O que mais me surpreendeu foi a simplicidade e a cordialidade com que ele e seus auxiliares me receberam”, disse Guto Ferreira, técnico do Ceará.
“Ele estava em um momento tenso do calendário e, mesmo assim, foi muito atencioso comigo”, acrescentou Thiago Larghi, ex-Atlético-MG e Goiás.
O ESPN.com.br conversou com os dois técnicos brasileiros que estagiaram no Braga, de Portugal, e foram citados pelo técnico Abel Ferreira depois do acerto dele com o Palmeiras.
Guto, inclusive, que fala por aplicativo com Abel com certa frequência, trocou mensagens com ele após o acerto com o clube alviverde, parabenizando-o.
O técnico do Ceará teve dez dias de trabalho com o treinador, que abriu a ele sua sala, seus planos táticos e metodologias de trabalho em 2018.
“Não é todo técnico que faz isso, não”, disse.
“Desde o primeiro instante, ele me falou do Brasil, que vinha de férias para cá, para o Nordeste ou São Paulo, não sei ao certo. Não sei se ele tem familiar brasileiro, mas sei que ele gosta de vir ao Brasil, e certamente isso o motivou para trabalhar no Palmeiras”, disse.
“Ele acompanhava o futebol brasileiro também. Não sei em que nível exatamente ele estava acompanhando atualmente, mas em 2018, ele sabia o que estava acontecendo por aqui”, conta Guto.
Eles também falaram sobre jogadores.
“A maioria dos jogadores de que conversamos foram os que podiam chegar ao Braga. Tinha muito brasileiro titular no time dele, uns seis, fora os reservas”, diz.
“Ele é um cara muito simples. Almoçamos juntos no refeitório do clube. E ele gosta de uma cachacinha”, contou Guto, que levou uma garrafa da aguardente tipicamente brasileira de presente para o português.
“Eu sou de Piracicaba, terra da cachaça. Tinha que levar, né?”, disse o técnico.
Estilo agressivo e impositivo
Guto Ferreira define o estilo de futebol de Abel como agressivo e impositivo.
“O time dele tem o controle do jogo na defesa e no ataque, similar ao que o Tite fazia no Corinthians”, explicou. “Ele gosta de propôr o jogo e ter a posse de bola, mas com objetividade”, diz.
“Ele gosta muito de trocar informações, é um técnico jovem, curioso”, disse Thiago Larghi, que ficou 15 dias no clube, como parte do processo para obtenção de sua Licença PRO da CBF de treinador.
A curiosidade também foi algo notado por Guto. E como se já soubesse que um dia iria trabalhar no Brasil, Abel Ferreira logo quis saber do calendário do nosso futebol.
“Foi uma das perguntas que ele fez logo de cara. Ele me perguntou como era a nossa semana de trabalho. ‘Que semana?’, respondi a ele”, conta Guto, entre risos.
“Daí expliquei a ele sobre como eram as viagens, os tempos de deslocamento”, disse. “Na Europa, é normal que eles tenham duas semanas cheias (sem jogos) por mês. Aqui, quando temos uma, é muito”, exemplificou Guto.
Tanto Guto quanto Larghi imaginam que adequar-se ao calendário será mesmo o maior desafio de Abel por aqui.
“É um cara que tem tudo para se dar bem, mas joga contra o relógio”, diz Guto. “Nossa temporada tem mais de 80 jogos. Na Europa, são de 50 a 60”, diz.
Treino intenso e focado
Os brasileiros também comentaram os treinamentos de Abel.
“Os treinos dele eram curtos e muito intensos. Ele preparava o time para jogar de forma ofensiva na maioria das partidas do Português, mas nos jogos contra os maiores clubes do país ele também se defendia”, conta Larghi.
“O preparador físico dele era uma espécie de auxiliar de campo e já fazia atividades voltadas para isso. Eles não perdiam tempo, era tudo bastante integrado, na comissão técnica dele”, contou.
“Os exercícios são muito táticos e direcionados para os movimentos que a equipe vai ter que fazer nos jogos. Ele ataca os principais pontos do adversário, tanto ofensivos quanto defensivos”, acrescentou Guto.
“Achei ele bastante detalhista, algo que é próprio da metodologia da escola deles, parecido com o Mourinho, por exemplo”, diz.
Outra observação de Guto foi quanto à não divisão de titulares e reservas nos treinos em que há agrupamento em equipes.
“Ele costuma fazer trabalho de grupo de jogo, mas não define os titulares. Ele mistura cinco titulares e cinco reservas, por exemplo. Ele já tem a equipe definida, mas ele treina todos. E me explicou que entende que assim mantém mais o foco dos jogadores”, acrescentou o técnico do Ceará.
“Ele faz uma hora um time de sparring e depois inverte. Todo mundo tem que saber a função de todos os jogadores, até para que eles se cobrem no campo”, explicou.
