Marco van Basten, 56, acaba de lançar uma autobiografia, intitulada “Basta: Minha Vida, Minha Verdade” (em tradução adaptada), na qual revela os bastidores dos tempos em que defendeu e foi campeão por Ajax e Milan, além da seleção da Holanda. Se o parâmetro for a entrevista que concedeu recentemente ao “The Guardian”, os torcedores podem ficar animados.
O campeão mundial de clubes e duas vezes campeão da Champions League, além de vencedor da Eurocopa, relatou ao jornal como lidou com as dores no tornozelo direito e três operações que, infelizmente, encurtaram sua carreira.
Van Basten conta que durante muitas madrugadas no ano de 1994, quando estava com 30 anos, ele tinha de rastejar da cama até o banheiro. A dor no tornozelo era tamanha que o impedia de pisar o chão.
Para desviar a própria atenção, o artilheiro holandês disse que contava os segundos.
“Sussurrando, eu nunca chegava ao banheiro antes de contar 120. As soleiras das portas eram a parte mais desafiadora porque meu tornozelo tinha de passar por cima delas sem tocá-las. Mesmo o menor toque me fazia morder o lábio para evitar um grito”, disse.
Essa impressionante memória relatada ao jornal inglês é a história que abre a autobiografia. Van Basten percebeu na história uma importante reflexão. Afinal, dois anos antes, ele havia recebido o prêmio de melhor jogador do mundo da Fifa e também a Bola de Ouro da “France Football”, cujo prestígio como premiação individual era até maior. Vivia o auge, mas...
“Foi muito difícil porque passei do nível mais alto do futebol para o nível mais baixo de infelicidade pessoal. Foi uma queda muito grande e uma época muito sombria na minha carreira”, disse o holandês.
O peso da lembrança é mais dolorido quando ele volta cita dois marcos da sua carreira no estádio Olímpico de Munique.
Foi lá que ele sagrou-se campeão da Eurocopa de 1988 pela Holanda. Também foi naquele local que ele fez o último grande jogo internacional, na derrota do Milan para o Olympique de Marselha por 1 a 0, pela final da Champions League, em 1993.
“Eu estava no máximo da minha carreira e as coisas que se seguiram foram boas e bonitas. Mas, de repente, em 1993, joguei minha última partida no mesmo estádio. Tudo caiu. Houve muita dor e problemas. Pode-se dizer que nesses cinco anos fiz toda a minha carreira internacional. Depois de muitos problemas com as operações, eu estava mancando. Eu não conseguia fazer nada sem dor. Eu era muito deficiente e os médicos não puderam me ajudar. Eu estava com um pouco de medo”, revelou Van Basten ao jornal.
O holandês foi persistente, se submeteu a muitas cirurgias no tornozelo direito e prolongou a carreira até 1995, mas os anos foram marcados por muita dor e sofrimento, além do medo de estar com câncer nos ossos.
“Foi de mal a pior. Depois de muitas operações e de consultar médicos de todo o mundo, tentei de tudo, mas não conseguíamos encontrar a solução. Houve um momento em 1996 que eu tive que dizer: ‘Tenho que tentar ficar saudável’. Tomamos a decisão de fundir meu tornozelo. Para um esportista, e eu tinha apenas 32 anos, é a pior escolha. Mas eu tive que parar a dor”.
A aposentadoria já tinha vindo. Foi em 17 de agosto de 1995, quando concedeu uma entrevista emocionante na Itália, dizendo adeus. Um momento bastante fiel a carreira vitoriosa, construída com muitos sacrifícios e "acordos".
Acordo com Cruyff
Foi em 1987 que Van Basten deu o passo que mudaria totalmente os anos seguintes de sua carreira. Na época, ele defendia o Ajax, do técnico Johan Cruyff, e já era um grande goleador na Europa.
Ele sofreu uma lesão “chata” nos ligamentos do tornozelo direito e não conseguir entrar em campo. Mas o técnico, e ídolo pessoal do atacante, pediu um favor, o encorajando a se esforçar para, pelo menos, estar em campo nos jogos da Recopa da Europa.
“Eu me machuquei pela primeira vez em dezembro de 1986 e não obtive melhora. Johan teve uma discussão com o médico, que disse: ‘Ele tem um problema, mas não vai ficar pior. Ele pode jogar’. Tive a sensação de que isso não era bom. Estava com muita dor. Mas Johan disse: ‘Escute, nós fazemos um acordo. Você não precisar jogar outras competições e pode pular alguns treinos, mas você tem que jogar a Recopa. Não importa o que aconteça, você tem que jogar até final”, disse Van Basten ao "The Guardian".
Assim, após se lesionar, ele participou das partidas contra o Malmö, da Suécia, pelas quartas de final, e contra o Zaragoza, da Espanha, pela semifinal. Além, é claro, da final contra o Lokomotive Leipizg, da Alemanha, derrotado por 1 a 0, gol dele.
“No começo os médicos não me davam bons conselhos. Continuei jogando e o dano piorou. Na temporada seguinte, fui para o Milan com o Gullit. Atuei nas primeiras partidas, entre agosto e setembro, depois fui a outro médico em Barcelona e decidimos fazer uma operação. Era tarde demais, porque o estrago estava feito”, relembrou o holandês.
Com muito sacrifício, Van Basten conseguiu estar em campo para jogar a Eurocopa de 1988.
Inclusive, fez um dos dois gols na final contra a União Soviética e terminou como artilheiro, com cinco tentos. Mas os anos seguintes, apesar de muitas taças, levariam ele a encurtar a carreira. Era o preço a pagar.
Hoje, aos 56 anos, Van Basten trabalha como comentarista em um canal de TV na Holanda e não demonstra ter mágoas pelo acordo com Cruyff. O único lamento é ter se distanciado do ídolo por dessentimentos profissionais após encerrar a carreira.
Eles não tiveram tempo de se acertar. O mentor dele morreu em 2016. Mas no livro ele promete contar como se reaproximou da família da velho mestre, tentando recuperar anos de amizade perdidos entre os dois lados.
