Há pouco menos de um ano e meio, Léo Coelho treinava no Sindicato de Atletas de São Paulo para manter a forma. Desempregado pela segunda vez em pouco tempo, o zagueiro estava há quatro meses sem entrar em campo depois de jogar a Série A3 do Campeonato Paulista pelo Comercial-SP. Sem muitas perspectivas, ele decidiu largar o futebol e trabalhar.
"Por ter um filho e uma esposa que precisavam de mim, eu não aguentava mais ficar em casa e me sentia um inútil. Eu treinava, mas as coisas não aconteciam. Eu pensei: 'O que posso fazer agora?' Mudei minha carteira de motorista para dirigir Uber e também estava com tudo certo para começar na semana seguinte como vendedor de carros em uma concessionária", disse, ao ESPN.com.br.
"Poucos dias antes de iniciar no emprego, me ligaram para fazer testes de duas semanas no Fénix, da primeira divisão do Uruguai. Eu resolvi arriscar. Caso não desse certo, eu voltaria ao Brasil e começaria a trabalhar", recordou.
Mesmo estando parado há algum tempo, o brasileiro agradou o treinador Juan Ramón Carrasco e foi contratado. Em poucos dias, estreou como titular e nunca mais saiu da equipe.
"Quando pensei em desistir, as coisas aconteceram. Fui para o Uruguai, um lugar longe da minha casa e que fala uma língua que não conhecia. Foi uma reviravolta incrível", contou.
Além disso, ele entrou para a história por ter sido o primeiro zagueiro a marcar um hat-trick em uma partida do Campeonato Uruguaio em 17 anos. E o feito valeu a vitória de virada por 3 a 2 sobre o Defensor-URU e a vaga na Copa Sul-Americana.
"Não fiz nenhum gol de pênalti ou de falta, foram todos em lances de jogo. Foi um dia muito marcante. Fiz até um quadro com a camisa e a matéria do jornal que está na casa dos meus pais. Curioso que naquela semana eu já tinha feito um golaço de fora da área (risos)".
Um dos maiores orgulhos de Léo foi ter saído invicto contra o poderoso Peñarol - um empate e uma vitória - na última temporada.
"Não sofremos gols, e eu saí como o melhor jogador em campo. A cada jogo eu tenho conseguido fazer excelentes atuações", afirmou.
Com tanta moral, Léo chegou a ser capitão em algumas oportunidades da equipe, incluindo na Copa Sul-Americana de 2020, quando o modesto time uruguaio chegou às oitavas de final.
Começo de carreira
Antes de virar profissional, Léo Coelho foi reprovado em testes no São Caetano e no Santo André. Como não tinha feito categorias de base até os 17 anos, ele pensou em começar a trabalhar e fazer uma faculdade assim que terminasse o ensino médio.
Um convite do Nacional-SP para integrar os juniores mudou seus planos. Depois de jogar algumas edições da Copa São Paulo e ser campeão da Série B do Paulistão (quarta divisão), ele passou pelo Grêmio Barueri antes de ir ao Penapolense-SP para a disputa da Série A1 do Estadual.
"Fiz bons jogos e fui para o Paraná para jogar a Série B do Brasileiro. Depois, passei pelo Rio Claro antes de ir para o Santos, em 2016".
Depois de se destacar pelo time B santista na Copa Paulista, ele chegou a ser integrado no elenco profissional pelo técnico Dorival Júnior.
"O Gustavo Henrique e o Luiz Felipe estavam lesionados e fiquei um mês treinando com o time principal. Não joguei, mas foi uma experiência incrível. Em 2017, o Santos trouxe o [zagueiro] Cléber Reis e o time B não tinha calendário no primeiro semestre. Joguei o Paulistão pelo Penapolense antes de voltar ao Santos", afirmou.
Em 2018, Léo Coelho defendeu a Portuguesa, mas depois do Estadual ficou oito meses desempregado.
"Surgiu uma chance de jogar a Série D do Brasileiro, mas o salário era muito baixo. Eu estava para ser pai e não podia arriscar porque eram só seis jogos garantidos", contou.
Seleção uruguaia e futuro
O zagueiro só voltou a jogar no ano seguinte na Série A3 do Paulista pelo Comercial, mas não conseguiu se empregar depois do fim da competição. A nova chance só viria quatro meses depois no Fénix.
"Consegui mostrar meu trabalho e as coisas têm mudado. Tive uma sequência de jogos que não conseguia há tempos no Brasil. Quando era mais jovem tomei algumas decisões erradas, mas sempre me preparei muito. Minha esposa e meu filho me ajudam muito. Quando a chance veio, eu estava preparado".
"O nosso treinador é o Ramon Carrasco, que é um amigo e sempre acreditou no meu potencial. Ele é uma figura dentro de campo, mas é uma pessoa incrível", elogiou.
Com tanto sucesso, Léo não descarta um dia defender a seleção uruguaia. Para isso, ele precisaria jogar cinco anos no país e obter a nacionalidade.
"As pessoas me receberam muito bem e seria uma honra jogar pela seleção e seria algo profissionalmente muito bom para mim. O problema é que ficará difícil pelo tempo que precisei ficar por aqui. Eu não posso me nacionalizar porque tenho só tenho um ano e meio no pais".
É provável que em breve o defensor, de 27 anos, saia do Fénix para uma equipe de maior expressão no Uruguai ou até mesmo no Brasil.
"Eu sempre falo para o meu empresário que não gosto de falar sobre especulações. Ouvi a vida inteira isso. Pedi para que ele me falasse somente quando tivesse algo concreto. Tenho contrato até o fim do ano e meu foco está aqui. Se aparecer algo bom para o Fénix e para mim, iremos conversar. Ainda tenho ambição de jogar em uma equipe grande do Brasil para disputar o Brasileirão e a Libertadores. Estou bem tranquilo".
