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Sissi ignorou 'meninas só podem brincar de boneca', 'quebrou a lei' e agora quer mudar o mercado do futebol feminino

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Camisa 10 nos anos 90 e hoje técnica, Sissi relembra preconceito e cobranças e detalha projeto para achar 'novas Sissis' (5:50)

Morando nos EUA, ela quer levar jovens brasileiras para treinar e estudar nas universidades americanas (5:50)

Quando decidiu contrariar a lei e jogar bola com os meninos nas ruas de Esplanada, na Bahia, Sissi não poderia imaginar que realizaria numa única tacada tanto o sonho do pai como o da mãe. Ele desejava um jogador de futebol; ela queria uma filha professora.

Sisleidde de Amor Lima, 53, foi uma das melhores jogadoras do Brasil nos anos 90, camisa 10 em Olimpíadas e Copas do Mundo. Hoje, trabalha como treinadora nos Estados Unidos, onde orienta jovens meninas que querem brilhar no futebol feminino.

A rotina dela é até mais agitada do que nos tempos em que atuava, pois acumula funções como diretora técnica do Walnut Creek, técnica do California Storm e assistente técnica da Solano Community College, equipe, como o próprio nome revela, da liga universitária.

“Basicamente, estou trabalhando de segunda a domingo. Além de trabalhar com as categorias de base, eu tenho dois times de garotas que nasceram em 2008 e 2009. Sou também a diretora técnica. O trabalho é intenso, mas é prazeroso. Estou realizada”, disse à reportagem.

A aventura no banco de reservas começou nos Estados Unidos em 2004, quando pendurou as chuteiras pelo California Storm e começou a trabalhar em uma Junior College. A mudança trouxe novas exigências, como cursos, licenças e conhecimento.

Hoje, Sissi só falta tirar a licença A. O que ela acredita que somará muito ao repertório que acumula por ter trabalhado com três mestres brasileiros: Zé Duarte (técnico da seleção), Helena Pacheco (Vasco) e Maria Cristina (futsal).

“Hoje, o treinador que eu mais admiro é o Guardiola. Eu não perco os jogos do Manchester City, apesar de ser torcedora do Arsenal. Eu tento copiar algumas coisas, tento ver coisas que podem ser usadas. Claro que a Sissi tem a própria identidade, mas não vejo problema adicionar coisas que eu observei ao decorrer da minha carreira. Nesse sentido, Zé Duarte foi fundamental para mim”.

A ex-camisa 10 afirma que as ambições são treinar um time da MLS, a mais importante liga profissional dos EUA, e a seleção brasileira, que hoje tem a sueca Pia Sundhage. O problema é que o mercado para técnicas mulheres ainda é desigual.

“O Brasil ainda tem esse problema porque há muitos que acham que a mulher não tem capacidade, que não pode trabalhar no esporte em um cargo de comando. Quantas vezes já escutamos que mulheres não entendem nada de futebol? A gente não pode nem entrar no debate para discutir futebol porque as pessoas acham que a gente não tem capacidade. É algo que vem mudando aos poucos, melhorando, com avanços, mas as mulheres treinadoras ainda sofrem muito no mercado brasileiro. Aqui, não. Há mulheres até em times masculinos. É aceito, é reconhecido. O mercado é mais aberto. Outros países e culturas também são mais abertos”, disse.

Fora da lei

Desbravar um mercado que hoje parece de olhos quase fechados para mulheres técnicas não deve ser problema para Sissi. Ele pode se inspirar na própria trajetória como jogadora, quando, por alguns anos, foi uma "fora da lei".

Nascida em 1967, ela cresceu em uma época em que a prática de esportes, como o futebol, era considerada “incompatível com a natureza feminina”. Havia um decreto proibindo, sob risco de punição legal, um grande atraso para o esporte brasileiro.

“Nasci numa cidade pequena, onde todo mundo conhece todo mundo. Era a única menina que brincava com os meninos, e sempre tomava bronca: ‘Como é que pode essa menina ficar brincando no meio dos meninos?’ Sempre fui rebelde, curiosa. Não entendia por que diziam ‘Menina tem de brincar de boneca; menino de carrinho’. Quem inventou isso?”, disse.

Em casa, apesar de ter o pai como influência ao que se refere à paixão pelo futebol, também foi difícil mostrar a ele que não havia nada de errado em gostar de jogar bola. Foi um apoio que ela teve de conquistar com o tempo.

“Ele projetou todo o sonho dele, isto é, ter um filho jogador de futebol, no meu irmão, que, por sinal, não era ruim, mas eu era melhor. Quando meu pai percebeu que eu tinha nascido com o dom, ele falou: ‘Deve tá acontecendo alguma coisa errada’”, relembrou Sissi, aos risos.

Hoje, ela admite que ficou mais espantada quando descobriu que havia uma lei proibindo mulheres de jogar. Mas, como ela mesmo afirma, "quem iria lá no interior me prender?". A lei deixou de existir em 1983. Antes disso, ela já estava encaminhando a própria carreira.

“As coisas começaram a mudar quando eu fui para Campo Formoso. Lá, eu tive a primeira oportunidade de ver outras meninas jogando futebol, mesmo clandestino. Um dia eu recebei um convite para jogar no Grêmio de Senhor do Bonfim só com mulheres. Depois, o Flamengo de Feira de Santana veio participar de um jogo e aí minha vida mudou completamente. Fui para Feira de Santana para jogar, não vou dizer profissional, mas foi quando começou a rotina de escola, treinos no final da tarde e jogos aos fins de semana. Eu tinha 14 anos”, disse.

A história que Sissi percorreu desde então é longa, cheia de altos e baixos, como períodos em que teve apenas o futsal para manter-se em atividade. Foi realmente uma luta pela sobrevivência no futebol feminino, mas vencida por aquela geração marcante dos anos 90.

Vale destacar que a primeira experiência dela na seleção ocorreu em 1988, em um torneio experimental que serviu para a Fifa criar a Copa do Mundo feminina em 1991. Sissi defendeu Saad, São Paulo, Palmeiras e Vasco antes da primeira proposta para jogar nos EUA.

Entre os muitos prêmios, participou do quarto lugar na Olimpíada de Atlanta, em 1996, e do terceiro lugar na Copa do Mundo de 1999, quando foi a artilheira do torneio. Também conquistou títulos nacionais e regionais pelos clubes.

Não eram poucos os que elogiavam suas habilidades e entendia que ela era mais técnica que muito jogador.

Cabelos raspados e ‘novas Sissis’

Muitos que viram Sissi jogar ficaram com a imagem fixada da jogadora talentosa de cabelos raspados e rebelde. Ela afirma que aquilo não foi feito para impactar ninguém. Assim como admite que os rótulos incomodavam.

“A gente escutava até de quem comandava o futebol feminino: ‘Ah, você não é bonita! Você não é intelectual! Você não vai poder dar entrevista porque você é careca’. Esse tipo de coisa. Eu nunca me encaixei nesse padrão. A gente não podia falar abertamente porque sabia que não seria convocada novamente. O que eu queria era jogar, demonstrar o meu amor por esse esporte, pelo meu país. E a gente sofreu. Até eu falar: ‘Chega! Não vou deixar ninguém falar que eu não posso, que eu tenho de ser desse jeito’. Aí ficou como se eu fosse uma pessoa rebelde, que estava criando problema. Talvez por isso eu não fui convocada depois de 2000”, disse Sissi.

Nessa fase, ela já havia adotado o visual com cabelos raspados. À reportagem, disse que foi uma escolha pessoal, mas aquilo a colocou diante de uma situação fundamental para repensar o projeto da própria vida.

“Eu já estava nos EUA quando uma professora foi no escritório do meu clube e pediu para a minha manager um encontro comigo. O motivo era um garoto que estava sofrendo bullying por estar careca… A Sissi mudou depois de conhecer o garoto. Fui entender qual era minha jornada nesse mundo. Não era só jogar profissionalmente. Então, eu abracei isso e fiz uma homenagem a esse garoto, que veio a falecer. E quando dá na cabeça vou lá e raspo novamente”, disse sobre o jovem Julius, de 11 anos, que lutava contra um câncer.

A nova Sissi, como ela mesma gosta de definir, passou a dar valor ao que realmente merece. Passou a olhar para o próximo e agora quer ajudar meninas que sonham em jogar futebol, quem sabe até descobrir novas 'Sissis'.

Foi assim que a treinadora pensou em um projeto no qual fosse a ponte para o desenvolvimento de jovens brasileiras por meio do futebol, com uma bolsa para jogar e estudar em uma universidade americana.

“São as duas coisas, e a educação vem em primeiro lugar. Outras tentativas esbarraram nisso. As meninas queriam vir só para jogar. Agora vou ter esse trabalho de parceira no Brasil, com a Five Company, pessoas que posso confiar, para eles pensarem nas candidatas. Tem um custo alto, que envolve passaporte, viagem. Tudo isso tem de ser pensado. A minha função é ver universidades, Junior Colleges e clubes, como uma embaixadora. O que posso dizer é que aqui se valoriza muito o talento brasileiro e há espaço para desenvolver algo assim”.

A treinadora explicou que o projeto foi pensando antes da pandemia do novo coronavírus assombrar o mundo (só no Brasil são mais de 400 mil mortos), o que significa que ele está na “gaveta”, aguardando dias tranquilos para ser colocado em prática.

Depois de ter honrado o sonho do pai e agora o da mãe, Sissi encerrou a entrevista com mais uma mensagem.

“Não termine seu dia sem conquistar algo. Seja algo como filha, como jogadora, como pessoa. É o que eu procuro fazer. Meu dia não é completo se eu não conquistar algo”, concluiu a jovem treinadora e sonhadora Sissi.