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Idolatria por Ronaldinho, chute em limões e combate ao racismo: o caminho de Jean Pyerre até ser joia do Grêmio

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Jean Pyerre titular? Renato Gaúcho pede calma: 'Existem coisas que vocês não ficam sabendo' (1:31)

'Se ele não está sendo a primeira opção, ele sabe por quê'; completou o treinador (1:31)

Recuperado da lesão que sofreu ano passado e vivendo ótima fase, Jean Pyerre é uma das armas do Grêmio para enfrentar o Guaraní-PAR, nesta quinta-feira, em jogo válido pelas oitavas de final da Conmebol Libertadores.

O garoto criado na cidade de Alvorada-RS, região metropolitana de Porto Alegre, aprendeu a jogar futebol chutando os limões para o pai fazer caipirinhas nos churrascos de família. Os primeiros passos foram na escolinha do clube RS, que pertencia a Paulo César Carpegiani.

"O Jean se destacava, e o zelador falou para o Carpegiani vê-lo. Eles gostaram e foram falar com meu marido, que é gremista e brincou: 'Você pode até colocá-lo no Inter, mas não vou vestir a camiseta'", disse Luciana Casagrande, mãe do jogador, ao ESPN.com.br.

Aos oito anos, Jean ouviu do pai que iria fazer um exame médico, mas foi surpreendido ao chegar no estádio Olímpico. A fila enorme de garotos era para fazer testes na equipe gaúcha. Aprovado na escolinha, ele foi para a base e nunca mais deixou o time tricolor.

Destaque desde cedo Jean Pyerre foi chamado para as seleções de base e subiu aos profissionais. Em 2017, ao voltar do jogo de estreia pelo Grêmio contra o Fluminense na Arena, ele viveu um dos maiores sustos da vida.

"Teve um temporal em Porto Alegre, deu um curto circuito e a casa dele pegou fogo. Todos pensavam que a mãe estava dormindo, mas na hora ela estava na vizinha. Foi por Deus! No dia seguinte, todos ajudaram a limpar a casa e isso nos marcou muito", contou Douglas Gonçalves, um dos agentes do jogador, ao ESPN.com.br.

Racismo e causas sociais

Jean já manifestou apoio ao movimento antirracista "Vidas Negras Importam" e divulgou um vídeo nas redes sociais contando sobre preconceito sofrido por pessoas negras no Brasil. Quando atuava no grupo de transição do Grêmio, ele foi acusado de roubar um celular em um supermercado próximo à sua residência, em Alvorada. No dia e no horário do crime, o jovem treinava no CT Hélio Dourado.

"Uma tarde, ele me ligou: 'Mãe, o segurança disse que eu estava hoje de manhã e roubei um celular no mercado'. Nós pegamos a comprovação que o Jean estava treinando no Grêmio naquela manhã. Nós chamamos a polícia e não tinha prova alguma. Pedimos para ver as câmeras e eles falaram não que o gerente não estava. Nós dissemos: 'Primeiro, você olha porque precisa ter comprovação do que está falando para depois acusar as pessoas'. Mas, infelizmente é aquela coisa: preto é tudo igual para eles. Deu toda essa confusão, ele ficou muito decepcionado e nunca mais colocou os pés no mercado", contou Luciana.

Jean Pyerre também faz ações sociais para os moradores de Alvorada, que tinha o menor PIB per capita do Rio Grande do Sul em 2016. Em 2020, ele arrecadou cerca de R$ 200 mil para famílias cujas casas haviam sido atingidas por um incêndio. Durante a pandemia de COVID-19, o meia pegou emprestado um ônibus do ex-jogador Tinga (ex-Grêmio e Inter) para distribuiu alimentos na cidade.

Idolatria por Ronaldinho

Fã de Ronaldinho Gaúcho desde a infância, Jean foi convidado pelo ídolo para um jogo beneficente em Jaraguá do Sul.

"Eles conversaram, e o Jean voltou encantado! Disse que tinha realizado um sonho. Esse ano, ele fez uma tatuagem do Ronaldinho [no braço] e mandou a foto para um amigo em comum. Ronaldinho ligou no celular dele agradecendo o carinho e elogiou muito o futebol do Jean. Ele ficou muito emocionado e feliz", contou Luciana.

Nesse ano, o meia ganhou outro presente: passou a ser o camisa 10 do Grêmio, mesmo número que Ronaldinho usou no time tricolor.

Lesões e COVID-19

Os últimos anos não foram fáceis. Além de ficar de setembro do ano passado até o meio de 2020 parado por causa de uma lesão, Jean Pyerre viu o pai ser infectado pela COVID-19 e ficar internado por alguns meses.

"Foi um período muito complicado porque o Jean tem muita identificação com o pai. O Grêmio, o Renato e os jogadores o apoiaram muito nessa época porque ele ficou uns dias sem treinar", relembrou Douglas.

Eduardo, que se recupera em casa das sequelas da COVID-19, reconhece que o período não foi nada fácil para o filho. "Ele foi um guerreiro por ter suportado tudo isso", disse, ainda um pouco ofegante, ao ESPN.com.br.

"A gente procura orientá-lo para não tirar os pés do chão porque o futebol é complicado. Na pandemia ele estava voltando de uma lesão grave e teve acompanhamento profissional para que voltasse o mais rápido possível. Ele tem objetivos e sabe aonde quer chegar", disse Douglas.

Propostas

Depois de voltar da lesão, Jean se firmou como um dos destaques da equipe tricolor. O meia é observado desde a base por times europeus e já teve seu nome especulado em uma troca com o Palmeiras.

"Alguns clubes vieram conversar comigo, mas não tivemos propostas oficias para mim. Tiveram sondagens de Dortmund, Arsenal, Everton, Monaco, Udinese, Milan, Fiorentina e Atalanta. Eles fizeram algumas sondagens para entender qual era a maneira que o Jean poderia sair e as condições. Do Monaco estivemos muito próximo de encaminhar um acordo", contou Douglas.

Além de agenciar o atleta, a empresa Sucess Sports - que tem como um dos sócios Igor Zveibrucker - cuida da parte jurídica e contábil do atleta - incluindo os patrocínios.

"Nós fizemos seis vagens para Europa com intuito para colocar o nome do Jean nos clubes. Queremos que antes de sair do Grêmio para a Europa ele possa ser campeão", afirmou Douglas.

A multa rescisória do contrato para times europeus é de 120 milhões de euros (R$ 760 milhões).