<
>

Benefícios pagos, roda de tranca e medo de dizer 'não': os bastidores da influência de Del Nero na CBF

Áudios revelados pelo ESPN.com.br na última sexta-feira (21) confirmaram a influência de Marco Polo Del Nero na CBF mesmo após o cartola ser banido do futebol pela Fifa. Além das conversas gravadas onde o presidente atual da confederação, Rogério Caboclo, cita nominalmente o antecessor e padrinho político como responsável pelas decisões da entidade, outros fatos explicam a participação de Del Nero nos bastidores do comando do futebol brasileiro.

Ainda que Marco Polo não tenha qualquer cargo ou seja funcionário da casa, a CBF sustenta financeiramente alguns benefícios ao cartola. A confederação ainda é responsável por pagar o plano de saúde de Del Nero e família, disponibilizou durante longos meses após a decisão da Fifa carro e motorista quando o cartola necessitava de certos deslocamentos e ainda deixou funcionários à disposição para serviços do dia a dia como idas ao supermercado.

Questionada sobre o fato de bancar contas de um dirigente banido pela Fifa, a confederação informou que assim o faz porque Marco Polo ainda recorre do banimento.

O argumento é refutado por todos os especialistas em direito esportivo internacional procurados pela reportagem e não encontra sustentação nem mesmo entre pessoas que acompanham processos internacionais e que seguem o caso, em fase final de recurso no TAS (Tribunal Arbitral do Esporte), com previsão de sentença para os próximos meses.

Não há jurisprudência de efeitos suspensivos para decisões desse tipo na Fifa. Sem tal mecanismo jurídico, também não há qualquer liberação da pena enquanto a parte punida recorre das duas decisões já estabelecidas – o Comitê de Apelação rejeitou o recurso de defesa do cartola brasileiro após a condenação inicial da federação internacional.

Os especialistas ouvidos pelo ESPN.com.br ainda ressaltaram o tom sempre duro da Fifa nas decisões, rejeitando qualquer brecha para a participação de Del Nero na vida política do futebol brasileiro.

O ex-presidente da CBF foi banido do esporte e tem que pagar uma multa de mais de R$ 4 milhões após delações e gravações revelarem um esquema de corrupção. Marco Polo foi considerado culpado por suborno, corrupção, conflito de interesse e infrações às regras gerais de conduta do código de ética da Fifa.

Confrontada sobre a fragilidade dos argumentos para manter pagamentos de benefícios a Del Nero, a CBF não respondeu até a publicação da reportagem.

Carteado e reuniões na casa de Del Nero às segundas

A influência do cartola ainda é escancarada em outros movimentos entre integrantes da equipe de comando da CBF. Conforme o ESPN.com.br vem contando há algumas semanas, boa parte das decisões da entidade são debatidas e alinhadas na casa de Del Nero em encontros realizados às segundas-feiras.

Na programação, uma animada roda de tranca serve como pano de fundo para reuniões entre diretores da confederação, vice-presidentes da casa e presidentes de diversas federações estaduais.

O carteado se inicia entre 20h e 21h. A partir das 17h, no entanto, a movimentação já começa a ficar intensa na cobertura situada na orla da praia da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, a pouco mais de seis quilômetros da sede da CBF. Quem deseja um papo mais particular com “Doutor Marco”, como Del Nero é chamado por alguns, chega mais cedo.

Ciente do banimento de Del Nero do futebol, a maioria dos participantes das rodas de tranca nega publicamente o fato. Na realidade, no entanto, frequentar tal evento não chega a ser algo tão secreto entre aqueles que lá estão. Até mesmo um grupo de WhatsApp foi formado para facilitar a comunicação dos membros do carteado.

Os mais próximos de Marco Polo ainda compartilham outras agendas com o ex-presidente. O cartola banido marca presença com frequência em festas de aniversários, jantares em casas de dirigentes e até em casamento de diretores da CBF.

“Como dizer não?”

Funcionários que seguiram prestando serviço a Del Nero após o banimento, vice-presidentes, diretores da CBF e presidentes de federações ouvidos pela CBF relataram a rotina semanal de conversas na cobertura na orla da Barra. Alguns citaram leve incômodo com a situação e uma frequência menor de visitas ao ex-presidente, mas ressaltaram ser praticamente impossível participar do poder na entidade sem dialogar com o cartola banido.

Funcionários de menor escalão da confederação que tiveram de ir à casa de Del Nero repetem o mesmo questionamento: “como dizer não?” a uma ordem superior da casa.

Na última segunda-feira (17), inclusive, alguns influentes dirigentes bateram ponto na cobertura do ex-presidente.

Del Nero atua para estancar crises

Em encontros mais secretos e com menor quantidade de pessoas, é Marco Polo o responsável por estancar as crises da entidade. Menos ligado ao padrinho político ultimamente, o atual presidente, Rogério Caboclo, teve que recorrer ao antecessor para minimizar estragos recentes nos bastidores da CBF.

Desde o início de abril, ao lado de parte do alto escalão da confederação, Del Nero tenta evitar vazamentos de evidências de desvios de comportamento de Caboclo em uma desgastada relação com uma funcionária que pediu licença em meio aos problemas.

Fifa não descarta investigação

Diante de relatos cada vez mais frequentes sobre tal influência, resta saber até que ponto o dirigente banido seguirá dando as cartas sem ser incomodado. A Fifa ligou o alerta nos últimos dias, já busca mais detalhes sobre as relações de poder na CBF e não descarta uma investigação na entidade brasileira.

Procurada novamente para comentar a influência de Marco Polo a partir das novas apurações do ESPN.com.br, a entidade máxima do futebol ainda não respondeu os questionamentos da reportagem.