<
>

O pai que Cristiano Ronaldo nunca conheceu

O garçom em um pequeno café já foi um soldado. Há muito tempo, Alberto Martins foi para a guerra ao lado de um garoto que cresceu ao seu lado, Dinis Aveiro, que se tornaria pai de um tal Cristiano Ronaldo.

Eles se conheciam desde a infância, quando, em 4 de setembro de 1974, voaram para a África. Em Angola, pegaram um trem com bancos de madeira. O trem era tão lento, tão lento que eles conseguiam sair, fumar um cigarro e só precisavam dar uma corridinha para voltar. Caminhões os levaram do fim da linha para uma vila perto da fronteira com a Zâmbia, em um lugar chamado Mossuma. A casa nova, na quente savana africana, com noites escuras e ameaçadoras, tinha um ar de familiaridade para os meninos que cresceram em uma ilha cercada por águas profundas e poderosas.

Eles retornaram para essa ilha depois da guerra e nunca mais saíram de lá. Aveiro trabalhou um pouco, pelo menos enquanto ele conseguia encontrar um serviço aqui e ali. Bebia muito e contava com a caridade dos amigos para a sua próxima rodada, sempre que o dinheiro acabava. E sempre acabava. Muito antes de Ronaldo tornar-se famoso, e antes de Aveiro ver o Manchester United vender camisas e camisas de seu filho para financiar a sua bebida, ele sempre dizia a seus amigos, incluindo Martins, que seu filho conquistaria todas as coisas que ele tinha não conseguido na vida. "Meu filho vai ser o melhor jogador do mundo", afirmava. Todos, sem exceção, riam.

"Nós dizíamos que ele era um bobo", relembra Martins. "Ele sempre acreditou."

ESSAS HISTÓRIAS SOBRE SUPERSTARS acabam sendo, na verdade, histórias sobre pais e filhos, não é? As coisas invisíveis que conduzem alguém para a grandeza são muitas vezes criadas para exaltar a vida de alguém, ou para jogar essa vida para baixo. Elas, aqui, são verdadeiras. Em recente autodocumentário bizarro de Ronaldo, a identidade do craque parece ser dissolvida rapidamente em solidão, em uma insegurança óbvia. Na primeira cena, vemos a estrela (ex-) Real Madrid em casa. Ele está sentado com seu filho, tomando café da manhã, e a única outra coisa no quadro é um retrato de um homem sem nome e sem alegria.

Este é o pai falecido de Ronaldo.

Aprendemos que o jovem Aveiro saiu para lutar uma guerra impopular, uma imposição dada a todos os homens elegíveis durante a ditadura militar de Portugal. Foi enviado à África para tentar manter Angola como colônia. Ele não estava do lado dos vencedores, estava do lado de uma nação que lutava para manter a última peça de um mundo que não existia mais.

Quando voltou para casa, ele tinha mudado para sempre, diz o filme. Aveiro bebeu até morrer e tinha uma relação tensa com seu filho. Embora nunca tenha levantado a mão para as crianças, ele agrediu a mãe de Ronaldo, também diz o filme. Quando o fígado de seu pai parou de funcionar, Ronaldo pagou um voo privado para levá-lo à Inglaterra em busca de tratamento médico. Era tarde demais.

Por baixo de tudo, Ronaldo continua a ser o filho conduzido por um soldado quebrado; meninos assim muitas vezes crescem tentando ser mais importantes do que a próxima bebida. Talvez ele ainda esteja tentando provar alguma coisa, mostrar a seu pai tudo o que ele se tornou. O único documento verdadeiro dos seus sentimentos é o filme, já que ele raramente dá entrevistas; seu agente não respondeu à ESPN, e a sua família queria dinheiro para falar. Aveiro é também a penúltima imagem do filme de Ronaldo, um vídeo caseiro antigo com o pai assistindo seu filho jogar como um menino, e, em seguida, a cena corta para Ronaldo hoje, ele de abdômen perfeito e sorriso famoso, em sua plena glória, como se ele ainda desejasse que seu pai pudesse vê-lo agora.

Como sugere o documentário, Ronaldo nunca realmente entendeu seu pai. Mas, na Ilha da Madeira, há antigos veteranos que sim. Eles pensam em Aveiro cada vez que veem seu filho na televisão. Orgulhosos, mas tristes também. Eles estão sempre diante da TV, vendo Real Madrid ou Portugal, sempre com respostas para muitas das perguntas que Ronaldo nunca fez.

O PAI DE RONALDO VIAJOU para uma guerra que já estava acabada, tendo como único objetivo se manter vivo. Durante o treinamento, um grupo de jovens soldados cansados de serem mandados para uma guerra sem esperança de vitória derrubou a ditadura militar e criou um novo e democrático governo. Quando a ditadura caiu em 25 de abril de 1974, a guerra basicamente acabou.

Desde que o Batalhão nº 4910 saiu do avião e entrou no calor africano cinco meses depois, todos dos dois lados sabiam que o exército português tinha perdido. Os homens da Madeira foram uma das últimas ondas de soldados, e estavam lá para entregar suavemente a ex-colônia para as vitoriosas forças rebeldes. Um trem os levou para Luso, e caminhões os carregaram para a sede do batalhão, onde cada companhia seguiu para diferentes postos, com ordens para impedir que diferentes facções de rebeldes lutassem entre si e para escoltar os caminhões de comida por estradas repletas de minas.

As histórias sobre os eventos mentalmente perturbadores que Aveiro testemunhou não são verdadeiras. Uma cópia dos registros da unidade mostra que três de cerca de 500 homens morreram, nenhum em contato com o inimigo. A doença matou um, um acidente matou outro, e um soldado se envolveu em uma briga com um aliado local e foi baleado. "Não era realmente uma guerra", disse Martins. "Então, não estávamos realmente preparados para uma guerra. Para ser honesto, eu acho que nenhum soldado que fazia parte do meu batalhão disparou um tiro contra alguém."

Para maioria dos soldados, a pior parte eram as condições. Muito dos homens pegaram malária, ficaram doentes na cama com calafrios, tremores e febre por três semanas, sem capacidade de se mover. A comida apodreceu antes de chegar, não suportando a viagem completa ao extremo oeste de Angola.

"Passamos fome", disse Jose Manuel Coelho, que serviu na 2ª Companhia. "Houve refeições que tínhamos apenas um pedaço de pão."

Os homens não tinham nada em termos de conforto - com exceção de um refrigerador à gasolina que preservava o bem mais precioso: a cerveja gelada. Os soldados viviam com cerveja. "Era tão quente que a água estava sempre morna e não mataria a sua sede", disse Coelho. "A cerveja era nossa melhor amiga. Eles tinham uma cerveja angolana: Cuca. A água era retirada do rio para uma reserva, mas não era tratada. Não bebíamos. Preferíamos cerveja. Disseram-nos que a água poderia causar problemas. Era usada para banho, cozinha e lavanderia. Para beber, cerveja. Quando bebo uma cerveja, às vezes, me lembro de Angola."

Todos os outros pesaram que a 3ª Companhia, a do pai de Ronaldo, sofreu com o pior, sozinha, afastada, sem ninguém por perto para fornecer qualquer apoio. Mas a verdade é que alguns homens amavam. O acampamento deles tinha barracas longas com teto de metal, e a vila mais próxima ficava nas margens de um grande rio. Se quisessem, eles deixavam a barba crescer.

"Era bom", disse Martins. "Não fazíamos nada. Tínhamos comida. Se precisássemos de comida, caçávamos. Ninguém nos incomodava. Fazíamos bifes e às vezes dávamos para os locais. Jogávamos futebol, cartas, cantávamos, de tempos em tempos fumávamos um baseado. Eu levantava peso. Era apenas comida e dormir. Não havia nada para fazer. Nós só tínhamos que devolver o equipamento, destruir equipamento, granadas e essas coisas."

Há uma foto de Martins e Aveiro juntos, encostados em um carro, em uma cidade africana enquanto esperavam para serem enviados para casa. Martins está com os botões abertos, cabelo comprido e bigode, enquanto o pai de Ronaldo encara a câmera com camisa camuflada, olhar firme e pouco preocupado. Seus amigos não queriam vazar assuntos familiares - ou, de alguma forma, parecem criar desculpas para os seus abusos quando ele retornou para casa -, mas dizem que havia questões em seu casamento até mesmo quando ele estava servindo, e aquilo o torturou durante a sua estadia na África. A correspondência chegava, talvez, uma vez por mês, e os soldados ouviam as hélices de um helicóptero que os faria saber que uma carta, talvez, pudesse estar a caminho.

A única coisa excitante que aconteceu com Aveiro na África foi quando ele e alguns outros soldados tiveram um carro atolado em um pântano, e três de seus companheiros passaram a noite no veículo enquanto alguém foi buscar ajuda. Coisas uivavam na escuridão da savana, e eles nunca se sentiram tão sozinhos. Eles se amontoaram e fumaram juntos até o sol nascer novamente.

Em 8 de outubro de 1975, depois de 13 meses, um navio chamado Niassa se aproximou das margens do Madeira com todo o batalhão à bordo. Quando alguém avistou a terra, alguns homens desesperados pularam do navio e nadaram até as suas casas.

AVEIRO VOLTOU a um país que tinha desmoronado. Por uma década, a ditadura militar gastou mais e mais em guerras na África, eventualmente até 40% de seu orçamento, e tudo ardia em chamas. Foi isso que o afetou, de acordo com Martins, não seu tempo no exército, mas a tentativa de construir uma vida no retorno para casa.

Em alguns aspectos, especialmente quando falava com Martins depois do retorno, Aveiro até sentia falta da África. Tudo parecia mais simples lá: caçar quando estivesse com fome, dormir quando estivesse cansado.

Na Madeira, Aveiro procurou emprego.

"Não havia empregos disponíveis", disse Coelho. "Estávamos abandonados. Os veteranos de guerra não tinham nenhum dinheiro e nenhum trabalho. Claro que, quando vejo Ronaldo, lembro-me de seu pai: ele tinha problemas e não tinha nada para comer, então se virou para a bebida. Seus amigos compravam as bebidas. Ele não tinha nenhum dinheiro. Ele não se alimentava corretamente."

Um clube de futebol local virou sua casa, onde ele podia fazer trabalhos provisórios, cuidar dos uniformes e beber em um pequeno bar, uma espécie de patrimônio, mas não exatamente o tipo de homem que enche o filho de orgulho ao vê-lo. Mesmo criança, Cristiano deve ter percebido a forma como outros homens olhavam para o seu pai.

Esse clube marca os primeiros passos da carreira de Ronaldo, que se mudou sozinho para Lisboa aos 12 anos de idade para tentar ser algo na vida. Ele só tinha a si próprio. Quando Ronaldo fala sobre seu pai agora, reconhece a violência e o alcoolismo, mas culpa a experiência de seu pai na guerra por seus erros, quando era realmente algo dentro de Aveiro que o fez daquela forma, assim também como é algo dentro de Ronaldo que fez a sua fama e sucesso possíveis.

Aveiro perdeu contato com muitos de seus antigos colegas de exército.

"Não o vi por muito tempo", disse Antonio Luis, da 1ª Companhia. "Depois o encontrei na cidade quando seu filho já estava na Inglaterra. Nós costumávamos tomar café e falar sobre futebol. Ele tinha orgulho de seu pequeno garoto."

Menos de dois anos depois, em setembro de 2005, Aveiro morreu.

Ele faleceu em Londres, com 52 anos e seus dramas, sob os cuidados de seu filho famoso. Ronaldo fez tudo que pôde para salvar seu pai. Não foi suficiente.

A morte foi destaque nos jornais na Inglaterra.

Torcedores e fãs se perguntavam se Ronaldo perderia uma partida.

Martins não foi ao funeral. Muitas pessoas foram, incluindo oficiais do governo e representantes do Manchester United, mas Martins não conseguiu ir. Ele sentiu que não era lugar para um velho soldado. A maioria das pessoas em luto compareceu por causa de Ronaldo, não para se despedir de um homem deteriorado e quebrado, que há muito havia deixado de ter importância fora da sombra de seu filho.

As pessoas amavam tanto Ronaldo que se importaram por Dinis Aveiro por um dia.

UMA SEMANA e meia antes, era dia de frango no encontro da Liga dos Combatentes na Madeira. Homens se reuniam à mesa para o almoço, regado à vinho. O clube é um edifício antigo, construído séculos atrás, com uma capela e um memorial para os mortos e um pequeno bar. A vista sobre as casas de telhados vermelhos, descendo as colinas verdes para o oceano, era inacreditável. Eles são muito orgulhosos da vista.

Dentro do depósito de armas principal, o tenente-coronel aposentado Bernardino Laureano ficava possesso que os estrangeiros só se querem perguntar sobre um soldado, de quem o filho por acaso ficou famoso. Todos os soldados daquelas guerras, todas as pessoas que voltaram para um Portugal que levou décadas até se recuperar economicamente, todas elas merecem ajuda e reconhecimento. Por um momento, parecia que ele queria brigar. Ele queria passar uma mensagem para Ronaldo; talvez o milionário tivesse interesse em ajudar homens como seu pai que ainda podem ser salvos. "A porta está aberta quando ele quiser", disse Laureano. "Ele pode nos contatar, e ficaremos honrados e orgulhosos em receber Cristiano aqui. Ele pode ter certeza que vai achar aqui dentro da Liga pessoas que conheceram seu pai e foram seus amigos pessoais porque conhecemos seu nome por muito tempo e nunca vamos nos esquecer dele - assim como todos outros nomes que tiveram uma vida difícil e nunca vamos esquecer".

Matéria originalmente publicada em 25/06/2016 - tradução por Ricardo Zanei e Thiago Cara.