a seis meses de obras, terá gramado sintético e só deve voltar a receber final em 2024

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E o Pacaembu? Executivo explica avanço das obras após seis meses, e locutor oficial mata a saudade ao rever o velho estádio municipal (8:37)

Local está em obras desde junho de 2021 e a previsão é que seja reaberto no final de 2023 (8:37)

Reportagem visitou o Pacaembu há uma semana para conferir o andamento das obras de modernização e a previsão para reabertura do estádio municipal


É quase impossível não lembrar do Pacaembu no dia 25 de janeiro, quando, em São Paulo, celebra-se o aniversário da cidade e também disputa-se a final da Copinha, o torneio de base mais conhecido do Brasil. Mas as obras no estádio municipal fizeram com que o palco da decisão entre Santos e Palmeiras, nesta terça-feira, às 10h (de Brasília), fosse o Allianz Parque.

No mesmo horário no Pacaembu estará em curso uma rotina que se tornou comum há alguns dias para os operários. Eles prosseguirão o trabalho de britar o entulho dos restos da arquibancada do Tobogã para utilizar na fundação do novo edifício a ser erguido no local.

A demolição completa do Tobogã corresponde à primeira etapa do projeto de revitalização do estádio, e a conclusão dessa fase marcou também os primeiros seis meses de obra no local.

A previsão é que o Pacaembu fique pronto para ser reaberto em novembro de 2023, o que significa que só será possível pensar em receber novamente a final da Copinha em 2024.

“As próximas etapas são as demolições das arquibancadas laterais azul e laranja, que serão reconstruídas. Também vamos fazer o início da escavação do Centro de Eventos, que será localizado abaixo do novo edifício, no local onde estava o Tobogã”, disse Eduardo Barella, CEO da concessionária Allegra, responsável pelo Pacaembu nos próximos 35 anos.

Também está na programação a demolição das passarelas que serviam para acessar o Tobogã. A que tem início na rua Desembargador Paulo Passaláqua já está quase finalizada. A outra, cuja acesso é feito pela rua Itápolis, ainda está intacta, mas com os dias contados.

Quem visita o local, como ocorreu com a reportagem da ESPN na última semana, percebe outras mudanças em curso que impedem qualquer tipo de evento no momento.

O gramado e a pista de atletismo foram asfaltados temporariamente para que as obras possam prosseguir. No local, duas estruturas estão sendo instaladas para receber o alojamento dos operários e área de administração. No futuro, um gramado sintético e uma pista nova de atletismo vão surgir.

Não há mais banco de reservas, cabine do VAR, salas de imprensa, arbitragem, policiamento e vestiários. Até o alambrado foi derrubado. As arquibancadas laterais não têm mais cadeiras.

Um passeio pelo velho setor das numeradas também é diferente. As cabines de televisão e rádio estão fechadas e sem equipamentos, embora a estrutura ainda esteja intacta.

O velho ginásio do Pacaembu, local que abrigou lutas de Éder Jofre e Servílio de Oliveira, por exemplo, funciona como um escritório para funcionários da Allegra. O local também será restaurado em breve.

O único setor em funcionamento sem interferência é o Museu do Futebol, cujo acesso é pela praça Charles Miller, e é possível ver exposições como a que homenageia Barbosa e os goleiros negros.

Tudo dentro do que foi programado pela Allegra ao assumir o Pacaembu. Nesses seis meses de trabalho houve apenas uma alteração no projeto, relacionada ao investimento na obra.

“Nosso número original era R$ 300 milhões, mas depois com a inflação, em especial do setor de construção civil, fizemos uma readequação do orçamento previsto. Hoje ele está girando em torno de R$ 320 milhões. Nós acreditamos que vamos fazer dentro do orçamento previsto. Isso se somando a outorga paga pela concessionária de R$ 111 milhões leva um investimento em um período muito curto, que será de três anos, superior a R$ 400 milhões”, disse Barella.

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Pacaembu: veja a nova projeção de como deve ficar o estádio após as reformas

Imagens da concessionária Allegra mostram novas áreas, como o edifício que vai substituir o Tobogã

O executivo explicou que todos os recursos vêm da própria empresa responsável pelo projeto. Não há outros investidores ou receitas que possam ser exploradas pela Allegra.

“A gente só tem despesa nesses três primeiros anos, mas acreditamos que com o Pacaembu de fato restaurado e por toda a simbologia que ele tem com a cidade a gente vai conseguir pagar esse investimento e retornar para a concessionária”, disse.

Ele confia que a transformação do Pacaembu trará muitos parceiros mesmo em uma cidade onde a concorrência é dura. Afinal, hoje há duas arenas modernas (NeoQuímica e Allianz Parque) e um estádio para mais de 60 mil pessoas (Morumbi), além do Canindé, com capacidade de 20 mil.

O novo Pacaembu terá capacidade reduzida de 37 mil para 25 mil pessoas, mas contará com uma área desenhada para uso em dias com ou sem eventos no edifício que substituirá o Tobogã. A projeção da nova área conta com espaço para restaurantes, mercado gastronômico, centro de reabilitação esportiva, centro de eventos, hotel e galeria de arte, além de um boulevard.

“O Pacaembu vai propiciar experiências muito interessantes. Por exemplo, você se hospedar no hotel no estádio onde seu time vai jogar. Você sair do hotel ir para um camarote ou um assento VIP. A gente quer um Pacaembu vivo 24h por dia e sete dias por semana”, disse o Barella.

Essência mantida

O Pacaembu foi palco de 36 das 50 decisões da Copa São Paulo de futebol júnior. As exceções foram em 1969, 1970, 1971, 1973, 1976, 1977, 1979, 1983, 1984, 1988, 1995, 1997, 2002 e 2008. Mas o estádio está na história do futebol brasileiro por muito mais do que isso.

Em 81 anos, consagrou 31 campeões estaduais (de primeira e segunda divisão), 11 interestaduais, sete nacionais e sete internacionais. Foi palco de clássicos nacionais e internacionais, abrigou a seleção brasileira e ainda foi a casa de inúmeros craques, de Leônidas da Silva a Domingos da Guia, de Pelé a Garrincha, de Ademir da Guia a Sócrates, de Raí a Neto, de Romário a Ronaldo.

Segundo o executivo da Allegra, o estádio não vai perder o vínculo com o esporte mais popular do país quando for reaberto, mesmo apto a receber eSports, MMA e outros eventos.

“O futebol é a essência do Pacaembu. A gente sabia que o maior erro seria descaracterizar o Pacaembu. Antes da concessão, o Pacaembu tinha capacidade liberada pela Polícia Militar de algo em torno de 37 mil pessoas, sendo que, nos três anos anteriores à assinatura do contrato, a média de público era de aproximadamente 15 mil pessoas. Nós estamos reduzindo a capacidade para 25 mil pessoas, o que faz com que a gente possa acomodar a média dos últimos três anos”, disse Barella.

“Mas nós vamos ter um estádio muito mais democrático porque vão permanecer as arquibancadas verde e amarela, que são as arquibancadas com preços mais populares para quase 12 mil pessoas, e vamos aumentar a hospitalidade para o clube que vier aqui jogar”, acrescentou.

A fórmula para tornar o uso rentável, segundo ele, será reduzir o custo operacional e subir o valor médio do preço do ingresso, embora ele admita que o aluguel também será ajustado. “A problemática do preço do aluguel não era o valor em si, mas sim a infraestrutura do Pacaembu. O Pacaembu era muito custoso. Você tinha de trazer infraestrutura de banheiros, tinha de trazer toda uma infraestrutura para alimentos, infraestrutura operacional. O estádio ficou sem passar por uma modernização durante várias décadas. Isso fazia com que a operação fosse muito custosa”, disse.

“Quando entregarmos, em novembro de 2023, um equipamento modernizado, nós pretendemos reduzir esse custo de operação. Isso vai possibilitar que a gente possa cobrar um aluguel mais caro, mas, mesmo assim, o custo total ao clube será inferior ao praticado anteriormente”, acrescentou.

A missão não deve ser fácil. Os grandes de São Paulo contam com estádios particulares, a receita dos programas de fidelidade do torcedor e a dificuldade de prever o calendário de jogos além da temporada atual. Por isso, a Allegra ainda não tem um parceiro para atuar no novo Pacaembu.

“O que nós pretendemos aqui no Pacaembu é não ser apenas um locatário do espaço, mas sim que a gente tenha acordos no dia das partidas com cada um dos clubes para que a gente possa compartilhar os ganhos. Quando um clube vem jogar no Pacaembu, muitas vezes ele paga o aluguel. Qualquer coisa que ele tenha de fazer aqui, se ele quiser vender um copo na arquibancada, ele tem de pagar para a concessionária. As receitas de alimento e estacionamento ficam com a concessionária. Nós acreditamos que com a mentalidade que a gente possa compartilhar todo o resultado da partida isso vai ser muito mais benéfico. Inclusive compartilhando as receitas da hospitalidade, que é algo que eleva muito o tíquete médio”, disse Barella.

“Mas o que nós mais queremos com a obra de modernização e restruturação é melhorar a experiência para o torcedor, melhorar a experiência para a população, que o Pacaembu seja um local de destino para a cidade, que seja muito mais usado, muito mais comemorado”, finalizou.