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Diego Maradona morre na Argentina aos 60 anos

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Morreu nesta quarta-feira, aos 60 anos, a maior personalidade do esporte da Argentina e um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos: Diego Armando Maradona Franco.

O craque não resistiu a uma parada cardiorrespiratória sofrida na casa da filha dele, no bairro Vila Nova, zona metropolitana de Buenos Aires, neste 25 de novembro. Várias ambulâncias foram ao local para tentar reanimá-lo, mas não foi possível.

Ele foi internado no começo deste mês após passar mal durante um jogo do Gimnasia. Na chegada ao hospital, Diego precisou passar por uma cirurgia de emergência para aliviar uma pressão intracraniana e permaneceu lá até receber alta em 11 de novembro.

O ex-jogador deixa órfãos oito filhos, além de um país inteiro e uma legião de fãs espalhados por todo o planeta, apaixonados pelo gênio controverso de um dos esportistas mais talentosos e autodestrutivos a competir em alto nível na História.

Dalma, 33, e Giannina, 31, são frutos de seu casamento com Claudia Villafañe, com quem ele viveu uma relação intermitente entre 1989 e 2003.

Na Itália, vivem Diego Júnior, 34, filho de Cristina Sinagra, concebido na época em que ele jogou pelo Napoli, e Jana Maradona, 24, de Valeria Sabalain.

Recentemente, ele teve Diego Fernando, atualmente com 7 anos, com Verónica Ojeda. Segundo a Justiça Cubana, Maradona tem ainda outros três filhos na ilha centro-americana, que ele morreu sem reconhecer.

Ídolo dos argentinos, dos torcedores de Boca Juniors e Napoli e de amantes de futebol em geral, Maradona despertou adoração a ponto de ter uma igreja fundada em seu nome em seu país.

A Igreja Maradoniana La Mano de Dios, em Rosário, tem entre seus mandamentos "declarar amor incondicional a Diego e ao futebol".

D10s (Deus, em Espanhol, grafado com numerais que formam um 10), aliás, era um de seus muitos apelidos.

Seu talento exuberante fez surgir por todo mundo gerações de garotos batizados como Diego em sua homenagem, que hoje têm entre 30 e 40 anos.

Maradona liderou a Argentina na conquista da Copa do Mundo de 1986, no México, sobre a Alemanha Ocidental. Disputou também as Copas de 1982, na Espanha; 1990, na Itália; e 1994, nos EUA, onde foi flagrado no antidoping pelo uso de efedrina, um estimulante.

O Diez sempre negou que estivesse dopado nos EUA e acusou o brasileiro João Havelange, então presidente da Fifa, de ter liderado um complô para impedir que a Argentina conquistasse o Mundial disputado na América do Norte, eliminando-o da disputa.

Maradona levou o Napoli à conquista de seus únicos dois títulos italianos (1986-87 e 1989-90) e à Copa da Uefa (1988-89). Conquistou também copas nacionais com o Barcelona e um Campeonato Metropolitano com o Boca Juniors (1981), sua grande paixão.

Como técnico, classificou a Argentina à Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, avançando até as quartas de final do torneio posteriormente.

Teve programas de rádio televisão, foi amigo de governantes de esquerda, como Fidel Castro e Hugo Chávez, e militou politicamente contra a influência dos Estados Unidos na América Latina. Trazia uma tatuagem com o rosto do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara no peito.

Ao longo de sua vida, lutou contra vícios, em especial a cocaína, que lhe causou suspensões esportivas, e o álcool, que lhe abreviou os anos de vida. Também enfrentou problemas cardíacos e obesidade, decorrentes de sua vida desregrada e boêmia.

Teve problemas com o fisco na Itália e na Argentina, atirou com armas de pressão contra jornalistas e protagonizou diversas situações controversas e condenáveis.

Tais como “batizar” com sonífero a água que ofereceu aos atletas do Brasil durante o confronto pelas oitavas de final da Copa de 1990.

Ou murmurar “hijos de puta” durante a execução do hino italiano na semifinal do mesmo Mundial, ao enfrentar a Azzurra.

Mas nada parecia abalar a adoração pública pelo ídolo. Talvez, até ao contrário, tenha feito dele uma figura ainda mais amável.

Falível, embora dotado de um dom extraordinário, Diego “de la gente” chorava e sofria como todos. Mas era capaz de germinar sorrisos e trazer alegrias como quase ninguém.

Ao mesmo tempo, era um homem “de família”, completamente apaixonado por sua mãe, Dalma Franco, a quem chamava de La Tota, e Diego Maradona, seu pai, que lhe deram sete irmãos.

A canção La mano de Dios, do cantor argentino "Potro" Rodrigo, de 2000, tornou-se uma espécie de hino extraoficial do craque. Um de seus versos diz que Maradona imaginava que, jogando, talvez pudesse ajudar a sua família.

Com seu futebol, como diz outra estrofe da letra, Maradona conseguiu não apenas isso, mas também logrou "semear a alegria em seu povo e regar o solo de seu país de glórias."

"Olé, olé, olé, olé, Diego!", canta seu refrão.

Para sempre.

”De que planeta viniste?”

A célebre frase do narrador uruguaio Victor Hugo Morales, que indaga qual o planeta de origem de Maradona, ao narrar o “gol do século”, ilustra o tipo de admiração que Don Diego despertava naqueles que o assistiam.

Naquele dia, na partida Argentina x Inglaterra, no Mundial de 1986, em 22 de junho, Maradona driblou quase um time inteiro, com uma arrancada ainda de seu campo defensivo, para anotar 2 a 0 e fazer aquele que é considerado o gol mais bonito da história das Copas do Mundo.

Os 90 minutos mais acréscimos daquele jogo são quase um resumo da personalidade de Maradona.

Porque ali estavam encarnadas a paixão, a liderança, a entrega e o talento que sempre o acompanharam. Mas foi nesse dia também que ele anotou o não menos famoso gol “La Mano de Dios” (A mão de Deus), o primeiro no jogo, mostrando um Maradona malandro e ardiloso, a outra faceta indissociável de sua persona.

Neste lance, ele sobe para disputar a bola com o goleiro Peter Shilton, mas não a alcança com a cabeça. Maradó, então, não titubeia em usar a mão esquerda para enganar a arbitragem, fazer o gol e sair comemorando como se nada fosse, decretando a vitória de sua seleção.

Hoje, para o bem e para o mal, o VAR anularia o tento.

Maradona tinha o mesmo talento para as coisas belas que tinha para as controversas.

Cebollita

Nascido em Lanús, região metropolitana de Buenos Aires, mais precisamente na favela de Villa Fiorito, Diego começou a jogar futebol nas várzeas da região, antes de despontar no Argentino Juniors com apenas 9 anos, na equipe conhecida como “Los Cebollitas”.

Ao ir à favela observá-lo, os olheiros do clube não acreditavam que ele tinha mesmo a idade que afirmava ter e a foram checar com sua mãe.

Aos 15, seu talento já atraía multidões às preliminares do Argentinos Juniors, e não houve como não promovê-lo ao time principal.

Em 1978, aos 17, Diego já era celebridade esportiva, e seu corte da seleção argentina que disputaria a Copa em casa naquele ano, sob comando de Cesar Luis Menotti, foi amplamente contestado.

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Menotti, ainda em 1978, voltaria a convocar Diego para uma seleção nacional - mas a de juniores. Diego foi para o Mundial do Japão, em 1979, e foi eleito o melhor jogador do torneio que a Argentina conquistou sobre a União Soviética.

Mas antes, ainda em 1978, ele foi artilheiro do Campeonato Argentino. No ano seguinte, liderou a tábua do Nacional e do Metropolitano, disputado pelos clubes da grande Buenos Aires, feito que tornaria a realizar em 1980, quando entrou de vez na mira do Boca Juniors, clube para o qual torcia.

O Argentino Juniors topou emprestar Diego para o Boca, que não era campeão argentino há quatro anos, embora tivesse sobre a mesa uma proposta muito mais vantajosa do River Plate. E foi como jogador do Boca que Maradona conquistou o Metropolitano de 1981 e jogou a Copa de 1982, sua primeira.

A Argentina fracassou, e Maradona foi inclusive expulso na partida contra o Brasil, após uma pegada dura no meia Batista. Naquela Copa, porém, ele encantou os dirigentes do Barcelona, que decidiram contratá-lo.

Dependência química e glórias

Na Catalunha, Diego conquistou a Copa do Rei, a Copa da Liga e a Supercopa da Espanha.

Mas foi também em Barcelona que ele passou a consumir cocaína, após sofrer uma fratura da perna esquerda contra o Athletic Bilbao, conforme confessou em sua autobiografia La mano de Dios.

“De molho”, deprimido, e cercado por amigos que mandou importar da Argentina, chamados pejorativamente de “sudacas” pela imprensa catalã, Maradona começou a se viciar.

Em 1984, Diego se transferiu para o Napoli, onde foi ídolo máximo. Antes de levar o clube às inéditas conquistas do Campeonato Italiano (1986-87 e 1989-90), da Copa da Uefa (1988-89), da Copa Itália (1987) e da Supercopa da Itália (1990), Maradona brilhantemente levou a Argentina à conquista da Copa do Mundo de 1986, no México.

Diego foi genial no Mundial, deixando o mundo inteiro embasbacado com seu talento e liderança. A conquista, ficou marcado pelos dois gols contra a Inglaterra.

Em entrevistas, mais de uma vez Diego disse ter encarado o confronto com os ingleses, pelas quartas-de final, como uma vingança pela derrota de sua pátria na Guerra das Malvinas.

Em 1990, Maradona, já se desligando do Napoli, liderou a Argentina em mais uma Copa do Mundo. Brilhante novamente, levou a Argentina à final, deixando o Brasil de Sebastião Lazzaroni e Dunga sentado pelo caminho.

Foi dele a assistência para o gol de Caniggia sobre Taffarel que mandou os canarinhos de volta para casa, no lance que ficou eternizado no hit da torcida albiceleste na Copa de 2014:

“Brasil, decime que se siente/ Tener en casa tu papá/ Te juro que aunque pasen los anos/ Nunca nos vamos a olvidar/ Que Diego les gambeteó/ Que Cani les vacunó/ y que están llorando en Italia hasta hoy:/ A Messi lo vas a ver, la Copa nos va a traer/ Maradona és más grande que Pelé”

Mas tanto em 90 como na copa disputada no Brasil, os hermanos ficaram com o vice diante da Alemanha.

Em 1991, Maradona foi pego no exame antidoping por uso de cocaína pela federação Italiana. Anos mais tarde, dirigentes do Napoli e o próprio jogador confessariam que Diego jogou várias partidas no clube italiano sob efeito da droga, e que seus exames antidoping eram feitos com urina de terceiros - inclusive do presidente do clube, Conrado Ferlaino.

Diego foi suspenso por 15 meses. De volta a Buenos Aires, foi detido por porte de drogas e condenado a passar por reabilitação. Ao término de sua sanção, Maradona se transferiu para o Sevilla, na Espanha, de onde saiu sem deixar muita saudade.

Foi nessa época que o Palmeiras, turbinado pela Parmalat, estudou contratá-lo.

Foi depois para o Newell’s Old Boys e, como jogador do clube, disputou sua última Copa do Mundo, em 1994, nos EUA. Contra a Grécia, na vitória por 4 a 0, fez seu último gol, em um poderoso chute de fora da área que comemorou furioso olhando para o fundo de uma câmera de televisão que correu o mundo.

No jogo seguinte, contra a Nigéria, Maradona foi sorteado para o antidoping, que detectou a presença do estimulantes efedrina e metabólicos em sua urina. Maradona foi novamente suspenso por 15 meses. Acabava assim, como jogador, a relação de Diego com a Copa do Mundo.

Retorno à Argentina

Maradona não podia jogar, mas podia ser treinador. E começou assim, sem aposentar a chuteira, a carreira de técnico, primeiro no pequeno Deportivo Mandyu e depois no Racing, sem muito sucesso.

Ao término da sanção como atleta, Diego chegou a ser sondado pelo Santos, mas enfim retornou ao Boca Juniors, seu sonho, em 1995. Não obteve muito êxito esportivo, embora os torcedores tenham ficado alucinados com sua presença na equipe.

Ele voltou a testar positivo para cocaína em 1996, mas conseguiu provar que poderia ter sido vítima de sabotagem, já que vinha recebendo telefonemas dando conta de que o incriminariam. Mas àquela altura, Diego já não era o mesmo em campo.

E em 30 de outubro de 1997, seu aniversário de 37 anos, Maradona anunciou a aposentadoria como jogador.

Profe Maradona

Diego teve novas internações em clínicas de reabilitação e chegou a se mudar para Cuba em 2000, para realizar um tratamento para se livrar do vício, que na verdade nunca conseguiu abandonar como um todo.

Muitas vezes, ele apenas trocava uma droga por outra.

Como técnico, Diego teve um começo de carreira errante. No campo pessoal, ele começou a sofrer de obesidade em níveis mórbidos e teve de ser submetido a cirurgia, além de se separar de sua esposa Claudia Villafañe, mãe de sua filhas Dalma e Giannina, em 2003.

Foi nessa época também que se aproximou de Fidel Castro, Hugo Chávez e outros líderes de esquerda.

Maradona estrelou programas de TV, fez campanhas políticas, e chegou a ser dirigente no Boca Juniors.

Em 2008, um ano depois de se internar voluntariamente para tratar do alcoolismo, Maradona assume como técnico da seleção argentina e classifica o time para a Copa da África do Sul, de 2010, da qual foi eliminado nas quartas de final, com uma sonora goleada de 4 a 0 frente à Alemanha.

Teve depois diversos trabalhos de menor expressão, tão variados quanto inusitados.

Comandou o Al Wasl (2011) e o Al Fujairah, dos Emirados Árabes. Foi nomeado presidente de honra do Dinamo Brest, de Belarus, em 2018. Treinou o Dorados de Sinaloa, do México, entre 2018 e 2019. E estava no Gimnasia y Esgrima, de seu país, desde setembro de 2019.

No último jogo em que assinou uma súmula como treinador, o seu Gimnasia venceu o Patronato por 3 a 0.