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Funcionários do Santos relatam episódios de racismo e assédio dentro do clube: 'Abriu a porta e falou que era a senzala'

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Duas acusações estão repercutindo internamente no Santos. Dois funcionários distintos relataram ao presidente Orlando Rollo, que cumpre a função até à posse do mandatário recém-eleito Andrés Rueda, em 2021, um caso de assédio moral e outro de injúria racial dentro do clube.

A primeira denúncia é de F.C.S. [o nome da denunciante foi preservado a pedido da mesma à reportagem], funcionária do departamento de recursos humanos da agremiação, contra Luiz Eduardo Silveira, superintendente administrativo e financeiro da gestão atual.

Ela, que é negra, diz ter sido humilhada por ele e ainda reclama que Orlando Rollo não tomou nenhuma atitude em relação ao ocorrido, mesmo sabendo das denúncias há mais de um mês.

A segunda acusação é mais recente, da última semana. É de um advogado do clube [que também pediu para que seu nome fosse preservado] contra Roberto Rabelato, gerente de controladoria santista. Negro, ele diz não ter tido oportunidades por conta de sua cor de pele e acusa o gerente de ter aberto a porta de uma sala em que ele estava e dito: “Aqui é a senzala.”

Em áudio obtido pelo ESPN.com.br, o próprio Rabelato admite ao presidente Rollo ter dito tais palavras.

Por meio de nota oficial, o Santos disse ter encaminhado as denúncias à Divisão de Inquérito e Sindicância para que elas sejam apuradas e providências sejam tomadas. Os dois acusados também não quiseram se pronunciar para não interferir nas investigações.

Assédio moral

F.C.S foi contratada pela gestão interina de Rollo para ser Supervisora de Recursos Humanos em outubro, pouco mais de um mês após o impeachment de José Carlos Peres e a consequente mudança no comando do clube.

Ela diz, porém, que encontrou outra realidade ao chegar na agremiação. As promessas feitas pelo presidente em exercício foram prontamente descartadas pelo superintendente administrativo e financeiro da gestão, Luiz Eduardo Silveira.

“Rollo me procurou para trabalhar no RH do clube. Queria muito que eu trabalhasse com ele no clube. Falou que eu seria gerente de gestão na área de RH e ficaria responsável pelo RH”, contou a funcionária.

A relação ruim com Luiz Eduardo Silveira começou antes mesmo da chegada dela no clube. O superintendente era o responsável por fazer, de fato, a contratação dela. Mas não o fez por um tempo. F.C.S só foi contratada depois que um outro gerente do clube entrou em contato a procurando.

“Ele (esse outro gerente) me perguntou onde eu estava, disse que o presidente havia dito que já era para eu estar no clube. Eu falei que ninguém havia me ligado. No dia seguinte, o superintendente me ligou, fazendo o contato. Desde então percebi que ele não me queria no clube", afirmou.

A funcionária viajou até à cidade de Santos e começou a trabalhar no dia 15 de outubro. Ela relata que Luiz Eduardo evitou contato desde o primeiro dia.

"Quando comecei, o superintendente não veio falar comigo. Não sentou para alinhar o que seria feito, só ficava prometendo reunião. Passaram duas, três semanas, e ele veio me pedir algumas coisas, meio que pedindo resultado. Falei que sem problema, que eu entregaria para ele", disse.

"A primeira reunião seria finalmente em uma sexta-feira, mas a coordenadora do RH não foi. Ela se sentiu mal e vazou a informação de que ela seria mandada embora. Eu achei que eu viria para ser gerente de gestão e trabalhar com ela, aí saiu essa informação e ela não foi trabalhar. E a reunião foi desmarcada", prosseguiu.

F.C.S relata que só conseguiu a reunião depois de mais de um mês, em um encontro amigável do Luiz Eduardo.

"Um dia ele me chamou e falou que eu ficaria como supervisora, não seria gerente. Disse que iria ganhando as pessoas, até pagaria um almoço. No dia seguinte, ele me mandou mensagem cedo querendo que eu fizesse uma ação sobre a COVID e ele meio que me desafiou, falou que se eu fizesse a ação ele ia me dar uma caixa de bombom. Em meia-hora, eu montei toda a ação”, detalhou.

Foi então que o assédio moral começou.

"Ele achou que eu não conseguiria fazer isso. Mas deu supercerto. No dia seguinte, ele me chamou na sala dele. Foi aí que ele começou a me humilhar. Falou que eu não tinha perfil para ser do RH, não tinha perfil para ser gerente de RH e, muito menos, para ganhar o salário que me foi oferecido. E começou a me humilhar", relatou F.C.S.

"Eu perguntei como ele podia falar uma coisa se nem viu o trabalho. E ele continuou a me humilhar. Falou: 'Seu salário vai ser esse, não deixei o presidente dar o salário que ele queria te pagar. E vocês não têm direito à moradia, só quem tem moradia é superintendente'. Ele ficou me humilhando o tempo todo", prosseguiu a acusadora.

F.C.S decidiu relatar o ocorrido ao presidente Orlando Rollo. Em um encontro presencial no clube, a funcionária contou o que havia acontecido e ouviu do mandatário alvinegro que medidas seriam tomadas. Depois de dias sem uma resposta, ela entrou em contato com Rollo pelo WhatsApp no dia 18 de novembro para cobrar explicações (veja as conversas nos prints abaixo).

Foi aí que ela descobriu que a solução dada pelo presidente do clube seria mudá-la de função, a pedido do superintendente Luiz Eduardo.

"Ele me tirou do RH e me colocou no marketing. Me colocou em uma mesa no fundo da sala, sem computador, cortou meu acesso ao e-mail e não explicou nada. Desde o começo, eu avisei ao presidente. Falei tudo que estava acontecendo desde o começo e as coisas foram piorando. O Luiz me tirou do RH, me humilhou e continuou me ignorando no clube como se eu não existisse", relatou.

Apesar das mudanças, o nome de F.C.S ainda consta na relação de funcionários do Portal de Transparência do Santos como "supervisora de RH".

F.C.S diz que outros funcionários do clube começaram a se dar conta da situação e chegaram a dizer que ela estava sendo vítima de racismo.

"Meus colegas do clube falaram comigo: 'Só quem não quer ver não vê que isso com você é racismo'. O que ele fez comigo foi assédio moral”, disse F.C.S.

Racismo

No último dia 17, quase um mês após as denúncias, Rollo convocou uma reunião com F.C.S e mais três funcionários para tratar da saída deles do clube ao final do ano, por conta do fim do mandato dele na presidência.

Além dos quatro, estavam presentes o superintendente Luiz Eduardo, o gerente de controladoria do clube Roberto Rabelato, o vice-presidente Mario Badures e um advogado do clube.

Nessa reunião, outro funcionário do Santos, um advogado que também é negro, como F.C.S, fez uma segunda denúncia ao presidente Rollo, dessa vez envolvendo Rabelato.

Em um áudio da reunião obtido com exclusividade pela reportagem [ouça e leia assistindo ao vídeo abaixo] através de uma fonte anônima, é possível ouvir o advogado conversando diretamente com Rollo e fazendo a denúncia.

"Quando eu cheguei aqui, eu pensei que ia ser diferente. Porém, o Rabelato nunca me deu uma oportunidade. Ficou o tempo inteiro segurando as coisas. Tinha que ser do jeito dele, certo? Eu tenho 33 anos de advocacia, acho que alguma coisa eu entendo. Em nenhum momento tivemos um relacionamento. Ele mal olhava na minha cara, mal dava bom dia e dizia para mim que queria distância. Eu sou homem e não falava nada porque acho que é assim que tem que ser levado", disse o profissional antes de fazer a acusação.

"Então estou falando na cara dele aqui, nos olhos dele. Que ele diga aqui que não abriu um dia a porta da sala lá e disse 'aqui é a senzala'. Quero que ele diga isso, que não falou isso. Eu fiquei tão estupefato que eu não acreditei. Então quero que ele diga na minha cara que ele tem algum problema comigo por eu ser negro porque eu não acredito nisso. Agora, que ele falou isso na minha cara, ele falou. Mas ele não falou assim diretamente. Ele abriu a porta, olhou e falou 'ah, aqui é a senzala'. Por que ele fez isso? Não sei. Está engasgado aqui", denunciou.

O presidente Orlando Rollo se manifestou dizendo que a situação era "grave". Rabelato, que estava na reunião, confirmou o episódio.

"Procede, sim", disse o gerente.

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2:56

Exclusivo: Áudio de reunião no Santos revela denúncia de racismo contra dirigente: 'Abriu a porta e falou que era a senzala'

Áudio foi obtido exclusivamente pelo ESPN.com.br

Foi, então, que as coisas esquentaram, e o presidente Rollo ameaçou encerrar a reunião.

"Isso é uma reunião corporativa. Você já mostrou que não serve, doutor, me desculpa", disse o mandatário. "Isso aqui é uma reunião corporativa, você está se exaltando. Quando você ouviu isso de senzala, você tinha que ter me comunicado oficialmente porque isso é gravíssimo", seguiu o mandatário dirigindo-se ao autor da denúncia.

Rollo prometeu marcar uma reunião com Rabelato para discutir o ocorrido e voltou a cobrar que a denúncia deveria ter acontecido antes.

O advogado, então, se defendeu dizendo que "não queria prejudicar o grupo e, diante da situação, preferiu ficar em silêncio".

O presidente santista voltou a falar sobre a demissão do advogado e disse que ela se daria simplesmente por conta do fim da gestão de transição.

"Doutor, eu só quero que você saiba uma coisa: mesmo que você seja o Joaquim Barbosa, eles vão te mandar embora", disse.

O advogado, então, voltou a cobrar providências.

"Não, eu não estou discutindo isso [a demissão]. Só estou dizendo que a relação não foi boa. Eu não sei o motivo. Eu só queria que ele, um dia, pudesse explicar por que fez isso", rebateu o advogado antes de voltar a ouvir promessas de uma investigação.

Na sequência, o advogado encerrou lembrando da história do Santos e voltou a dizer que não "falou nada para não criar situação".

"Até porque no Santos o maior jogador hoje, o Marinho, é negro. Então isso não deve acontecer no Santos Futebol Clube. Não falei isso para ninguém porque eu não queria criar situação", finalizou.

Posicionamento do Santos

A reportagem entrou em contato com o Santos, que respondeu por meio de nota oficial, reproduzida na íntegra abaixo.

"Assim que tomamos conhecimento dos fatos, o Santos FC decidiu encaminhar o assunto para a Divisão de Inquérito e Sindicância, para apuração do ocorrido e as providências necessárias."

Luiz Eduardo Silveira e Roberto Rabelato não vão se pronunciar até que as investigações sejam concluídas.