Esqueça aquele Dunga sisudo, às vezes mal-humorado, que adorava dar diretas e indiretas para a imprensa. Pensem num cidadão comum. É Carlos Caetano Bledorn Verri, aos 57 anos, trabalhando para fazer do Brasil um país com um pouco menos fome e mais oportunidades.
Há cinco anos e três meses longe do futebol, desde quando foi demitido da seleção brasileira, após derrota para o Peru e eliminação da Copa América Centenário, Dunga deu poucas entrevistas. Muito menos para falar de futebol.
Em duas passagens pelo time verde e amarelo, Dunga acumulou 69,7% de aproveitamento, mas também traumas quando o assunto é o encontro com jornalistas.
Em suas palavras, foi por vezes mal interpretado. Em outras, errou nas palavras ou mesmo na forma como recebeu reportagens. Acredita, no entanto, que foi perseguido por parte da imprensa e de alguns comentaristas.
Conquistar sua confiança para ouvir sobre futebol, é sempre muito difícil. Desta vez, nossa proposta era falar do trabalho social que ele desenvolve, capitaneando como nos tempos de jogador uma série de amigos, professores e empresários na capital do Rio Grande do Sul.
A visão e a missão que ele desenvolve no terceiro setor se aflorou quando ele e o também campeão mundial Taffarel se aproximaram do Hospital de Câncer de Porto Alegre, ainda em 1993. De lá para cá, o capitão do tetra nunca mais deixou esse trabalho de lado. Pelo contrário, sua última investida começou junto com a pandemia. A Seleção do Bem 8 vem fazendo a diferença para milhares de pessoas vulneráveis, sejam eles moradores de rua, ou trabalhadores de comunidades que perderam, além do emprego, a dignidade da moradia, saúde e alimentação.
Mas essa história do engajamento social, ficará para uma próxima reportagem especial que estamos preparando. Uma história que provavelmente mudará o seu conceito com relação ao ex-comandante da seleção, aquele sisudo e às vezes mal-humorado.
Vamos falar de futebol?
Durante pouco mais de uma hora de entrevista, por vários momentos, os olhos de Dunga brilharam. Principalmente, no assunto futebol. E vieram críticas...
Dunga não entende, por exemplo, como dirigentes que ajudaram a quase quebrar seus clubes defendem a implantação do projeto de “clube-empresa”. Também questiona como os grandes times negociam suas joias para o exterior a “preços baixos” para depois contratar nomes mais velhos, que para esvaziar ainda mais os cofres das equipes.
O ex-camisa 8 defendeu a escola de técnicos brasileiros, como Carlos Alberto Parreira, Telê Santana, Vanderlei Luxemburgo, Felipão, entre outros; e é crítico das “cópias” ao que se faz na Europa – onde o futebol tem condições financeiras, estrutura, temperatura, número de jogos e cultura completamente diferentes, na visão dele.
“Nós temos escolas de treinadores que já foram e são referência. Eu entendo que às vezes a gente tem que dar uns passos para trás para conseguir dar outros para frente. Mas nós estamos perdendo a nossa identidade”, desabafou o capitão do tetra.
Com relação a novos modelos táticos, Dunga não consegue enxergar avanço. “Não é todo mundo que tem um goleiro como o Neuer. O Brasil não tem 34 goleiros como ele. Outra coisa, se você jogar curto e para trás, todo mundo vai saber como te vencer. Imagina o Zico, Dinamite, Zenon tendo que voltar para marcar ou algo assim, eles não jogariam.
Preparado para a volta, mas sem mentiras
Leve, mas mais sincero e direto do que nunca, Dunga se diz com saudade do mundo da bola. Durante esses mais de 5 anos afastado do futebol profissional ele garante que já recebeu propostas. A última de um time chinês, que ele acabou recusando.
O que o incomoda muito são as propostas de times brasileiros que ligam para ele enchendo a bola e dizendo que ele é unanimidade nas diretorias das equipes.
“Eu sempre fui muito direto. Quer me contratar, me liga que a gente chega a um acordo. Mas não me venha com mentiras. Alguns dirigentes me ligam depois de terem demitido 4 ou 5 treinadores e aí vêm e me falam que eu era a primeira opção deles e da diretoria. Ora, assim a gente já começa errado, né? Não dá para iniciar uma relação de confiança com uma pessoa que já chega mentindo.
“Por causa desse meu jeito, de ser sincero e direto, acho que dificulta um pouco a minha volta para o futebol”, declarou o ex-técnico da seleção.
No lugar da arte, números e estatísticas
Dunga mostrou disposição e conteúdo para, no mínimo, umas 12 horas conversando sobre futebol. Com a reportagem da ESPN Brasil, foram seis horas, nas quais visitamos a favela Cai-Cai, a escola pública Neusa Brizola e o Projeto Esporte Clube Cidadão na Restinga. Esse último, um dos “xodós” dele, onde jogou na várzea, ainda como um garoto da base do Inter – hoje é local para ações sociais ao lado de Tinga.
Tinga, aliás, que é vizinho de condomínio e parceiro de projetos sociais de Dunga. A dupla está sempre trocando ideias sobre os rumos do futebol nacional, como atesta o depoimento enviado a reportagem, em áudio, já depois da despedida da entrevista.
”Marcelo, esqueci de comentar na entrevista que, nessa pandemia eu e o Tinga, nós olhando o futebol, nós engordamos muito, né? Porque é muito número: 3-5-2, 4-4-2, 3-5-1, 4-3-1, 1-3-4, mas nós vimos pouco se falar em drible, cruzamento, lançamento, chute a gol e o mais importante: gol, gol, gol. Do gesto técnico... O futebol era referência no gesto técnico, na qualidade técnica e hoje nós estamos presos a gestão de números. Nós viramos especialistas em números.”
Concorde ou não, é a opinião de um dos capitães que levantaram uma Copa do Mundo pelo Brasil. E hoje, ele comanda um time que precisa ser apresentado ao Brasil. É o Dunga que caminha pelas favelas, carrega caixas de verduras ou frutas para preparar para os moradores de rua... Pode até não estar mais buscando vitórias, como fazia em campo ou na beira dele; mas é decisivo como nunca na luta do país contra a fome e a pobreza.
