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Willian no Arsenal teve proposta 'protocolar' do Chelsea, interesse de mais gigantes e efeito Edu Gaspar

Dia 8 de março de 2020, data de Chelsea e Everton, em Stamford Bridge, no último compromisso antes da paralisação da Premier League devido à pandemia de coronavírus. A caminho do estádio, Vanessa Martins, esposa do meia-atacante Willian, vestida com um casaco vermelho, publicou um vídeo nos stories de sua conta no Instagram, ao lado das duas filhas saindo de casa.

"Estamos indo assistir ao jogo... Nossos dias estão meio contados, né. Entendedores entenderão. Porém, Deus é tão maravilhoso que coisas boas vêm por aí né". Na sequência, pergunta a uma das meninas se ela ama Londres. O categórico "sim" encerra o vídeo, e logo depois todas entram em um táxi tipicamente inglês para se dirigirem ao campo do Chelsea pela última vez do lado azul.

Depois da partida, Willian conversou com a ESPN Brasil. Com um sorriso, negou saber sobre o que a esposa se referia na gravação. A discordância para a renovação (jogador queria três anos de contrato, mas o clube oferecia dois) já estava clara. Mas ainda não tinha aparecido o próximo capítulo de sua carreira: o Arsenal.

O início, o fim e o meio

Eles compraram sua passagem, mas o Willian viu a luz. Ele recebeu a ligação do Abramovich e foi para Stamford Bridge.

A música, uma das favoritas da arquibancada Mathew Harding, cantada a plenos pulmões pelos torcedores na vitória sobre o Everton por 4 a 0, não será mais ouvida na próxima temporada. Os versos lembravam e provocavam o Tottenham, pela fracassada tentativa de contratação do meia-atacante brasileiro, em 2013.

Na época, Willian estava de saída do Anzhi Makhachkala, após o bilionário proprietário do clube, Suleyman Kerimov, decidir vender todas suas estrelas, mesmo tendo pagado 35 milhões de euros da cláusula de rescisão para tirá-lo do Shakhtar Donetsk, seis meses antes.

É bem verdade que o jogador formado no Corinthians gostaria de ter saído antes. Rinat Akhmetov, proprietário do clube ucraniano, e Mircea Lucescu, técnico romeno e histórico personagem, não queriam que Willian fosse embora e recusaram todas propostas que chegaram. O problema é que o brasileiro já estava decidido a ir para o Chelsea há muito tempo, desde a primeira vez que visitou Stamford Bridge.

O casamento demorou para acontecer, mas deu muito certo. Foram 339 jogos, com 196 vitórias, 74 empates e 69 derrotas, aproveitamento de 65%. Willian marcou 63 gols, deu 56 assistências e conquistou cinco títulos: duas Premier Leagues (2014-15 e 2016-17), uma Copa da Inglaterra (2017-18), uma Copa da Liga (2014-15) e uma Liga Europa (2018-19).

Nenhum brasileiro vestiu mais vezes a camisa dos Blues do que Willian, superando Ramires, David Luiz, Oscar, Alex, Diego Costa, Belletti, Deco e Filipe Luís. Além disso, só cinco estrangeiros fizeram mais gols que ele pelo clube: Didier Drogba (164), Eden Hazard (110), Jimmy Floyd Hasselbaink (87), Gianfranco Zola (80) e Eidur Gudjohnsen (78). Foi também um de apenas oito jogadores nascidos fora da Inglaterra a superarem a barreira de 300 jogos pelo Chelsea.

Willian se tornou, ainda, o segundo brasileiro com mais partidas na história da primeira divisão inglesa (234). À sua frente está apenas o volante Lucas Leiva, com 13 a mais pelo Liverpool, marca que certamente será superada em breve. Em gols, soma 37 e perde para Roberto Firmino (57), Philippe Coutinho (41) e Gabriel Jesus (41).

Por que, então, Willian optou por trocar o clube onde sempre desejou jogar na Inglaterra por um rival? A resposta vai muito além dos três anos de contrato oferecidos pelo Arsenal.

Os motivos

O meia-atacante entrou na temporada 2019-20 em seu último ano de contrato. Houve demora do Chelsea em procurá-lo para renovação, e quando isso aconteceu, antes da pandemia de coronavírus, não foi bem uma negociação. O clube chegou à mesa com uma proposta definida e não possibilitou espaço para discussão.

Na prática, o Chelsea apresentou um contrato de dois anos ao jogador e disse que era aquilo que poderia oferecer. Nada mais. A impressão que ficou para o brasileiro desse encontro foi de "reunião protocolar", quase que uma obrigação por parte do clube londrino, sem qualquer vontade real de acordo.

Willian foi surpreendido com a postura dos diretores do Chelsea, já que não tinha qualquer intenção de deixar o clube. Pela idade, sabia que poderia ser o último grande contrato de sua carreira. Sempre quis um novo acordo de três anos, mas não houve negociação e, acima de tudo, o jogador se sentiu desprestigiado após sete anos em Stamford Bridge.

Veio então a paralisação do futebol mundial e nenhuma outra conversa aconteceu. O Chelsea procurou Willian novamente apenas para acertar a extensão de contrato até o fim da temporada 2019-20, algo que chegou a ficar em risco por detalhes burocráticos. Mesmo nessa reunião com o empresário do jogador, Kia Joorabchian, um novo acordo para permanência do brasileiro não foi discutido.

Com os rumores sobre sua saída cada vez mais fortes no mercado, outros clubes passaram a procurar o estafe do jogador. O Barcelona surgiu como opção, já que em outras épocas já havia manifestado interesse na contratação. Com José Mourinho, amigo de Willian, no comando, o Tottenham virou outro destino para os tablóides ingleses. Dos Spurs, no entanto, jamais houve qualquer contato.

Bayern de Munique, Manchester City e Manchester United apresentaram ofertas ao brasileiro. Todas de dois anos de duração.

Willian está com 32 anos, completados no último dia 9 de agosto. Em sua última temporada pelo Chelsea, disputou 47 partidas, marcou 11 gols e distribuiu nove assistências. Apenas na Premier League foram nove gols, melhor marca individual dele na história da competição. Graças à pandemia e ao aumento necessário do calendário, atingiu recordes estatísticos malucos, como o fato de ter se tornado o único jogador na história do Chelsea a marcar gols em jogos oficiais em todos os meses do ano. Foi um dos destaques na volta da competição, inclusive marcando o gol da vitória sobre o Manchester City, em Stamford Bridge, que deu o título ao Liverpool.

A postura do Chelsea continuou a mesma. A diretoria já parecia ter outros planos para o futuro, sem Willian. No mercado, apostou em Hakim Ziyech, estrela do Ajax para seu meio-campo, e vislumbra o crescimento de jovens da base como Callum Hudson-Odoi e Mason Mount.

Nos bastidores, a assessoria do clube fazia de tudo para não deixar a imprensa embarcar em uma narrativa de desentendimento entre técnico e diretoria, mas claramente Frank Lampard não queria perder o jogador. Sempre que tinha a oportunidade, elogiava Willian.

"Desde a parada ele voltou com atitude e vontade, foi assim durante toda temporada. O trabalho sem a bola é muito bom como você viu hoje. Os jogadores olham para ele como exemplo pelo que ele fez na carreira, e não posso elogiar o suficiente. Joguei com ele e sei das qualidades do Willian e de novo ele foi ótimo hoje. Vamos precisar dele para o final desta temporada", afirmou Lampard com exclusividade à ESPN Brasil, após a vitória sobre o City.

Se os números e atuações não mudaram a posição do Chelsea, do outro lado da cidade ajudaram o Arsenal a tomar a decisão de lhe oferecer um contrato de três anos. Pesou demais para Willian, porém, a vontade dos Gunners em contar com ele. Foram três reuniões com o clube, em todas o técnico Mikel Arteta esteve presente e falou diretamente a Willian sobre as intenções de contar com ele nas próximas temporadas. Para facilitar o negócio, Edu Gaspar, que conhece Willian tão bem da seleção brasileira, foi fundamental em todo processo de negociação.

Além disso, há ainda a participação de Kia Joorabchian, representante do jogador e muito próximo de Edu. O empresário, figura de passagem polêmica pelo futebol brasileiro anos anos 2000, tem visto sua influência diminuir no Chelsea e crescer muito no Arsenal. Além de Willian, também negociou a ida de David Luiz e Cédric Soares ao clube.

"Gosto da forma que eles jogam, tudo é sensacional - o estádio, e eu acho que com o Arteta, o Arsenal tem uma ótima oportunidade de brigar novamente por títulos na Premier League e na Europa, então estou muito feliz por isso. Estou muito empolgado para começar. Não vejo a hora de ir para o campo, jogar, ajudar meus companheiros e ajudar este clube a brilhar novamente. É isso que eu quero. Quando eu falei com o Mikel, a conversa foi boa, ele me deu confiança para vir ao Arsenal. Ele me disse muitas coisas boas e é por isso que eu vim para o Arsenal", afirmou Willian em sua apresentação oficial.

Arteta aposta que o meia-atacante será uma peça importante na maturação de seu Arsenal. A assiduidade de Willian pelo Chelsea foi incrível. Desde sua chegada ao clube, em agosto de 2013, até agosto deste ano, os Blues disputaram 382 partidas e ele atuou em 339 (89%). Das 43 vezes quando foi desfalque, em apenas dez ficou de fora por lesão.

"Eu acho que ele é um jogador que realmente pode fazer a diferença para nós", afirmou Mikel Arteta, quando o Arsenal confirmou o negócio. "Estávamos o monitorando nos últimos meses, tínhamos a intenção clara de fortalecer o setor ofensivo do nosso meio-campo e as posições de lado, e ele é um jogador que nos dá muita versatilidade, consegue jogar em três ou quatro posições diferentes. Ele tem a experiência de tudo no mundo do futebol, mas ainda tem a ambição de vir aqui e contribuir para levar o clube a onde ele pertence. Eu fiquei muito impressionado com todas as conversas que tive com ele e com o quanto queria vir".

Recentemente, Vinai Venkatesham, diretor geral do Arsenal, em entrevista recente ao site do clube, resumiu bem o negócio: "Edu e Mikel (Arteta) estão muito, muito animados com a contratação". O comando de futebol do clube, aliás, passou por mudanças grandes nesta semana. Raul Sanllehi, contratado do Barcelona para coordenar as transferências em 2017, deixou o Arsenal. Consequentemente, o diretor técnico, Edu Gaspar, ganhou mais responsabilidades na montagem do time.

Para completar a lista de motivos que fizeram Willian trocar Stamford Bridge pelo Emirates Stadium, o azul pelo vermelho e branco, foi o lado familiar. A esposa Vanessa e as filhas Valentina e Manuella, assim como ele, estão totalmente adaptadas a Londres e não gostariam de deixar a cidade. Toda família recebeu passaporte inglês neste ano.

Não foi o principal fator, já que a família de um jogador profissional de futebol entende os negócios do esporte, mas colaborou para a decisão final.

No final das contas, Willian, que vestirá a camisa 12, conseguiu o contrato que queria, de três anos, vai permanecer morando na capital inglesa e não precisará se adaptar a uma nova liga ou cidade. Terá, sim, um desafio ainda maior, por trocar o Chelsea por um rival. A cobrança será grande, assim como a pressão.

O Chelsea "jogou o jogo". Faz parte da política do clube não oferecer contratos tão longos a atletas acima de 30 anos. Foi assim com Didier Drogba, por exemplo. A impressão final é de uma separação sem traumas, com uma bela história deixada para trás.

O Arsenal, historicamente, não costumava dar contratos assim para jogadores desta idade - perdeu, inclusive, o ídolo Robert Pires por este motivo e Dennis Bergkamp renovava de ano em ano. As coisas, porém, estão mudando por lá com Edu e Vinai no comando. Sem muito dinheiro para ir às compras, o clube viu no meia-atacante brasileiro uma boa oportunidade.

Willian ainda não pisou no gramado do Emirates vestindo a camisa vermelha, mas o capítulo no Arsenal já começou a ser escrito.