Após 12 anos, 516 partidas, 95 gols marcados e 13 títulos conquistados, incluindo a Conmebol Libertadores de 2010, Andrés D'Alessandro irá entrar em campo pela última vez pelo Internacional contra o Palmeiras. O jogo, válido pela 26ª rodada Campeonato Brasileiro, será realizado no Beira-Rio, neste sábado. Por causa da pandemia de COVID-19, um os maiores ídolos da história do clube não poderá se despedir dos torcedores que tanto o amaram em todo esse tempo.
Com jeito aguerrido e algumas polêmicas ao longo da carreira, o meia superou uma fama de arrogante e desagregador para brilhar no time gaúcho.
"Ele é um cara sensacional e muito humano. Quem o conhece fora de campo sabe que ele é extrovertido, alegre, gosta de samba e de resenha. Tem gente que acha que ele é marrento, mas que nada! Ele tem muita personalidade e trata todo mundo bem, seja o medalhão ou os meninos que estejam começando", disse Wilson Matias, campeão da Libertadores pelo Inter, ao ESPN.com.br.
O brasileiro não esquece da forma carinhosa que foi recepcionado por D'Alessandro. O argentino fez questão de dizer ao volante que todos os jogadores no vestiário eram iguais, incluindo na hora de brincar.
"Uma vez na 'intertemporada' em Porto Alegre estava um frio danado. Eu ficava sozinho no quarto dormindo, e o D'Ale bateu na minha porta e começou a gritar: 'Vamos, Mathias!' Eu achei que ele estava zoando, mas todo mundo foi para o Beira-Rio e eu perdi o ônibus. Daí, cheguei depois no vestiário e ele estava com um relógio na mão e me zoou: 'Você vai pagar a caixinha por atraso para o churrasco'. Todo mundo caiu na risada", contou o ex-volante.
Outro traço da personalidade do argentino é a dedicação que o fez estender a carreira em grandes clubes mesmo aos 39 anos.
"O D'Ale é extremamente profissional: é o primeiro a chegar e o último a sair do campo. Em 2010, ele gastou a bola porque é um fora de série. Os meninos que tiveram a chance de jogar junto com ele aprenderam muito com esse comportamento. Ele é um exemplo dentro e fora de campo. Um dos poucos estrangeiros que tiveram tanta identificação com um clube brasileiro", disse Matias.
Contratação difícil
A história do argentino começou quando o presidente Fernando Carvalho, admirador do futebol do camisa 10 desde os tempos de River Plate, resolveu tirá-lo do San Lorenzo-ARG.
"Quando eu voltei ao Inter [como vice-presidente de futebol], pensei: 'D’Alessandro no San Lorenzo? Ele poderia estar no Inter!’ Mas a ideia ficou só no pensamento. Pouco tempo depois, contratamos o Tite e uma das posições que ele nos pediu era de um meia. Um empresário, que tem ligações com futebol argentino, me ofereceu um jogador, mas recusei. Eu disse: 'Me traga um jogador bom, tipo o D’Alessandro, por exemplo. Ele é um craque de bola, está jogando no San Lorenzo'. Uma semana depois, ele trouxe uma carta do empresário do D'Alessandro que o autorizava a ser o representante exclusivo", afirmou.
Fernando Carvalho viajou para Buenos Aires e teve uma conversa bastante franca com o meia.
"Falei como era o clube, as pretensões que tínhamos para ele e as nossas regras. Abordamos com o D’Alessandro sobre a fama de ser uma pessoa de relacionamento difícil e desagregador. Ele me respondeu: ‘Eu sou profissional. Se as pessoas cumprirem comigo, eu cumpro rigorosamente tudo que combinei. Mas vou te cobrar o que foi combinado e vamos nos dar bem'. Ele foi receptivo desde o começo", contou.
Segundo o ex-dirigente, o acordo com o jogador foi fácil, mas as outras partes da transferência foram mais complicadas. Foram cerca de 20 dias de intensas negociações, com diversas viagens para Buenos Aires e para Espanha, até que o martelo fosse batido.
"O problema é que o Zaragoza era detentor de 50% dos direitos dele e tinha um grande empresário argentino, Marcelo Tinelli, torcedor do San Lorenzo, que tinha a outra metade. A gente tinha que comprar as duas partes, mas havia um prazo para que o empresário comprasse do Zaragoza. A negociação foi muito difícil porque eles exigiam garantias e não tínhamos dinheiro à vista. Precisamos de ajuda do Delcir Sonda não só para colocar dinheiro, mas para dar as garantias", relatou.
Assim que o negócio foi concluído, o Internacional divulgou a contratação de D'Alessandro em 22 de julho de 2008, por cerca de 7 milhões de dólares.
Quando chegou a Porto Alegre, o meia - que estava com 27 anos - foi recepcionado por muitos torcedores colorados no aeroporto.
"Ele estreou em um Gre-Nal que nós empatamos. No clássico seguinte, cerca de um mês depois, ele foi o principal jogador e vencemos por 4 a 1. Ele fez um gol e participou dos outros três. Ai, virou um grande ídolo", recordou.
No Beira-Rio, o meia faturou Libertadores (2010), Copa Sul-Americana (2008), Recopa Sul-Americana (2011), Copa Suruga (2009), Campeonato Gaúcho (2009, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015) e Recopa Gaúcha (2016 e 2017).
"Eu tenho muita gratidão por tudo que ele fez e fico muito orgulhoso de ter participado disso junto com outras pessoas. Tive muita sorte nisso. Junto com o Figueroa, ele é o estrangeiro mais importante da história do clube. Não só pelos títulos que conquistou, mas pelo que representa para o time", elogiou.
Desde então, seu único período fora do Beira-Rio foi justamente um empréstimo de alguns meses ao River Plate, em 2016.
