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Alemão que também 'cansou' do Barcelona analisa caso Messi: 'Percebeu que o clube não tem solução'

Bernd Schuster é talvez o único homem na Terra capaz de compreender o que Lionel Messi está sentindo ao tentar deixar o Barcelona, sua única casa no futebol, para trás. Esse alemão, natural de Ausburg, viveu uma história semelhante nos anos 80, embora mais curta e muito mais polêmica.

Schuster deixou a equipe catalã após oito temporadas e quatro títulos para defender o arquirrival Real Madrid, uma troca que fez muitos ídolos serem retirados do Monte Olimpo blaugrana. Anos depois ainda foi para o Atlético de Madrid.

Para entender melhor essa história vale dar um pouco mais de contexto.

Schuster foi considerado um dos grandes craques da década de 80, embora não tenha ido a Copa do Mundo de 1982 por causa de uma fratura no joelho causada por Andoni Goikoetxea, do Athletic Bilbao, o mesmo que causaria danos em Diego Maradona um ano depois (não foi por acaso que ele ficou conhecido como o “açougueiro de Bilbao”). Também não foi aos Mundiais de 1986 e 1990 porque havia desistido de defender a Alemanha Ocidental por desentendimentos com companheiros.

Meia habilidoso, ele deixou o Colônia aos 19 anos para defender o Barcelona. Era uma época de vacas magras. Ainda assim, ele ajudou a quebrar um jejum de dez anos sem o título do Campeonato Espanhol, conquistou duas taças da Copa do Rei e uma da Recopa da Europa.

Mas a trajetória foi quase sempre de conflito com a direção e com o presidente Josep Lluis Núñez, o qual participou da campanha a favor da eleição dele. Promessas de melhorias contratuais não cumpridas e uma perseguição interna e na mídia após o vice na Copa dos Campeões de 1985/86 o irritaram.

Schuster nem sequer participou da decisão por pênaltis contra o Steaua Bucareste, da Romênia, em Sevilha, porque havia sido substituído. Ainda assim foi um dos mais cobrados.

A história registra que depois de ser substituído, ele deixou o estádio, pegou um táxi até o hotel, onde viu seu time perder a final. Aguentou mais duas temporadas e, cansado de promessas não cumpridas e cobranças descabidas, trocou o Barça pelo Real Madrid.

Treinador profissional desde 1997, tendo inclusive trabalhando no Real em 1997/98, ele deu uma longa entrevista para o jornal espanhol “El Pais” e opinou sobre o caso Messi.

“É mais um episódio do que já vivemos nos grandes clubes. Muitas vezes parece que as grandes estrelas têm que passar pela porta dos fundos. Já aconteceu com muitos jogadores, não só no Barcelona. O caso de Messi é mais curioso porque ele é um jogador da casa. Mais do que o que ele fez não pode ser feito. Crescendo lá, se profissionalizando, tendo sucesso, sendo o melhor jogador do mundo por muitos anos, ganhando tudo. O grande problema é sempre como isso termina. Como você mudar de ares e terminar a carreira em outro lugar”, disse o alemão.

“Eu o entendo totalmente. A ideia do Messi não era deixar o Barça, mas com o tempo você vai percebendo que o futebol é assim, ele não perdoa. Futebol é resultado, continue ganhando e, às vezes, futebol não é justo e aí você decide ir para outro lugar. Há algum tempo eu disse publicamente que Messi merecia que o clube lhe desse uma equipe competitiva por mais dois ou três anos. Ele ainda tem dois ou três anos. [...] Ele já viu no ano passado que isso não iria mudar, que não poderia ser consertado. Ele não iria melhorar e, portanto, tinha que tomar essa decisão. A goleada do Bayern foi o ponto final dele no Barcelona”, respondeu em seguida.

“Antes da pandemia, era claro que esse Barça não poderia ganhar de ninguém e menos um título como a Champions League. Ele não tinha força para isso. Depois da pandemia nada melhorou. Messi disse isso. Você pode ver que não mudou. E neste caso não culparia o treinador. É a equipe que completou um ciclo e deve ser renovada. O jogador sente quando algo está terminado, quando por dentro não é mais o mesmo de alguns anos atrás. Leo decidiu não continuar e terminar sua carreira em outro lugar. Ponto. É o momento para isso”, acrescentou.

Messi comunicou o Barcelona no último 25 de agosto de que não deseja continuar na equipe e desde então tenta uma rescisão amigável e sem custos. O presidente do Barça, Josep Maria Bartomeu, não admite perder assim o maior ídolo do clube e tem jogado duro.

Uma reunião nesta terça-feira (2) pode definir um acordo para a saída do craque. O Manchester City, o Paris-Saint-Germain e a Inter de Milão aparecem como clubes interessados.