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Adil, o livro: mais que uma história do craque do Corinthians, um exemplo de superação, fé e milagre

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A história de superação, fé e renascimento de Adil, craque do Corinthians e de São João Nepomuceno (12:09)

Em setembro de 2000, o atacante sofreu um acidente grave de carro e perdeu os movimentos das pernas. Mesmo assim, não desistiu e hoje tem uma vida completamente ativa. (12:09)

Adil Pimenta Souza Júnior, 56, jogou em grandes clubes do futebol brasileiro, como Corinthians, Cruzeiro, Grêmio e Bahia, até ter a carreira ceifada aos 35 anos em um terrível acidente de carro em Minas Gerais.

Ele sempre foi um cara levado, audacioso e irreverente.

Filho de um dentista, uma verdadeira figura na cidade de São João Nepomuceno, região da zona da mata mineira, e uma professora, Adil desde pequeno deu muito trabalho à dona Lídia.

Espoleta, arteiro e hiperativo, ele só pensava em jogar bola entre os mais velhos, fosse nas ruas de pedra e paralelepípedos ou nos inúmeros campinhos de terra da cidade.

Nica, como é conhecido no pedaço até hoje, aos poucos se tornaria o segundo jogador mais famoso da cidade com 25 mil habitantes, atrás Heleno de Freitas, craque do Botafogo e da seleção brasileira nos anos 1940.

São tantas histórias de infância e da bola que Nei Medina, amigo desde aqueles tempos e hoje administrador de empresas/jornalista, acabou se engajando para escrever o livro: "Adil: craque na bola, craque na vida”

“São 121 páginas, percorrendo dos 8 anos de idade do Adil, quando ele jogava peladas na Vila Carlos Soares, uma rua sem saída e com piso de paralelepípedo, passando pelo Botafogo de São João Nepomuceno, depois por um drama no América-RJ, pela incerteza no Cruzeiro, no Tupi, no Figueirense e no Guarani ao ‘desabrochar’ na Ferroviária, Portuguesa, Bahia”, disse Nei Medina.

“Também relato histórias das atuações em alto nível, como a realização do sonho de jogar no Corinthians e no Grêmio. Depois as passagens pelo Araçatuba, pelo Coritiba, entre outros. E, finalmente, quando se preparava para o encerramento da vitoriosa carreira e sofreu o acidente automobilístico que quase tirou-lhe a vida”, disse o mais novo escritor da cidade.

Um exemplo de fé e superação

Na última sexta-feira (20), na cidade natal de Adil e Nei Medina, ocorreu o lançamento do que pode ser considerado mais do que uma obra futebolística.

Trata-se de um livro quase de autoajuda, com uma história de um ser humano que, munido de muita fé, consegue superar a invalidez e a morte, tornando-se personagem de um verdadeiro milagre.

Adil sofreu o acidente em setembro de 2000 quando viajava de carro, como passageiro, ao lado de seu ex-sogro, para Belo Horizonte. Aos 35 anos, o atacante estava no Tupi, jogando a segunda divisão do Campeonato Mineiro, e pensava na aposentadoria.

Na estrada, o motorista perdeu o controle do carro e acabou colidindo contra uma árvore.

“Com a batida eu não senti nada. Nenhuma dor. Falei para o meu ex-sogro: ‘Tá tudo bem com o senhor?’ Ele me disse: ‘Sim! E com você?’ ‘Não estou sentido nada da cintura para baixo’”, lembrou o ex-jogador.

Adil lembra que permaneceu o tempo todo consciente. O problema é que ele estava sem o cinto de segurança, além de ter sido retirado do carro por amadores, fato que provavelmente lesionou ainda mais uma de suas vértebras.

Ali começou uma verdadeira batalha contra a morte e a invalidez total.

Foram dois meses internados na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Outros tantos dias internado em um hospital onde os médicos diziam para dona Lídia, a mãe do ex-jogador, que Adil tinha pouquíssima chance de sobreviver e que, se sobrevivesse ficaria inválido vegetando numa cama ou numa cadeira de roda pelo resto da vida.

O que eles não sabiam é que a fé e determinação dele e da família virariam esse jogo.

Adil lembra que, assim que recebeu alta no hospital, os médicos deram a ele uma receita para que ele comprasse uma cadeira de rodas, receita essa que ele rasgou diante dos médicos.

Atleta de alta performance, ele colocou na cabeça que voltaria a andar de qualquer jeito, mesmo que fosse se arrastando, com muleta, bengala ou andador. Mas não estava disposto a usar cadeira de rodas.

E não é que ele cumpriu com a promessa?

Encontrei com Adil pela primeira vez em 2014. Foi uma indicação do ex-jogador Zé Elias, hoje comentarista dos canais esportivos da Disney.

A reportagem (veja no topo do texto ou clicando aqui) foi um verdadeiro presente. Aprendemos a respeitar e admirar um cara que tem como prioridade o amor à vida.

Desde aquela época, Adil anda com uma tremenda dificuldade, mas não deixa de levar uma rotina normal. Por exemplo, ele dirige o próprio carro. Muitas vezes vem de São João Nepomuceno até São Paulo ou até Cabo Frio, onde costuma passar férias.

Ele também caminha com frequência pela cidade natal, onde é extremamente querido e sempre abraçado pela população. Nas horas vagas cuida do jardim, limpa a casa e lava o quintal da casa onde mora, no bairro do Bosque.

Mesmo com dificuldade, Adil nos ensina a rir e a contemplar o que temos nas mãos e jamais sofrer por aquilo que perdemos.

É aquela velha história do copo cheio cuja água foi derramada, ou seja, vale mais a pena dar valor ao que sobrou no copo do que sofrer com o que foi desperdiçado.

A saga para publicar um livro

O cidadão Nei Medina não é formado em jornalismo, mas isso não tem importância alguma perto do que ele vem fazendo quando se trato do resgate da memória dos personagens do esporte da cidade e da região.

Botafoguense apaixonado por futebol, Nei escreve para um jornal, participa de programas de rádio e televisão e faz um esforço danado para que as gerações mais jovens conheçam as raízes do esporte de São João Nepomuceno e adjacências.

Nei Medina também trabalhou como funcionário de empresas locais, foi vereador na cidade e ficou muitas noites sem dormir quando decidiu escrever o livro de Adil.

Fez das tripas coração para que o projeto tornar-se realidade. Isso porque, claro, estamos no Brasil onde a leitura infelizmente não é um artigo de interesse de boa parte da população. Mas graças à sua luta e credibilidade, enfim, deu certo.

“O orçamento de quase R$ 6.000 para a impressão de 500 exemplares virou um pesadelo para quem não tinha este recurso, mas sonhava com o livro que homenagearia um querido amigo de infância, um irmão, e atleta que levou e elevou o nome de São João Nepomuceno por onde passou, além de um ser humano espetacular”, disse.

“Assim, tive a ideia de realizar uma espécie de venda antecipada. Pedi à gráfica que aprontasse um ‘boneco’ [uma simulação do livro] e apresentei para 13 amigos. Disse-lhes que, em troca de R$ 300 antecipados, eu lhes ofertaria cinco exemplares, além de um agradecimento no final da publicação, mencionando o nome deles”, prosseguiu.

“Mesmo sem a participação de todos com o valor integral, eu consegui levantar quase R$ 3.000, com mais de 60 livros comprometidos com esta antecipação de valores. O lado positivo é que esta ação viabilizou o projeto”, continuou Nei Medina.

“No lançamento, um dia histórico para mim e acredito que para o Adil, arrecadei o restante do valor para quitar o compromisso com a gráfica. Agora, restou-me pouco mais de 200 exemplares, que, após a sua comercialização, 10% do valor arrecadado será doado para uma clínica de recuperação de São João Nepomuceno.”

Para adquirir o livro “Adil: Craque na bola, Craque na vida” o contato é feito diretamente com Nei Medina, que realiza a venda e encaminha o exemplar pelos Correios. Ele disponibilizou um contato (32 9952-2703) para este fim.

Histórias que não estão no livro

Adil tem muitas histórias pra contar nos mais de 20 anos que viveu no mundo da bola. E, claro, que existem algumas que são impublicáveis.

Como também existem aquelas que não tiveram espaço no livro do amigo Nei Medina. Durante nosso encontro na última semana, estivemos na casa do craque para uma almoço agradabilíssimo ao lado de nossas esposas.

E, depois que a mulherada foi para a cozinha, ficamos na sala de jantar ao lado de Adil, que nos contou duas passagens, resenhas, que eu não poderia deixar de publicar.

A primeira delas aconteceu quando ele atuava pela Portuguesa.

Segundo Adil, o goleiro extraordinário, Rodolfo Rodriguez, ia muito visitar a família no Uruguai. Na volta, sempre passava no free shop do aeroporto e comprava garrafas de Gin para os amigos. Aí, Adil, que adorava não só driblar os adversários como também os técnicos mais disciplinadores do futebol, teve uma brilhante ideia.

Hospedados no hotel em São Paulo, depois de um treino exaustivo sob o comando do enérgico Emerson Leão, Adil e outros jogadores que estavam com ele na piscina pediu para que o roupeiro e o massagista trouxessem até a piscina jarras de suco de laranja e Gatorade. Os funcionários da Lusa não sabiam que dentro das garrafas o atacante havia despejado um litro de Gin. Tem gente que até hoje não se lembra como essas travessuras terminaram, pois quem se aventurava nisso não tinha condição alguma de contar história, muito menos de passar por perto do grande Leão.

A outra resenha aconteceu quando ele esteve no Corinthians, quando foi adotado pelo camisa 10 mais famoso da época: Neto. O craque corintiano fazia questão de levar Adil em todos os compromissos que fosse. Podia ser para cortar o cabelo ou fazer o pé, mas tinha que levar o “Boca de Égua”, assim ele chamava o travesso Adil.

Adil lembrou alguns jogadores combinavam com suas “namoradas” que se hospedassem no hotel onde o Corinthians se concentrava.

“Na época, era comum a diretoria reservar um andar inteiro só para os jogadores. A gente ligava para as amigas e combinava com elas, então quando a gente chegava nos nossos quartos a festança estava garantida. Por isso que tinha muita gente que jamais reclamou da concentração”, disse o amigo Adil.

Recebido pelo homenageado

Desde que conheci Adil, nunca mais deixamos de nos encontrar ou falar.

Como alguns sabem, tenho uma doença degenerativa nos olhos que afetam a minha visão. Aliás, depois que o conheci aprendi a lidar com algo que até então relutava.

Aprendi a dar valor e não reclamar do problema de saúde, pois sempre penso: se o Adil consegue ser feliz, por que eu não posso também?

Nosso laço de amizade se tornou inabalável, coisa de irmão.

Na última sexta-feira, no dia do lançamento do livro, não tinha como não comparecer ao evento, até porque a pedido do mais novo escritor da cidade eu havia sido convidado para escrever o prefácio.

Desembarquei com minha esposa Eleane em Goianá, cidade próxima a São João Nepomuceno, onde o único aeroporto atende todas as cidades vizinhas de Juiz de Fora.

Ao desembarcar e chegar ao saguão, fomos surpreendidos com Adil, em pé, firme e forte para nos levar até o hotel na cidade dele.

Com a alegria que lhe é peculiar, passamos um final de semana mágico com sua esposa Anna Paula e os amigos Nei Medina, Angélica e Paulo Azevedo, outro jornalista amigo da cidade.

Na noite do evento, surpreendentemente fui chamado para um breve discurso, logo depois do homenageado, diante de muitos moradores da cidade.

Foi uma noite inesquecível ao lado de personagens do esporte que a cidade faz questão de preservar, como Helenize de Freitas, sobrinha de Heleno de Freitas e ex-jogadora de vôlei da seleção brasileira, e o ex-jogador Ayupe, de Vasco da Gama, Grêmio e Corinthians.