'O volante que quebra linhas'. Constantemente usado por comentaristas esportivos em análises na TV, o termo pode ser explicado com grande exatidão com a jogada de Federico Valverde que deu origem ao primeiro gol do Real Madrid na vitória por 2 a 1 no clássico contra o Barcelona, no último sábado (10).
Surpresa de Zinedine Zidane na escalação, o uruguaio foi um dos estaques em campo no triunfo merengue, e atuou como um veterano na Europa, mesmo com apenas 22 anos.
Em entrevista publicada nesta quarta-feira (14) pelo jornal The Guardian, o jogador relembrou sobre o início de sua carreira, quando viveu uma realidade muito diferente daquela que desfruta agora, nos principais palcos do futebol europeu.
“No Uruguai nem todo campo é grama. Nem mesmo nos profissionais, imagina então na base. São campos de terra e cascalho. Você vai bater um escanteio e tem um animal próximo a você. Faz você crescer, lutar, ficar mais forte. É lindo voltar de um jogo com o rosto coberto de sujeira, o cabelo seco de lama, as chuteiras cheias de pedras. A coisa mais linda que uma criança pode vivenciar é entrar no ônibus todo final de semana com seu uniforme, dividir isso com amigos e familiares”.
“O futebol é essencial para o Uruguai. As pessoas morrem por seus times, são loucas por eles. E quando você é criança, a primeira coisa que dão para você é uma bola. Temos uma população tão pequena [cerca de 3,5 milhões de habitantes], portanto, produzir tantos bons jogadores nos enche de orgulho”.
Nesta quarta-feira, o volante é esperado para ser um dos titulares do Real Madrid na partida diante do Liverpool, em Anfield, no confronto de volta pelas quartas de final da Uefa Champions League. Na ida, os merengues venceram por 2 a 1, na Espanha.
A ironia é que o duelo marcará em um palco que era sonho de Valverde na infância, quando também torceu pelo clube inglês que agora tentará eliminar.
“A maioria dos uruguaios apoia times com uruguaios. Quando Suárez estava lá, eu o apoiava. Acontece com Cavani no Manchester United também. Naquele ano, todo o país apoiou Liverpool”, disse o volante, que riu ao ser questionado se seu povo está torcendo agora pelo Real Madrid. “Acho que sim”.
Vestindo agora uma das maiores camisas do futebol mundial, Valverde relembrou ao The Guardian dois momentos difíceis que precisou enfrentar ainda na juventude. A primeira delas, quando teve que decidir entre seguir se dedicando ao esporte ou se formar na escola.
“Houve um momento de mudança na minha vida, e que agora também me arrependo porque gostaria de ter continuado, em que tive de decidir se continuava a estudar ou iria jogar futebol, porque estava faltando muito”, lembrou.
“Eu tinha 14 ou 15 anos e jogava pela seleção nas categorias de base. Viaja muito, faltava às aulas, ficava para trás, era difícil. Meus pais não queriam que eu saísse da escola, mas as duas coisas não se encaixavam. Decidi: o futebol é meu sonho, sou bom no futebol e vou me dedicar”.
Além da decisão sobre se dedicar integralmente ao futebol, o volante apontou a saída de casa como um momento duro que precisou enfrentar para estar onde está. Sobre isso, Valverde foi questionado sobre ter sentido medo de deixar seu país.
“Não sei se medo. Quando você está perseguindo seu sonho, não há nada que possa atrapalhar. Mas existem os obstáculos. Talvez para alguns sair de casa aos 18 anos não seja um problema, mas para mim não foi fácil. Em Madri te dão tudo, você tem milhares de pessoas para te ajudar. Mas o amor da tua mãe e do teu pai é diferente”.
