Em entrevista ao programa "Fantástico", da TV Globo, a funcionária da CBF que denunciou o presidente afastado da entidade, Rogério Caboclo, por assédio sexual e moral, falou pela primeira vez abertamente sobre o caso.
A funcionária revelou que luta contra uma depressão e deu detalhes do caso envolvendo Caboclo, que fez um acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro em troca do arquivamento do processo. O presidente afastado se pronunciou por meio de nota oficial e negou as acusações.
"É uma situação pela qual nenhuma mulher deveria passar em nenhum momento da vida. É uma dor que não acaba. É uma dor que hora nenhuma sai de mim. Hora nenhuma eu esqueço que ela existe. Está sempre presente, latente, em todos os momentos do meu dia", disse a mulher, que não quis se identificar.
Ela, que fez a denúncia em junho deste ano, voltou a trabalhar na CBF em 1º de setembro, data em que o afastamento de Caboclo da entidade foi prorrogado por mais 60 dias. A funcionária relatou que recebeu uma proposta do então presidente da CBF para não seguir em frente com a denúncia e dizer que nunca foi assediada, mas recusou.
"A minha dignidade não tem preço. Porque eu fiquei pensando nas mulheres que viriam depois de mim. Era inaceitável proteger um assediador", afirmou.
"Eu tive muitas crises de pânico. Muitas. Principalmente porque eu sofri muitas ameaças do Rogério Caboclo. Ele mandou um carro na porta da minha casa, [tive a] sensação de estar sendo seguida. Ele mandou invadir meu computador, minha conta bancária. A sensação de pânico, de medo, de ameaça. Eu não me sentia segura em lugar nenhum, em nenhum momento do dia. Eu não conseguia dormir sem ajuda de remédio. Realmente precisei de um tratamento mais pesado. E agora estou diminuindo esse tratamento para conseguir ter uma vida mais normal", disse a funcionária.
Em outro momento, ela detalha o episódio em que foi chamada de "cadela" por Caboclo.
"A gente estava em São Paulo, tinha tido uma série de reuniões em São Paulo. E ele começou a fazer comentários sobre um determinado diretor da CBF. Ele falou para mim: "Você vai contar pro fulano". Eu falei: não vou contar para ele. "Vai sim, você é a cadelinha do fulano". Eu falei: não sou. No que eu comecei a falar, ele começou a latir para mim. Eu fiquei em estado de choque, não consegui nem falar. Nisso, ele vai para a cozinha, volta com um saco de biscoito de cachorro, tira um biscoito do saco e me oferece. Eu fiquei completamente sem reação. Eu comecei a juntar minhas coisas para ir embora. Nisso, o telefone dele toca, ele sai para atender. Eu pego minhas coisas e vou embora. Arrasada, destruída, nunca tinha me sentido tão humilhada, desrespeitada, em toda a minha vida. Nunca tinha sido chamada de cadela em toda a minha vida".
"No dia seguinte, eu fui confrontá-lo a respeito desse episódio. E ele começa a falar que não ia mais falar da minha vida pessoal. Mas que, se ele não falava da minha pessoal, ninguém mais poderia falar também. Que eu não poderia mais ser amiga de ninguém dentro da CBF. Que eu não poderia mais sorrir para ninguém. E também eu ia ter que mudar a forma de me vestir. Minha forma de me portar lá dentro. Que eu ia ter de fazer luzes no cabelo, ia ter de colocar cílios postiços. E aí eu perguntei: mas espera aí? Você está me punindo por uma coisa que você fez?", completou.
A mulher também relatou ameaças.
"Ele ameaçava todo mundo. Em um determinado momento, ele mandou ameaças através de pessoas em comum. Ele falava: "Eu sou um homem de R$ 100 milhões. Quem ela pensa que é? Uma noite de sono a menos na minha é um dia a menos de vida para ela". Ele mandou carro na porta da minha casa, o carro dele, para ficar me vigiando. Eu tinha medo da minha integridade física. Enquanto eu trabalhava com ele, tinha medo de ficar sozinha com ele, após esses acontecimentos. Eu tinha medo".
Em nota enviada à Globo, Caboclo negou tais acusações:
O presidente da CBF, Rogério Caboclo, afirma que nunca cometeu qualquer tipo de assédio, o que foi provado perante a Comissão de Ética, inexistindo qualquer pendência perante a Justiça Criminal, estando ele quite em ambos em relação a essa acusação. Ele pediu desculpas públicas à funcionária por ter usado palavras deselegantes, ditas num contexto de amizade, que ela mantinha com ele e sua família.
Rogério Caboclo esclarece que nunca determinou a violação de sigilo do computador ou de contas da referida funcionária e nem promoveu nenhuma reunião ou a intimidou. O motorista da empresa que foi visitar a funcionária declarou em depoimento ter sido duramente repreendido pelo presidente por seu ato.
O presidente da CBF lamenta que esse episódio esteja sendo deturpado e utilizado com fins políticos. Quem quiser compreender o que ocorreu deve ouvir na íntegra todas as conversas - e não apenas parte delas, sob pena de ser enganado. Caboclo nunca demonstrou nenhum tipo de interesse que não fosse profissional em relação à funcionária. E nem ela alega isso em sua denúncia.
Sobre a negociação com a funcionária, a iniciativa não partiu de Caboclo. Já foi exposto publicamente que uma terceira pessoa procurou o presidente da CBF trazendo uma proposta financeira. Caboclo rejeitou o acordo. A denúncia contra ele foi protocolada horas após a recusa, quase três meses depois da data da gravação apresentada.
As denúncias contra Rogério Caboclo já foram julgadas e retornam à imprensa justamente às vésperas das decisões que definirão seu destino imediato dentro da CBF e também com a proximidade de negociações de contratos vultosos da entidade, outrora negociados pelos antigos gestores da CBF.
