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Desgaste com funcionária da CBF ligada a Del Nero faz Rogério Caboclo 'sangrar' e ter mandato ameaçado

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'É muito delicada a situação do presidente Rogério Caboclo no comando da CBF', diz Pedro Ivo Almeida (1:19)

Mandatário 'sangra' nos bastidores por conta de desgaste com funcionária ligada a Del Nero e tem seu mandato ameaçado (1:19)

Eleito em 2018 para um mandato de 2019 a 2023, o presidente da CBF, Rogério Caboclo, vive o momento mais desgastante de sua gestão à frente da confederação. Em meio a desafios com a pandemia de COVID-19, críticas pelo seu temperamento e acalorados debates em função de um apertado calendário, outro fato faz a imagem do cartola 'sangrar' nos bastidores do futebol brasileiro: uma desgastada relação com uma funcionária ligada ao ex-presidente da casa Marco Polo Del Nero.

Por mais trivial que um desentendimento no ambiente profissional possa parecer, o abalo em tal relação fez desmoronar também seu prestígio no tabuleiro político ainda controlado por antigos e importantes cardeais da cena futebolística no Brasil. A situação entre Caboclo e a funcionária deixou de ser tratada como uma crise e passou a ser chamada de “bomba” nos corredores da entidade e nos encontros – virtuais ou não – da cartolagem. Entre gente da alta cúpula e dirigentes dos mais influentes no cenário nacional com trânsito diário no badalado prédio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, mais de dez pessoas ouvidas pelo ESPN.com.br confirmaram a história e detalharam o desgaste nos bastidores.

O tamanho do caso é diretamente proporcional à ligação da mulher com Del Nero. Indicada pelo ex-presidente, ela iniciou sua trajetória como recepcionista na antiga sede da Confederação Brasileira de Futebol, em 2012, ao mesmo tempo em que Marco Polo subia degraus na escalada até o poder, na esteira da renúncia de Ricardo Teixeira. Tão logo Del Nero foi eleito, em 2014, a funcionária foi promovida e chegou a ser secretária executiva do cartola que deixou a Federação Paulista para dar as cartas na CBF. Entre escândalos e prisão de José Maria Marin, fugas e banimento de Marco Polo do futebol, ela foi mantida por Caboclo na casa, num movimento que evitaria qualquer desagrado ao ex-presidente.

Sem a presença do banido Del Nero, no entanto, o atual presidente esboçou uma independência política no comando da confederação. Enquanto a maioria de seus diretores ainda “pedia a benção” ao ex-chefe nos encontros semanais em rodas de carteado, Caboclo ignorava certas recomendações. E não se curvava a funcionários ligados a ele, como a mulher envolvida na polêmica.

O desgaste passou a ser evidente. As conversas entre o presidente e a mulher não seguiam, digamos, o tom mais adequado para uma relação. A crise explodiu de vez na primeira quinzena de abril, quando a secretária levou o caso ao conhecimento de seu ex-chefe. Marco Polo se deparou com evidências da situação e se irritou de vez com Rogério. O rompimento dos dois já vinha se desenhando há alguns anos.

Licença médica em meio à polêmica

No meio tempo da disputa entre Del Nero e Caboclo, a funcionária pediu licença da CBF. Apresentando um laudo médico, ela se afastou por 15 dias (pedido renovado por mais 30 dias) do dia a dia da confederação para cuidar de um desgaste mental causado pelo estresse das perdas de mãe e avô pela COVID-19. O afastamento foi o tempo que Del Nero precisava para tentar resolver o caso.

Com a situação em mãos, informou a seus muitos aliados que não iria tolerar mais um questionável comportamento de Caboclo. Ou o atual presidente se retrataria, diminuiria o tom e faria as suas vontades ou o ex-chefe da CBF prepararia um movimento de bastidores para tirar Rogério da cadeira que está sentado hoje.

Diante de tão delicado cenário, a funcionária que se tornou pivô da briga entre o antigo e o atual mandatário do futebol nacional optou por deixar o Rio de Janeiro e se isolar em outro estado antes de pensar em um retorno ao trabalho.

Ajuda de Ricardo Teixeira para evitar “explosões”

Avesso a rituais políticos, Caboclo se viu diante da tal bomba e teve que ceder a movimentos no tabuleiro para evitar uma possível “explosão”. O atual presidente da CBF correu, então, para o lado de Ricardo Teixeira. Na guerra, entendeu que era melhor se consultar com alguém que também tivesse Del Nero como inimigo no momento. Após uma primeira conversa com Teixeira na última semana, um novo papo com o antigo manda-chuva do futebol brasileiro deve se repetir nos próximos dias.

Como uma espécie de ouvidor da briga, Teixeira conversa com Caboclo e outros agentes da política da confederação. Na sua visão, o momento pede uma solução pacífica, sem traumas ou afastamentos de dirigentes. Assim concordam presidentes de federações mais moderados. Outros, incomodados há tempos com a direção atual, defendem um rompimento total e um movimento que possa tirar Caboclo do poder.

Barganhas políticas e até uma ação do Ministério Público - parada na Justiça desde 2018 - que questiona a legitimidade das últimas eleições, com federações tendo peso maior de votos que clubes nas assembleias, são consideradas cartas na manga para uma mudança na principal cadeira do futebol brasileiro.

Sem “governabilidade”

Enquanto os cardeais políticos ainda estudam as próximas movimentações, Caboclo tenta ganhar uma sobrevida nos bastidores. Internamente, no entanto, parte de seu poder de gestão já escorre pelas mãos.

Todos os ouvidos pela reportagem confirmaram a falta de controle interno após o desgaste causado pela crise com a funcionária em licença. No final de abril, Rogério se afastou da presidência por alguns dias para tratar de situações pessoais em São Paulo. Oficialmente, disse se tratar de algo já programado.

Uma possível sangria, no entanto, antecipou seu retorno. O contato com Teixeira, por exemplo, ocorreu na volta ao Rio de Janeiro. Por ora, nada resolvido. No início desta semana, o clima de tensão tomava conta de todos os andares do prédio situado à Avenida Luís Carlos Prestes, na Barra, zona Oeste do Rio.

Dos menos graúdos aos mais altos dirigentes, a impressão era a mesma: a situação já se encontrava fora de controle. Resta saber agora como atuais e antigos cartolas contornarão – ou não – a crise.

Vices de olho no caso

De olho em uma possível saída de Caboclo da presidência, os oito vice-presidentes da CBF (Antônio Aquino Lopes, Antônio Carlos Nunes - o Coronel Nunes -, Castellar Neto, Ednaldo Rodrigues, Fernando Sarney, Francisco Noveletto, Gustavo Feijó e Marcus Vicente) acompanham atentamente os desdobramentos da crise vivida pelo ainda chefe.

Cientes da crise no Brasil, representantes de Fifa e Conmebol também observam a situação. Em caso de afastamento de Rogério, o mais experiente do grupo, Coronel Nunes, assume temporariamente.

Ele teria até 30 dias para convocar eleições em que, de acordo com o estatuto da entidade, um dos vices seria escolhido para assumir a presidência. Representante de Minas Gerais, Castellar Neto é um dos preferidos de Marco Polo Del Nero para uma eventual sucessão.

Del Nero nega. Caboclo, Teixeira e funcionária não respondem

Todos os envolvidos no caso foram procurados pela reportagem.

Banido do esporte desde abril de 2018, Marco Polo Del Nero negou o envolvimento conhecido por todos nos bastidores e foi sucinto em uma mensagem de texto: “Estou fora da administração do futebol até que meu recurso junto à CAS (Corte Arbitral do Esporte) seja julgado”.

A funcionária de licença e Ricardo Teixeira não responderam nenhum dos contatos.

A Rogério Caboclo, a reportagem enviou na última segunda-feira (10) um e-mail com seis perguntas visando ter o seu lado sobre o caso da funcionária, o desgaste interno e também as relações com Ricardo Teixeira e Del Nero. O presidente não respondeu até à publicação desta matéria.