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São Paulo campeão do Mundial de Clubes 2005 - André Plihal conta bastidores da final e explica por que o São Paulo foi um tubarão Wobbegong contra o Liverpool

A final São Paulo x Liverpool aconteceria apenas à noite naquele domingo, por isso combinei com o Laudemir “Preá” Ferreira (cinegrafista) de dormirmos até mais tarde. Com qualquer resultado invadiríamos a madrugada trabalhando, e a longa viagem de volta ao Brasil seria logo na manhã da segunda-feira. Mas um telefonema atrapalhou nossos planos.

Do interfone do hotel em Yokohama, no Japão, o repórter da TV Record Lívio Lamarca quase suplicava para descermos ao lobby. Não queria dizer o motivo. Disse a ele que sem saber a razão não sairia da cama. Sem chance. Encurtando a história, Lívio acabou cedendo e falou que havia sido ameaçado por torcedores uniformizados do São Paulo nas ruas da cidade.

“Se o clube não tomar uma providência, vou fazer o diabo aqui! Faço o São Paulo perder essa final.”

A justificativa dos torcedores para as ameaças baseava-se nas notícias de racha no elenco por conta do “bicho” do Mundial de Clubes e do pré-contrato que Amoroso teria assinado com o FC Tóquio. Os torcedores alegavam que a imprensa queria agitar plantando histórias mentirosas. Bom lembrar que após garantir vaga na decisão, os jogadores ensaiaram uma ‘lei do silêncio’. Na verdade, ficaram mesmo um dia sem dar entrevistas, não falaram depois do sofrido jogo semifinal contra o Al-Ittihad, da Arábia Saudita - vitória por 3 a 2.

Não bastasse a força do Liverpool, sem sofrer gols há 11 jogos, e com Gerard em grande fase, o São Paulo autodestruía-se. Eu não conseguia encontrar qualquer possibilidade de o time brasileiro derrotar o inglês. Jamais fui para um jogo tão descrente.

Tubarão Wobbegong

Disse ao Lívio para parar de bobagem, que nada aconteceria, os caras não iriam aprontar no Japão. Cão que late não morde, ainda mais em quintal desconhecido. Para não sair do mundo animal, diria que naquele 18 de dezembro de 2005 o São Paulo foi um tubarão Wobbegong, considerado o animal mais traiçoeiro da natureza. O Wobbegong não persegue a presa, ele deixa você chegar perto e daí abocanha um membro.

O São Paulo agiu dessa forma contra o Liverpool. O placar de escanteio dá a ideia da pressão que o time vermelho fez: 18 a 0. No de gols anulados acabou 3 a 0 para o Liverpool – todos perfeitamente, registre-se. E as defesas difíceis de Rogério Ceni?! Pelo menos 4. Pepe Reina pegou somente um chute de Amoroso que qualquer um de nós também encaixaria. O São Paulo finalizou só mais uma vez em 90 minutos. O gol de Mineiro.

Uma vitória improvável não poderia ter um gol mais improvável. Passe curto de Rogério Ceni para Fabão, que enfiou o pé na bola na direção de Aloísio. Após matar no peito àquele petardo que veio do zagueiro, Chulapa fez um lançamento de três dedos para Mineiro, que de surpresa infiltrou-se no meio da defesa inglesa e arrematou de forma cirúrgica.

Fazia muito frio. Perto de 0 grau. Não senti nada. O envolvimento com o jogo não permitia. Instantes depois do apito final, celular conectado com o Brasil e entrevistas no gramado com todos os jogadores. Detalhe: entrevistas ali eram proibidas. Fiquei ‘marcado’ por um chefão de imprensa da Fifa, e no ano seguinte, na Copa do Mundo disputada na Alemanha, ele me deu o troco vetando a minha entrada em um treino da seleção brasileira.

Passados 15 anos, sigo tendo certeza que fiz um bom negócio. Nossa cobertura estenderia-se quase que ininterruptamente por mais dois dias. Até o desembarque junto da delegação tricolor em São Paulo.

Ainda bem que voltei a dormir ao desligar o interfone com o Lívio. Nem os tubarões suportam ficar sem dormir. Só que eles disfarçam bem, permanecem em movimento. Sempre estratégicos, traiçoeiros... como foi o São Paulo naquele 18 de dezembro de 2005.

*Jornalista da ESPN Brasil, apresenta atualmente os programas Bola da Vez e Resenha ESPN e cobriu todo o Mundial de Clubes de 2005.