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Celtic x Rangers: Mo Johnston, o 'traidor' escocês que derrubou tabu religioso e mudou a história

Celtic x Rangers é um dos maiores clássicos do mundo. É tensão em nível máximo, e uma das histórias mais impactantes envolvendo futebol e religião tem a ver com os rivais escoceses.

"Ninguém poderia imaginar que isso ia acontecer. As pessoas ainda se lembram onde estavam quando ouviram pela primeira vez sobre isso. Foi algo forte demais, inacreditável."

Foi assim que o correspondente do The Times para o futebol escocês, Michael Grant, descreveu em entrevista ao ESPN.com.br em 2015 o impacto do ocorrido naquele 10 de julho de 1989.

Pudera! Naquele dia, Maurice John Giblin "Mo" Johnston, então com 26 anos, não só 'traiu' o Celtic como tornou-se o primeiro jogador católico a ser contratado pelo protestante Rangers desde a Primeira Guerra Mundial.

Revolta, raiva, ódio.

Foram esses sentimentos que tomaram conta dos torcedores do time verde e branco de Glasgow e também de muitos do rival azul e branco. Ninguém entendia o que acabara de acontecer.

A ESPN e o ESPN App transmitem o clássico Old Firm Celtic x Rangers pelo Campeonato Escocês neste sábado (17/10), AO VIVO, a partir das 8h20 (horário de Brasília).

Mo Johnston começava, ali, a acabar com o sectarismo do Rangers, que seguia uma regra não escrita de não contar com católicos em seu grupo.

Começava, também, a ter de pagar por tamanha ousadia.

Afinal, o atacante, formado em 1981 no modesto Partick Thistle F.C., também de Glasgow e do qual foi para o Watford, da Inglaterra, em 1983, tinha defendido o Celtic por quase três anos, entre 1984 e 1987. E com brilho e status de craque.


Um ex-Celtic no Rangers

No Celtic, único clube escocês a ganhar o que hoje é a Champions League, em 1996/1967, batendo a Inter de Milão-ITA na final, Johnston ganhou a Copa da Escócia de 1984/1985 e o Escocês de 1985/1986. Em 1987, foi vendido para o Nantes, da França, por 373 mil libras.

Mas após chegar a dizer que não voltaria à Escócia para jogar, repensou e passou a negociar com o clube no qual ganhou projeção.

No entanto, algo deu errado - os relatos falam em discordância de valores - na operação que envolveria 1,2 milhão de libras, e o Rangers entrou na briga.

O valor de 1,5 milhão de libras foi acertado, e uma coletiva de imprensa foi chamada para aquele 10 de julho para se anunciar a contratação mais cara da história do futebol escocês até ali.

Foram quatro os arquitetos da empreitada: o próprio Mo Johnston, o técnico Graeme Souness, o então dono do Rangers, David Murray, e o agente do atacante, Bill McMurdo. Também escocês, o treinador, que era meia, chegara ao clube em 1986 e até 1989 também jogava, logo, ocupava duas funções.


A recepção

"Judas", "traidor"... Foi assim que torcedores do Celtic passaram a tratar Mo Johnston, que passou a sofrer uma espécie de perseguição religiosa. Tanto que, temendo por sua segurança e integridade física, decidiu morar não em Glasgow, mas em Edimburgo.

"Johnston até tinha guarda-costas para se manter seguro, mas ele não se envolveu ou teve nenhum incidente grave enquanto esteve no Rangers", explicou Michael Grant.

Parte da própria torcida azul e branca manifestou-se contrária à contratação. Como assim ter um católico no nosso grupo protestante? Naquele 10 de julho, cerca de 30 torcedores ligaram para o clube solicitando o cancelamento e a devolução do dinheiro já pago por ingressos para a temporada. Houve temor de que isso aumentasse.

Do lado de fora do Ibrox Stadium, casa do Rangers, alguns torcedores protestaram queimando lenços brancos.


A redenção

Mo Johnston tinha que ganhar a totalidade da torcida em campo. E por que não contra o Celtic? Em 4 de novembro de 1989, quase quatro meses após sua conturbada chegada, o atacante, camisa 10, fez simplesmente o gol da vitória do Rangers no Old Firm, como é chamado o maior clássico escocês.

Quem ainda lhe torcia o nariz se rendeu.

A contratação do goleador católico que passara pelo arquirrival Celtic e era sempre presença certa na seleção nacional desde 1984 teria sido uma jogada de marketing?

"Quando Souness tornou-se técnico, em 1986, logo, três anos antes da chegada de Johnston ao Rangers, ele foi questionado se contrataria um católico e se estava autorizado pelo clube a fazê-lo. Ele respondeu que sua esposa era católica e que seria impensável haver qualquer veto à contratação de um jogador católico", detalhou o correspondente Grant.

O jornalista do The Times seguiu: "Souness quis ele por seus gols e qualidade em campo, ele não quis contratar um jogador católico só por marketing. Johnston era o melhor atacante da Escócia naquele momento... Agora, claro, ele sabia que era um grande passo no sentido de o Rangers se modernizar."

Mo Johnston ganhou no time azul e branco uma taça a mais que no Celtic: dois Escoceses, os de 1989/1990 e 1990/1991, e uma Copa da Liga Escocesa, a de 1990. Ainda assim, o clima era hostil demais para ele.

Em 18 de novembro de 1991, quase dois anos e quatro meses depois daquele 10 de julho de 1989, o católico deixou o time protestante e rumou para o Everton, da Inglaterra.

Queria paz. E já tinha feito história.

Depois dele, já foram vários outros católicos que vestiram a camisa do Rangers, com Lorenzo Amoruso, em 1999, tendo sido o primeiro a ganhar a faixa de capitão do time.


Jogo de Copa contra o Brasil e o que veio depois

Mo Johnston não só disputou a Copa do Mundo de 1990 com a Escócia como enfrentou a seleção brasileira. No dia 20 de junho daquele ano, ele foi um dos que esteve em campo no Estádio Delle Alpi, em Turim, na Itália, na vitória do time verde e amarelo por 1 a 0, gol de Muller, aos 37 minutos do segundo tempo, em duelo válido pela terceira rodada do grupo C.

O atacante atuou pelo Everton entre 1991 e 1993. Depois, voltou novamente à Escócia, mas desta vez para os modestos Hearts, entre 1993 e 1994, e Falkirk, entre 1994 e 1996. Aí, rumou para os Estados Unidos para jogar no Kansas City Wizards, o qual defendeu até 2001, quando se aposentou.

Ainda virou técnico de New York Red Bulls, entre 2005 e 2006, e Toronto FC, entre 2006 e 2008.

Mesmo quando os trabalhos cessaram, decidiu não voltar ao seu país e segue morando nos Estados Unidos. Tanto faz: na Escócia, ele é o protagonista de uma das duas principais histórias do futebol local.

"Mo Johnston assinando com o Rangers foi a maior história do futebol escocês por décadas. Não houve uma maior até o Rangers falir e ser liquidado em 2012", sentenciou Michael Grant.


População e religião na Escócia

A Escócia tem cerca de 5,4 milhões de habitantes, segundo estimativas de 2019 do Arquivo Nacional escocês (último dado nacional disponível).

De acordo com o Censo de 2011 - a última ampla pesquisa feita no país -, 1,7 milhão de pessoas declarou seguir os ensinamentos da Church of Scotland (Igreja da Escócia, em tradução livre), classificada como protestante.

É pouco mais que o dobro de cidadãos que declararam ser católicos romanos, que representavam, na época, cerca de 840 mil pessoas.


*Esta reportagem foi publicada originalmente em 12 de maio de 2015, sob o título 'Traidor' escocês derrubou tabu religioso e mudou a história', e fez parte da seção especial 'Lado B da Bola'. O conteúdo acima foi levemente editado em formato e conteúdo.