Corinthians: Xavier, um 'representante da torcida em campo', conta sua história

Se a minha vida fosse um filme, ela começaria em uma tarde de domingo. Eu ao lado do meu avô Renato, assistindo ao Corinthians. Lembro certinho da imagem: ele, a televisão e eu, pensando em um dia jogar pelo clube do meu coração.

É o ponto de partida da história.

Desde criança, eu ia para a casa dele aos fins de semana e só ia embora depois do jogo. Tínhamos que assistir. Era uma televisãozinha na cozinha. Minha vó gostava de assistir outras coisas na sala, e não deixava a gente ver, então, íamos para lá.

Lembro que eu tinha uma bandeira do Corinthians que eu tinha que esticar e colocar um santo em cima. Se não, não íamos ganhar. Eu era fanático, de chorar... Era louco mesmo. Ainda sou, né? Corintiano tem que ser assim. Foi ele quem me passou isso.

Hoje, esse meu avô está lá com o papai do céu. O perdi no começo do ano, e foi muito difícil. Eu já era jogador do Corinthians e, no mesmo dia, eu tinha um compromisso importante. Escolhi ir para o jogo, não podia ficar de fora... A cada partida, ele chorava ao me ver realizando meu sonho. Tenho certeza que ele está vendo lá de cima para me ajudar.

Como ele morreu no mesmo dia em que enfrentaríamos o Sport, eu pensei: como posso homenageá-lo? Não dava tempo de por nome na camisa, então escrevi nas minhas chuteiras. Estão guardadas e vão ficar comigo para sempre.

No começo, eu não tinha muitas condições para comprar uma chuteira, não tinha patrocínio... Eu pedia chuteiras emprestadas. Não tinha vergonha. Você até fica meio assim de pedir, mas a gente faz o que é possível pelo nosso sonho.

Já tive que jogar com número maior, um pé de cada cor, uma de cada jeito... Teve um jogo, na Portuguesa Santista, que a sola desgrudou. O jogo parou para eu trocar. Peguei um pé de outra chuteira no vestiário que até hoje não sei de quem era. Sei que voltei e conseguimos ganhar.

Outra vez, assinei com um empresário que me prometia chuteira. Ele me mandou uma, vamos dizer, de quarta linha, que nem cabia no meu pé. Machucou ele inteiro. Época complicada, mas faz parte.

Várias vezes, eu pensei em desistir. Não tinha muitas condições financeiras, mas tinha vontades... De chuteira, alimentação... Você coloca o seu sonho em dúvida. “Eu não vou conseguir”, pensava.

Ainda bem que sempre tive gente me ajudando bastante para continuar. Está dando certo.

*

Eu vim de cidade pequena. Nasci lá em Mococa, no interior de São Paulo. Com três anos mais ou menos, meu pai saiu de casa, então, fui criado só pela minha mãe, Márcia, que fez papel de mãe e de pai. Ela foi a peça mais fundamental na minha vida.

Meu pai tinha um problema com álcool, e ela não me deixou perder a cabeça. Junto com meu outro avô também, o Chicão, que é como um pai para mim. Quando você é criança, acaba não entendendo como funciona, fica meio rebelde... Mas ela mostrou o caminho correto, me apoiou no meu sonho.

Desde pequeno, fui apaixonado por futebol, aquele sonho de criança, de brincar, querer jogar bola na rua. Tinha um campo bem de frente para a minha casa, e o treinador de lá ajudava as crianças para não mexerem com coisa errada.

“Vem treinar comigo”, ele disse, e, eu, com seis, sete anos, brincava lá de chutar bola. Ali que foi tudo começando...

Joguei alguns campeonatos nesse campinho e, com nove anos mais ou menos, fui para Praia Grande, com meu avô. Entrei em uma escolinha de futebol, comecei a jogar, ganhei uma bolsa para jogar futsal...

Só que, em 2012, aconteceram alguns desentendimentos familiares. Eu com a minha vó. Eu dava alguns problemas, não vou mentir, não... Às vezes, você acaba fazendo algumas coisas que não são muito legais.

Então voltei a morar com a minha mãe, em Campinas, e entrei na escolinha Chute Inicial, do Corinthians. Quando comecei, era zagueiro, e o Gil era o cara que eu via a foto e chegava a chorar de tanta paixão. Era a capa do meu celular, só para você ter ideia. Colocava ele como fundo de tela. Sempre foi meu ídolo. Hoje, graças a Deus, posso jogar ao lado dele e tê-lo como amigo.

Contei isso para ele no final do ano passado, logo depois da minha estreia. A gente brinca, ele me ajuda, está sempre do meu lado. Fora os outros, que via pela televisão. Jô, Cássio, Fagner, Fábio Santos... O próprio Gabriel sempre foi uma inspiração.

É uma coisa muito louca. Você tem vontade, mas nunca imagina que vai estar ao lado desses caras. Chega a arrepiar.

*

Tem um cara, o Dombas, que me ajudou muito no meu começo no futebol. Foi ele quem me colocou na escolinha lá em Praia Grande, e voltou a ter contato comigo quando entrou na Portuguesa Santista, como olheiro. Em 2014, ele quis me levar para lá, e eu fui.

Era meio complicado... Passei a morar em alojamento, com outros 20 meninos. Não era muito legal, mas agradeço, porque serviu bastante para a minha formação. Eu, com 15 anos, virei capitão do time. Tudo que acontecia no alojamento, eu era o encarregado por responder.

Longe de casa, isso me amadureceu bastante, bem cedo. Eu tinha também uma certa responsabilidade, porque eu sempre ajudei a minha mãe, mesmo ganhando bem pouco. Já era o “homem de casa”.

No fim de 2016, a Ponte Preta me comprou. Fui morar no alojamento do juvenil, em Jaguariúna. Estava no sub-17, e nosso time era muito bom, muito bom mesmo... Fomos campeões, em cima do Palmeiras, fiz meu primeiro contrato profissional. Foi um dos melhores anos da minha vida no futebol.

Quando fui para o sub-20, em 2018, passei a morar no estádio, o Moisés Lucarelli. Joguei dois jogos da Copinha, e o profissional me chamou. Na época, o técnico era o Eduardo Baptista. Subi e, quando ia fazer a minha estreia... O Corinthians, no Pacaembu... E eu me machuquei. Tinha 17 anos, nem 18, mas em um amistoso contra o Red Bull, acabei torcendo o tornozelo. Não pude estrear. O nosso goleiro, Ivan, pegou até um pênalti, e a Ponte ganhou...

Eu segui no profissional em 2018, o Eduardo gostava de mim, mas, no fim do ano, voltei para o sub-20 para disputar o Campeonato Brasileiro. Em 2019, ainda disputei a Copinha pela Ponte. Foi quando soube que o Corinthians me queria.

Meu empresário não passa muito essas coisas, para que eu possa ficar focado no futebol, mas tive uma proposta do Shakhtar Donetsk, só que eu precisaria ficar um pouco mais na Ponte, fazer mais uns jogos no profissional. “E tem essa do Corinthians... Mas para ir para o sub-20”, ele me disse.

Eu sempre fui corintiano, apaixonado. Não consegui pensar duas vezes. Era um sonho que eu tinha desde criança. “Vai ser muito difícil, muita concorrência, muitos meninos”, ele falou. Mas eu acreditava em mim. Optei pelo Corinthians por esse sonho. Foi o maior que eu já consegui realizar, jogando pelo clube do meu coração.

*

A primeira vez que eu entrei no Parque São Jorge foi quando ainda jogava na Ponte Preta, na base. Quando fui vendo o clube por dentro, os vestiários, passou um filme na minha cabeça. Lembrar de tantos caras que passaram por aqui... O tanto que sonhei com aquilo, aquele momento, na Fazendinha, foi muito legal.

Quando você conquista algo que você sempre sonhou é muito gratificante. Eu pensava demais no meu avô Renato e na minha família. Foi ele que me mostrou essa paixão pelo Corinthians... Libertadores, Mundial, lembro como se fosse ontem. O Campeonato Paulista de 2009, o Ronaldo contra o São Paulo... Chorei para caramba. E foi a minha família que me ajudou a chegar até aqui.

Quando vi o Gil, meu ídolo, não acreditei. A perna tremeu. Para falar com ele, você não acredita que é verdade. Outro cara que sempre tive como inspiração e fui fã foi o Elias, e um dia ele foi no CT. Eu tinha acabado de subir, nem tinha estreado... Acordei, desço na concentração, e ele está lá. Foi um choque... “Caraca, é ele mesmo”.

Eu subi com alguns outros meninos da base. Eu me concentrava com o Roni, a gente se ajudava bastante, um passando informação para o outro. Ele o Piton, que já tinha estreado, sabia a pegada...

Fora os mais experientes, que te passam muito conforto e calma para jogar. Claro, você fica nervoso, mas eles foram muito importantes no começo. Quando eu estava para subir, foi o Tiago Nunes quem me ligou, perguntou como eu estava. Era aquela pausa da pandemia, já para voltar. Depois, o Vilson falou comigo. Mas, quando eu estava para me integrar... Meu exame deu que tinha tido contato com o vírus.

Fiquei desesperado. “Pelo amor de Deus, é meu sonho”.

O Vilson me ligou de novo, pediu calma, disse que passariam 10, 15 dias, e eu faria parte do grupo. Foi um negócio muito louco, sonho de criança, seus ídolos que você via pela TV, fazer parte do dia a dia. Que emoção.

Já o meu primeiro jogo foi contra o Bahia, com o Coelho como técnico, e a gente em uma pressão absurda. Por ser corintiano, saber como é a torcida, eu me coloco no lugar deles. Eles vivem o Corinthians, é a vida deles. Assim, eu sabia, mas também não tinha sentido na pele como é essa pressão.

Antes mesmo da estreia já senti... Mas, quem joga no Corinthians, tem que estar preparado para vestir essa camisa. Transformar aquela pressão em raça dentro de campo.

Foi na segunda que o Coelho falou que eu jogaria na quarta. E foi difícil dormir. Coloquei na cabeça que seria o jogo da minha vida, um passo gigantesco na minha carreira. Fiz uma boa partida, ganhamos, amenizamos aquela fase, deu tudo certo.

Quando acabou o jogo, ali no campo mesmo, só queria agradecer meus companheiros, comissão, por terem ajudado a realizar meu sonho. Todo mundo ali, sempre me ajudaram. Só tive essa gratidão, essa vontade de falar na roda do vestiário. Precisei falar, agradecer todo mundo.

"Rapaziada, é um sonho enorme isso que aconteceu aqui hoje. Vim de uma cidade pequena e poucos sabem, mas eu sempre fui corintiano. Sempre tive a vontade de estar aqui. Olhava vocês na televisão e imaginava que eu ia conseguir realizar esse sonho. Independente de falha, principalmente no segundo gol, que foi falha minha, me senti muito abraçado pelo grupo todo e eu queria agradecer todo mundo".

Não consegui dormir naquela noite. Fiquei até umas quatro horas da manhã conversando com a minha mãe, com meu avô... Todo mundo me assistiu pela TV – menos minha vó, que fica muito nervosa. Que sensação incrível, a melhor da minha vida...

*

No futebol, é cada jogo uma história. É complicado. Você tem que estar evoluindo a cada dia, acaba tendo altos e baixos... A estreia foi um dever parcialmente cumprido. Um primeiro passo de uma história que vai ser bem bonita, se Deus quiser.

Hoje, estou muito bem mentalmente, focado. Sei que o grupo acredita em mim, e eu também. Estamos bem unidos para fazer um bom campeonato. É procurar evoluir sempre, treinar forte e continuar dessa forma. Os resultados vão aparecer.

Me sinto um pouco como um representante da torcida em campo. Eu sempre fui fanático... Sei na pele o que é ser corintiano. Tento passar isso...

Eu tenho o sonho de ganhar títulos pelo Corinthians – e um dia jogar na Europa também. Mas, um título pelo meu time do coração, ser ídolo... Eu vou conseguir, tenho fé.


* Depoimento ao repórter Vladimir Bianchini | Edição: Thiago Cara