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PSG x Bayern: como Neymar construiu carreira fora de campo até mais uma final de Champions League

Eduardo Musa conhece Neymar como poucos. O assessor trabalhou com o astro entre 2010 e 2015, primeiro no Santos, depois exclusivamente com o jogador.

Cinco anos de relação que acabariam interrompidos depois de desacordos comerciais com o pai do atleta - que acabaram na Justiça.

O atual presidente da Confederação Brasileira de Skate é nome importante para entender como Neymar saiu de um badalado adolescente, projeto de estrela mundial, até o líder de um projeto bilionário no PSG, que neste domingo decide a Champions League contra o Bayern de Munique.

Frase que mudou os planos

Em 2010, o Santos começou a trabalhar o marketing em cima dos jogadores, e Neymar era a principal joia da coroa. Grande sensação do país, ele venceu o Paulistão e a Copa do Brasil. Foi traçado um plano de carreira que incluiu aparições em programas de televisão e comerciais.

“O Neymar não foi para o Chelsea por conta do projeto que o Santos apresentou para ele”, disse Musa.

Tudo mudou no dia 15 de setembro de 2010. Neymar discutiu em uma partida contra o Atlético-GO com o técnico Dorival Jr. e com o auxiliar Ivan Izzo. O treinador adversário, Renê Simões, criticou o jovem: “Estamos criando um monstro”.

“A gente meio que teve que rasgar todo planejamento e começar do zero. Naquele momento, a frase maldosa do Renê Simões grudou demais. Primeiro, a gente deu uma blindada nele e depois fomos prepará-lo um pouco mais. O Neymar sempre foi um cara extremamente carismático, sempre com sorriso no rosto. Tinha que entender o patamar que estava naquele momento. Em poucos meses ele saiu de uma promessa para o principal jogador do Brasil. Ele foi chamado para a seleção pelo Mano e se destacou”.

“A gente começou o trabalho de media training e uma conversa mais próxima diária com a família. O departamento ministrava os treinamentos e contratamos uma empresa que fez duas sessões com o Neymar. A gente fazia o dia-a-dia e teve alguns trabalhos com uma empresa especializada”.

A volta por cima

“Nós tínhamos uma proposta da Gatorade, mas fizemos um contrato com a Red Bull porque entendemos que poderia dar uma imagem diferente para o Neymar. O foco da empresa são os esportes de ação e quase nunca em jogadores”, relembra o ex-assessor.

Dentro dos campos, a volta por cima veio no Sul-Americano sub-20 de 2011. O torneio no Peru valia vaga na Olimpíada de Londres.

“Ele foi muito bem mesmo. Foi uma espécie de redenção e uma forma de entender o mercado profissional. Não era muito necessário dizer o que o Neymar tinha que dizer ou fazer. Nosso trabalho era mais conversar sobre as consequências e a relação com a imprensa”.

Primeiro craque das redes sociais

Neymar foi o primeiro grande craque do Brasil surgido na era das mídias sociais. O que permitiu os atletas terem um contato - inédito - direto com o público, mas também proporcionou grandes armadilhas.

“As redes foram fundamentais para divulgar o trabalho dele e a ele ter o tamanho que ele tem. O dia-a-dia era ele quem postava, mesmo tendo uma equipe. No começo era uma coisa bem mais livre o Twitter e depois foi sendo feitos ajustes. Ele não mandava o texto antes pedindo aprovação. O que acontecia era mais uma conversa com exemplos de situações erradas de outros jogadores. Ele entendia o conceito porque é muito inteligente”, contou Eduardo Musa.

“Fora do Brasil, ficou conhecido como jogador do Youtube por causa dos dribles e gols. Os vídeos com os lances dele viralizavam, mas foi algo espontâneo. A gente não postava isso”.

Comunicado via mídia social

As redes sociais foram utilizadas até mesmo para comunicar o fato de que seria pai com apenas 19 anos.

“Um jornalista chegou para mim perguntando sobre o boato de uma moça estaria grávida do Neymar. Eu não sabia e fomos conversar com ele, que falou com ela e soube do fato. Eles conversaram em família. O jornalista foi muito ponta firme e não publicou essa história porque não queria faturar em cima disso. Nós tínhamos que trabalhar o assunto como imagem. Abordamos com o maior respeito e clareza possível para que não deixasse brecha para boatos", relembra Musa.

“Isso aconteceu no meio da disputa da Libertadores. Toda vez que ele voltava de algum jogo o aeroporto ficava cheio de torcedores e imprensa. Usamos a tática de esperar ele entrar no ônibus do clube para postarmos nas redes sociais o comunicado sobre a gravidez. Fizemos isso para que não deixar margem para confusão, incluindo no aeroporto”.

“A mensagem foi escrita muito mais com o coração do que um texto com questão jurídica. Tratamos como um assunto humano”.

Neymarmania

“A gente entendeu o tamanho do fenômeno no lançamento do bonequinho do Neymar no shopping Aricanduva, em São Paulo. Eles nos disseram que o Ronaldo Fenômeno tinha ido lá e tinham dado conta tranquilamente. Quando o Neymar foi, quase quebrou vidraça de lojas, o shopping precisou fechar e na hora que saímos tinha uma menina no teto do carro”.

“A gente entendeu que não era mais só um jogador de futebol. Nas viagens pelo Santos pela Libertadores, o assédio começou a aumentar muito", conta Musa.

Depois de vencer o Sul-Americano sub-20 e a Libertadores, Neymar passou a ser reconhecido em todo continente.

“Ao longo de 2011 ele começou a entender o tamanho dele. Convites e entrevistas com pessoas que eram inatingíveis até então. A gente começou a direcioná-los para algumas entrevistas fora do mundo do esporte. Ele fez o Jô Soares duas vezes, que é um programa mais leve, e uma entrevista com a Marília Gabriela. Ela vai mais fundo nas perguntas. A gente esperou ele estar pronto para participar”.

Neymar participou de” Malhação” (seriado da TV Globo), de muitos clipes musicais e até o DVD do Thiaguinho. Ele virou personagem de quadrinhos de Mauricio de Sousa, criador da “Turma da Mônica”.

Cenário que não se repetirá

Antes de ir para o Barcelona, em 2013, Neymar conseguiu um feito inédito no futebol globalizado: ficou conhecido no mundo inteiro quando ainda atuava no Brasil e faturou um salário de padrão europeu.

“Ele tinha uma força de comunicação e um talento muito grande. Ajudou também muito o contexto do Brasil naquela época porque a economia estava bem, a Copa do Mundo que seria aqui. Eu acho que esse fenômeno nunca mais se repetirá porque os jogadores não ficam mais por aqui”, acredita Eduardo Musa.