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Ex-Internacional conta como desistiu do sonho de jogar Copa do Mundo para ser campeão da Libertadores

Em 2009, Wilson Matias vivia um dilema na carreira. Ídolo no Morellia-MEX, ele tinha conversado com o treinador Javier Aguirre, do México, para se naturalizar mexicano e defender a seleção local. Com propostas de outros times do país, ele recebeu uma oferta do então vice de futebol do Internacional, Fernando Carvalho. O problema é que se mudar para Porto Alegre iria desfazer os planos de brigar por uma vaga na Copa do Mundo do ano seguinte, na África do Sul.

“Foi um momento muito complicado porque a seleção é o ápice para um jogador. Mas o meu sonho era jogar por um time grande do Brasil. Meu empresário estava me negociando com o América, do México, mas o dono do Morellia falou que eu poderia ir para qualquer clube, menos o América, pela rivalidade. Daí, entrou o Monterrey na briga. O Inter começou a negociar comigo depois que vendeu o Sandro ao Tottenham. Eu vi que teria chance de vencer a Libertadores, que era um grande sonho”, explicou em entrevista ao ESPN.com.br o paulista de Limeira.

O clube mexicano não queria liberar o volante e segurou ao máximo a sua saída. Mesmo assim, ele conseguiu assinar contrato com o Inter quase no fim da janela de transferências.

Ao chegar ao Beira-Rio, Wilson viveu de tudo um pouco. Fernando Carvalho havia dito que a contratação do jogador foi "espetacular", algo que o acompanhou durante toda sua passagem no clube colorado.

“O Fernando disse isso porque era muito difícil tirar um jogador que era ídolo no México e o convencer a sair do time. No México, não iam querer arriscar me vender, pois já estava adaptado, para contratar outro. Algumas pessoas da imprensa do Sul foram muito oportunistas. Fiz 58 jogos, 48 jogos como titular, e não poderia ser tão ruim. Alguns caras não têm critério ao criticar”, afirmou o ex-jogador que tem 37 anos e aposentou-se no fim de 2018.

“A torcida me cobrava como se fosse o mesmo jogador do México, mas no Inter tínhamos um esquema tático diferente e eu jogava mais recuado”, detalhou.

Wilson esteve no grupo que foi campeão da Conmebol Libertadores em 2010, derrotando o Chivas-MEX na final.

“Nosso elenco era tão bom que ninguém queria se machucar porque depois não conseguia mais voltar. Tive a felicidade de conquistar a Libertadores e foi a melhor escolha que fiz naquele momento”, garantiu.

Após a saída de Sandro para o Tottenham, ele se firmou como titular do técnico Celso Roth até o Mundial de Clubes, quando o time colorado caiu para o Mazembe nas semifinais.

“A gente queria ir para a final e jogar contra a Inter [de Milão-ITA], mas não conseguimos. O Mundial teve um peso muito grande na nossa carreira e foi um aprendizado muito grande”, disse.

No ano seguinte, Wilson perdeu espaço, mas ainda foi campeão do Gaúcho e da Recopa Sul-Americana. Além disso, ficou em terceiro na Audi Cup, na Alemanha.

“Eu entrei no segundo tempo contra o Barcelona e a gente empatou o jogo com dois gols de cabeça do [Leandro] Damião. Depois, joguei a partida toda contra o Milan, que tinha Ibra, Robinho, Thiago Silva, Seedorf e o Gattuso. Jogamos de igual para igual e foi uma experiência muito legal”, contou.

“Fui campeão da Recopa e do Gaúcho. Minha passagem foi muito positiva e o importante é que as medalhas estão em casa e minha foto está no museu do Inter. Isso não tem preço. Como diria o Zagallo, vão ter que me engolir (risos)”, brincou.

O que faz hoje

Irmão de outros dois jogadores. Wilson Matias passou pela base de clubes como Rio Branco-SP, Athletico-PR e Velo Clube-SP, no qual se profissionalizou. Depois de se destacar no União São João, de Araras, ele foi contratado pelo Ituano, agremiação em que permaneceu por três anos.

“Fiz um gol no Santos, que tinha acabado de vencer o Brasileiro e quis me levar, mas o presidente do Ituano não me liberou. Minha história poderia ter sido diferente”, contou.

Em 2005, o volante foi contratado pelo Morelia, do México.

“Os primeiros seis meses foram conturbados. No primeiro jogo, o time estava ganhando, mas fui expulso e o time perdeu de virada. Quando fui voltar a jogar, machuquei o púbis e fiquei o resto da temporada parado. Havia muita expectativa em mim e eu tinha um contrato de cinco anos. Depois, chegou o [técnico brasileiro] Tuca Ferretti, que acreditou no meu potencial. Ele passou a me dar livros para aprender espanhol. Quanto mais dominasse a língua, melhor jogaria.”

Wilson treinava de manhã e estudava o idioma à tarde com uma professora particular.

“Dei sorte porque encontrei um treinador que gostava de mim. No ano seguinte passei a ir bem. No último jogo do Clausura, eu fiz o gol que o time precisava para vencer e fui crescendo. Em 2009 tive quatro propostas da França, mas o dono do clube não quis me liberar porque era ídolo da torcida. O futebol mexicano tem muito dinheiro”, afirmou.

Depois de jogar no Inter, Wilson passou alguns meses emprestado em 2012 à Portuguesa, quando conviveu com atrasos de salários. No meio do ano, voltou ao México para defender o Toluca-MEX.

“Estava um pouco desanimado em 2011 depois do Mundial porque tinha passado por muitas coisas. O Toluca tinha uma estrutura enorme e uma organização espetacular. O dono era o mesmo da cervejaria Corona. Fiz duas temporadas de alto nível e fiz muitos gols. Recebi muito apoio e carinho. Chegou um treinador paraguaio que queria mudar o esquema tático e me disse que eu estava fora do time. São coisas do futebol”, explicou.

Wilson foi comprado depois pelo Vera Cruz-MEX, que o emprestou a Chiapas-MEX, Querétaro-MEX e Dorados-MEX.

“Sempre vou estar ligado ao México porque meus filhos nasceram lá. É um país que amo e sou naturalizado mexicano. Eles são apaixonados por futebol, mas não são agressivos.”

Em 2017, Wilson rescindiu o contrato com o Vera Cruz e acertou com o Oeste para jogar a Série B do Brasileiro. “Estava há muito tempo no futebol mexicano e era tudo diferente. Depois da Série B tivemos algumas conversas, mas não evoluiu. Recebi algumas ofertas que não valiam a pena e resolvi pendurar as chuteiras”, contou.

Após ficar com uma franquia por um ano, ele não gostou e decidiu abrir uma empresa de marketing esportivo com o auxílio da esposa.

“Resolvi colocar a experiência que tive nessa área. Queremos mostrar outro lado do futebol para que o torcedor possa ter acesso ao dia a dia do jogador. Estamos explorando muito o campo digital, que será o futuro. Fiquei meio receoso de sair da minha área de conforto, mas estou bem feliz”, finalizou.