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Os 20 anos do guardanapo que marcou as vidas de Lionel Messi e Barcelona

“Em Barcelona, no dia 14 de dezembro de 2000, na presença de [Josep Maria] Minguella e Horacio [Gaggioli], Carles Rexach, diretor esportivo do Barcelona, concorda, sob sua responsabilidade e independentemente de divergências, em contratar o jogador Lionel Messi desde que os valores acordados sejam honrados”.

As palavras acima, escritas em um guardanapo após uma partida de tênis em Barcelona, entraram para a história do futebol. Foram escritas às pressas por Rexach, então diretor esportivo do Barça, na tentativa de assegurar a Jorge Messi que o clube catalão estava empenhado em contratar seu filho. Rexach assinou no guardanapo, assim como os agentes Minguella e Gaggioli, como testemunhas.

O pai de Messi ficou preocupado com o futuro do filho por causa da aparente hesitação do Barça em fechar um negócio. Houve um debate entre a cúpula do clube catalão sobre contratar um garoto de 13 anos, mas poucos minutos depois de vê-lo durante um jogo-teste em setembro de 2000, Rexach estava convencido de que eles deveriam agir. Quando surgiu a perspectiva de Messi ir para outro clube, com Real Madrid e Atlético de Madrid à espreita, Rexach resolveu fechar negócio.

20 anos depois, Messi marcou mais de 600 gols pelo Barça e está se aproximando do recorde de partidas de Xavi Hernández pelo clube - 767. (Ele também está a 1 gol de igualar o recorde de Pelé de mais gols marcados por um clube). Ele também foi eleito o melhor jogador do mundo seis vezes, e é considerado por muitos o melhor jogador de todos os tempos.

Para marcar o 20º aniversário da história do guardanapo, a ESPN falou com os três homens que o assinaram, Rexach, Minguella e Gaggioli, junto com o então presidente do Barça, Joan Gaspart, sobre os acontecimentos que culminaram em um momento que mudaria tudo sobre o clube nas próximas duas décadas.


Descobrindo Messi

Messi chegou ao Newell's Old Boys com seis anos de idade em 1994, e desde então os vídeos de suas incríveis habilidades nessa idade se tornaram virais. No entanto, as notícias não correram tão rápido na época, e ele permaneceu relativamente desconhecido fora da região de Rosário. À medida que Messi ficava mais velho, as notícias sobre ele começavam a aparecer, mas o fato de o argentino ter sido diagnosticado com um distúrbio do hormônio do crescimento - e precisar de tratamento para ajudar seu corpo a crescer e se desenvolver adequadamente – fez os clubes na Argentina, incluindo o River Plate, desistirem de uma eventual sondagem. O tratamento era caro para um garoto sem garantias de sucesso. Era uma despesa com a qual os times não queriam ter que lidar, e Messi precisava de um clube disposto a pagar pelo tratamento.

A sorte de Messi mudou em 1998, quando o agente argentino Gaggioli, há muitos anos morando em Barcelona, recebeu uma ligação de dois contatos em Rosário, Fabian Soldini e Martin Montero. Dois anos depois, Gaggioli, com a ajuda de Minguella - um agente que havia trabalhado com o Barça no passado, incluindo a contratação de Diego Maradona - e Rexach conseguiram levar a família Messi para Barcelona.

Gaggioli: Tudo começou em 1998 quando dois de meus contatos, Soldini e Montero, que tinham uma escola de futebol em Rosário, me falaram sobre esse garoto. Messi tinha 11 anos quando me ligaram pela primeira vez para falar sobre ele. Minha ideia era esperar um pouco, até ele ter 12 ou 13 anos, porque ele era muito pequeno na época. Eles nunca esconderam que ele precisaria de tratamento [para ajudar no seu crescimento]. Eles continuaram me enviando vídeos.

Depois que as coisas começaram a andar, organizei uma reunião em Buenos Aires e [o agente] Juan Mateo veio de Porto Alegre. Falamos sobre mandar um vídeo para Minguella para tentar conseguir um teste no Barcelona. A família de Messi disse a Soldini e Montero que eles queriam um grande clube e um lugar onde a família pudesse ir e morar junto. Foi o Barcelona porque [eu estava lá], mas na altura podia ser um clube de Madri, visto que uma proposta chegou a ser feita, mas acabou não se concretizando.

Em fevereiro de 2000, eu já tinha visto vídeos do Lionel e sabia que ele era muito bom. Surgiu a possibilidade de eu trabalhar em Madri, e teria oferecido ao Real Madrid ou ao Atlético, mas no final fiquei em Barcelona e o Rexach aceitou o pedido de um teste.

Minguella: Uma das pessoas em quem mais confio no mundo do futebol sempre foi Juan Mateo. Foi ele quem me ligou animado por ter encontrado um talento excepcional em Rosário, que estava jogando na base do Newell’s e como, ao pegar a bola, sempre marchava rumo ao gol adversário. A tecnologia naquele tempo não era o que é agora. Agora você pode se conectar em qualquer lugar do mundo e ver tudo em um instante. Eu tive que fazer com que eles gravassem alguns vídeos e mandassem para mim.

Quando vi tudo, quase não pude acreditar. Ele era um jogador muito pequeno, mas com um talento excepcional, que corria em direção ao gol adversário com a bola colada nos pés.

Rexach: Gaggioli falou comigo sobre Messi em Montevidéu, no Uruguai. Eu tinha estado no Brasil e em Montevidéu assistindo jogadores. Na volta para Barcelona, ele me disse que eu tinha que mudar meus planos e viajar para Rosário para ver um fenômeno. Quando perguntei sobre sua idade e posição e ele me disse 13, minha primeira reação foi tranquila... mas seu entusiasmo ao falar dele me levou de volta. Então tomei uma decisão que poderia ter sido criticada na época: propus a Horacio que ele arranjasse uma viagem a Barcelona para o garoto e seus pais, para que pudéssemos fazer alguns testes.

Eu não sabia nada sobre o Messi, pessoalmente, até que o vi uma tarde - não sei a data exata - nos gramados ao lado do Mini Estadi. Um jogo foi organizado com alguns garotos dos times de base. Quando Messi chegou a Barcelona, eu deixei claro que um garoto viria para um teste, mas eu tinha que ir - acho que para a Austrália - e não saberia o resultado final até voltar. Mais tarde, soube que ele havia feito alguns jogos, mas que ninguém teve coragem de tomar a decisão.

O que nunca esquecerei é que uma caminhada de três a quatro minutos, o que for preciso para andar em volta do campo, demorou 15 minutos porque fiquei atordoado ao vê-lo jogar, vendo o que ele fazia com a bola, seus movimentos, seus dribles e sua visão de jogo. Eu sabia que era ele, sem que ninguém me falasse, porque era de longe o menor em campo e pude ver algo muito diferente logo de cara. Cheguei ao banco, me sentei e disse aos dois treinadores que estavam lá "Contrate-o. Nem pense duas vezes. E se alguém perguntar, diga que é minha decisão”.

Gaggioli: Quando o vi pela primeira vez, não percebi o quão pequeno ele era. Ele veio a Barcelona para ficar de 16 de setembro até 30 de setembro e fazer os testes. Jorge Messi, Soldini e eu assistimos aos jogos de teste juntos. Lionel se destacou imediatamente. Ele tocava na bola como ninguém. Havia nervosismo, mas não durou muito. Foi uma experiência maravilhosa e Rexach disse que já estava convencido de que o clube teria que contratá-lo.

Gaspart: Eu não sabia quem era Messi. Seria fácil dizer que sim e que me apaixonei desde o primeiro dia, mas não é o caso. Rexach falou comigo sobre Leo, ele merece todo o crédito. Ele veio até mim e disse que não podíamos deixar escapar esse garoto excepcional que veio da Argentina. Ele disse que era diferente de tudo que já tinha visto. E quando um diretor esportivo da posição da Rexach diz isso ... Bom, eu não apenas dei permissão a ele, eu o encorajei a fazer isso.

E repito: [fiz] sem saber nada sobre o Leo.


O risco de perder Messi

Apesar da convicção de Rexach de que o Barça deveria contratar Messi, o clube não teve pressa para fazê-lo após o teste de setembro. Havia dúvidas sobre investir em alguém tão jovem. A família Messi estava entre Barcelona e Buenos Aires e com o passar do tempo, sem notícias do Barça, começaram a ficar ansiosos.

À medida que se aproximava o período do Natal, as pessoas envolvidas em ajudar a trazer Messi para a Espanha começaram a pensar em levá-lo a outros clubes. Real Madrid e Atlético de Madrid foram mencionados.

Gaggioli: O Rexach já tinha decidido [contratá-lo], assim como o falecido Joan Lacueva, que acabou pagando o início do tratamento hormonal, mas o clube não havia decidido. Disseram que era uma loucura contratar Messi. As coisas não iam nada bem no Barcelona e o clube estava à beira da falência. Montero veio em novembro para tentar resolver os problemas, mas não conseguiu. Montero então me ligou e disse para falar com Rexach e avisá-lo de que não poderíamos esperar mais. E ele me disse que, se não contratássemos Messi, ele iria acabar virando jogador do Real Madrid ou do Atlético.

Rexach: Não sei se havia outras equipes interessadas na época, acho que não. Tínhamos aqui, no clube, um garoto muito diferente de tudo que havíamos visto antes. Foi como um presente, uma chance única, tanto quanto havia risco envolvido. Me disseram no clube: "Escute, Charly, ele tem 13 anos e não sabemos o que pode acontecer no futuro ..." Eles não queriam arriscar com um garoto tão jovem. Mas eu sabia que tínhamos que contratá-lo para impedi-lo de ir a outro lugar e depois se arrepender.

Minguella: O River Plate fez testes com ele por alguns dias, mas decidiu não o contratar no final. Por isso, quando surgiu a oportunidade de viajar para o Barcelona, o pai do jogador não teve muito em que pensar.

Parte do teste foi um jogo com garotos da idade de Messi e um time mais velho. Tudo foi acertado depois que conversamos com Rexach sobre o garoto vir para Barcelona. A melhor coisa que podiam fazer era ficar de olho nele. Charly tinha a confiança do presidente e é uma lenda no Barça, então não havia ninguém melhor do que ele para dar uma olhada em Messi.

Rexach reagiu no momento em que o viu jogar. Depois de alguns minutos, ele disse que Messi precisava ser contratado, que era único. Quimet Rife, ex-jogador do Barça que trabalhavam na base do clube na época, estava assistindo. Messi era diferente dos outros e confirmava o que tínhamos visto nos vídeos que Juan Mateo me mandava da Argentina: ele sempre buscava o gol.

Gaspart: Eu não sabia nada sobre o teste e nem mesmo consultei ninguém depois de falar com Rexach. Eu já disse que foi decisão dele ... Bom, a palavra final tinha que ser minha, como presidente, claro, mas o crédito é todo do Charly.

A contratação de Messi veio alguns meses após a saída de [Luis] Figo, o que foi muito difícil para o clube. Tudo o que aconteceu naquele mês de agosto eu não desejaria a ninguém e como você pode imaginar, naquele momento, Messi não era uma prioridade para o clube.

Eu me lembro que as condições logísticas eram diferentes porque o pai, Jorge, queria que o Leo morasse em um apartamento com ele e não em La Masia com o resto das crianças da base. Como exceção, Rexach me disse que isso poderia ser feito, que não poderíamos nos envolver em questões menores e que tínhamos que seguir adiante.

Compromisso firmado em um guardanapo

Em meados de dezembro, o pai de Messi, Jorge, estava particularmente nervoso. A falta de notícias do Barcelona o fazia acreditar que não estavam dispostos a contratar seu filho. Percebendo que o clube poderia perder um jogador único na vida, Rexach interveio para garantir que Messi não fosse para outro lugar.

Rexach: Jorge achou que [o Barça] estava demorando muito. Eu não estava lá e não sei bem como eram as coisas, mas percebi que o Jorge não tinha certeza de nada quando encontrei com ele. Suponho que ele não confiava [no Barça], então uma noite me encontrei com Minguella e Horacio no clube de tênis Pompeya e, falando com Jorge ao telefone, ele me disse "se isso não for resolvido logo, vou voltar para Buenos Aires. Não vejo nada acontecendo”. Foi quando, pensando na hora, decidi tudo.

Por que um guardanapo? Porque era a única coisa que eu tinha em mãos. Vi que a única maneira de relaxar o Jorge era assinar algo, dar alguma evidência a ele, por isso pedi um guardanapo ao garçom e escrevi: "Em Barcelona, a 14 de dezembro de 2000 e a presença dos Srs. Minguella e Horacio, Carles Rexach, diretor desportivo do FC Barcelona, concorda, sob a sua responsabilidade e independentemente de quaisquer opiniões divergentes, em contratar o jogador Lionel Messi desde que os valores acordados sejam honrados”.

Disse ao Jorge que ali estava a minha assinatura e que havia testemunhas, que com o meu nome eu assumiria a responsabilidade direta. Não havia mais necessidade de esperar: o Leo já era um jogador do Barcelona.

Minguella: Nós nos encontramos no clube de tênis Pompeya. Conversamos um pouco depois de jogar uma partida de tênis. Horácio também estava lá. Chegamos à conclusão de que algo precisava ser feito. Rexach foi genial ao pegar o guardanapo e escrever um contrato ali mesmo.

Em seguida, conversei com Jorge Messi, que estava no Plaza Hotel com o Leo, para confirmar que um dos homens do presidente havia assinado um documento e que o garoto estava aqui para ficar. Eles estavam ficando desesperados com o silêncio do Barça, mas naquele momento tudo foi esclarecido.

Gaggioli: O guardanapo era um documento legalmente válido, de acordo com o que meus advogados me disseram, e mudou a vida de todos. Agora está guardado em um banco em Andorra - é um documento histórico e deve ser protegido. Dito isso, vale mencionar que o Barça enviou uma carta convidando a família a vir a Barcelona. Joan Lacueva enviou uma carta de 10 linhas dizendo que em fevereiro de 2001 toda a família deveria fazer a viagem para a Catalunha.

Gaspart: O guardanapo era uma forma moral de deixar claro para Jorge que não havia nada com que se preocupar. Oficialmente, não serviu de nada, mas foi a etapa antes de assinar o primeiro contrato, que Paco Closa [ex-vice-presidente do Barça] fez.

Estreia e tratamento

O guardanapo foi apenas o começo do fim da saga. Passaria quase mais um mês até que Messi fosse oficialmente contratado como jogador do Barça. Ele não seria capaz de fazer sua estreia competitiva até março devido a burocracias.

Vestindo a camisa 9 no jogo contra o Amposta, ele marcou em sua primeira apresentação oficial pelo clube. Todos logo perceberam o calibre de jogador que tinham nas mãos e não demorou muito para que outros pesos pesados europeus tentassem tirá-lo de lá. Messi, porém, permaneceu leal ao Barça, grato por eles terem concordado em financiar seu tratamento hormonal.

O tratamento de Messi envolveu injetar em suas próprias pernas hormônio de crescimento todas as noites. O custo total do tratamento foi reportado em cerca de 1.000 euros por mês, embora nem o clube nem Messi tenham confirmado os valores envolvidos.

Rexach: Ele não fez sua estreia por um tempo porque era estrangeiro e não podia jogar partidas oficiais até que seu pai fosse registrado no país. Tivemos que pedir a papelada para que ele pudesse jogar, mas depois do guardanapo eu fiquei tranquilo, e o Jorge também.

Minguella: Houve alguns pequenos problemas burocráticos que foram resolvidos em março, mês de sua estreia. Ele era estrangeiro e tinha menos de 18 anos, então precisava de autorização. Apesar de ter treinado com a equipe sub-13 A quando seria mais normal estar com a equipe sub-15 B, ele teve que fazer sua estreia na equipe sub-13.

Gaggioli: O Newell's se recusou a pagar pelo tratamento hormonal, assim como o River Plate. Lacueva pagou a fase inicial do tratamento e depois o Barça se encarregou de tudo. Depois que ele começou a jogar regularmente [pelo Barcelona], todos os grandes clubes europeus vieram atrás dele, como Juventus, Inter de Milão, Liverpool, Real Madrid, e o Arsenal foi o clube que mais chegou perto de contratá-lo. Até jantamos com Arsène Wenger. Foi na época em que Césc Fabregas, amigo próximo de Messi, foi para o Arsenal.

Rexach: O tratamento hormonal? Olha, eu me encarreguei da assinatura - todo o resto foi o clube. Obviamente havia um custo envolvido, mas não era muito alto e não me preocupei com isso. Eu disse 'ele assinou e agora vocês podem cuidar do resto', deixando claro que [o clube] tinha que assumir essa responsabilidade.

Gaspart: Nada de especial aconteceu com o tratamento. Não preste atenção ao que as pessoas podem dizer com más intenções. A contratação foi aprovada com as conotações especiais [relativas ao tratamento] e a partir daí Messi teve um dia-a-dia normal no clube. O que eu suspeito é que por um certo tempo, outro clube quis colocar as mãos nele. Não é necessário dizer quem. [Real Madrid?] Acho que é óbvio, claro.

Não tive a chance de curtir o Messi como presidente. Não tive a sorte de me beneficiar dele, ou de jogadores como Andrés Iniesta, Victor Valdés, Xavi e Carles Puyol, embora alguns já tivessem estreado no time principal, e eu tive um cuidado especial para garantir que Puyol e Xavi continuassem no clube quando eles poderiam ter ido embora. Cuidar dos garotos da base é fundamental para o clube.

Fico satisfeito com o fato de a relação de Jorge e Leo com o Barça sempre ter sido muito próxima. Eles entendem a chance que o clube deu a Leo e sua gratidão é muito evidente.