O maior clássico do futebol mundial, Brasil x Argentina, em Copa do Mundo. Nesta quarta-feira, completam-se 30 anos do último duelo entre os rivais no maior palco do esporte, a única vez em que os argentinos deixaram o campo vitoriosos.
Em 1974 e 1982, os brasileiros levaram a melhor, e em 1978 o empate na "Batalha de Rosário" acabou ajudando a Albiceleste a rumar a seu primeiro título mundial.
No antigo Delle Alpi, em Turim (ITA), o Brasil de Sebastião Lazaroni e a Argentina de Carlos Bilardo se enfrentaram pelas oitavas de final da Copa de 1990. A vitória por 1 a 0 com o gol de Claudio Caniggia após jogada magistral de Diego Maradona aos 36 minutos do segundo tempo seria apenas a segunda da então campeã em toda a competição - duas disputas por pênaltis depois (contra Iugoslávia e Inglaterra) a levariam à final, quando perdeu o trono para a Alemanha Ocidental.
O confronto será sempre lembrado pelo "Pibe de Oro" partindo do meio-campo, deixando dois para trás, arrastando os três zagueiros para marca-lo e assistindo Caniggia para ter apenas Taffaral à sua frente. Ou até mesmo pela acusação do lateral esquerdo Branco da água batizada pelos argentinos - ele disse que ficou "zonzo" ao tomar uma garrafinha do staff rival -, algo que Maradona, décadas depois, disse ser verdade.
O duelo, porém, deixou outras marcas profundas naquela seleção brasileira.
"Pragmatismo sem gols do Brasil acaba derrotado por Maradona", colocou em sua manchete a Folha de S.Paulo. Para O Globo, "Brasil domina o jogo, mas sai da Copa: Argentina 1 a 0".
O diário carioca lembrou do domínio em posse de bola (quase 10 minutos a mais do que a Argentina) e chances criadas (12 a 7, mas empate em 5 a 5 nos chutes perigosos) e afirmou: "Os números mentem. No computador, vitória fácil dos brasileiros".
Dentro do elenco, havia grande insatisfação, principalmente de peças do ataque - Lazaroni utilizava três zagueiros no 3-5-2. Renato Gaúcho e Romário foram os maiores críticos depois da eliminação, e o futuro herói da Copa de 1994 chegou a falar em aposentadoria.
“Passei coisas muito desagradáveis nos últimos 40 dias. Coisas que não acrescentaram nada à minha carreira e menos ainda à minha vida”, disparou Romário, então jogador do PSV Eindhoven.
Bebeto, por outro lado, revelou uma "premonição" quando questionado se atuaria novamente ao lado do "Baixinho": "Nós estaremos juntos em 94".
Renato Gaúcho questionou o sistema tático do Brasil: “Como se poderia atacar com o líbero? Estou convencido que essa Copa seria uma moleza. Todas seleções ocupam apenas uma faixa central e estreita, poucas jogam pelas laterais, inclusive nós”
Sobre Lazaroni, “que não é tão democrático quanto gosta de afirmar”, o atacante do Flamengo manteve o discurso duro: “Como ele é um homem de diálogo, ele ouvia. Só que entrava por um ouvido e saía pelo outro”
Não poupou também os companheiros de seleção: “Muitos pensavam como eu, mas preferiram ficar em cima do muro. Eu falei, gritei, só faltei sair no tapa com o Lazaroni. Agora, tem gente indo embora mais cedo. Se tivéssemos vencido, estavam todos dando entrevista. É nessa hora que se conhecem os homens”.
Sobrou até para o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira: “Só o vi uma vez por aqui, no jogo com a Argentina. Depois, o turista sou eu...”
Quem também criticou a seleção foi Telê Santana, treinador nas Copas de 1982 e 1986. Comentarista do SBT para o Mundial da Itália, o então técnico do Palmeiras atirou principalmente contra Lazaroni.
“Eu não gosto de chutar cachorro morto, mas é preciso dizer que Lazaroni errou duas vezes. A primeira, quando convocou o time; a segunda, e mais grave, quando botou em campo uma equipe acovardada, puramente defensiva”, falou ao Estadão.
“Ele não levou os melhores. Faltou gente. Na hora de mudar, de mexer no time, ficou sem opção. Só lançou Renato Gaúcho e Silas em campo no desespero. Não tinha três para jogar na frente, e isso fez falta”.
“As pessoas gostavam de dizer, durante a fase de preparativos, que meus times jogaram bonito, mas perderam, e esta era uma ‘geração vencedora’, o que é pura bobagem. Maradona desmontou todas estas teorias. O meu time de 82 e o de 86 jogavam bonito, porque seus homens é que sabiam jogar bonito”, continuou.
“Agora estamos vivendo um tempo em que alguns jogadores se orgulham de jogar feio. E o técnico (Lazaroni) não teve visão na condução da equipe, ao estimular este lado negativo. Faltou experiência, para tentar mudar este tipo de pensamento, esta teoria defensivista”.
“Ele (Lazaroni) se fechou muito. Não teve humildade. Os tais treinos secretos eram pura bobagem. Poderia aproveitar o tempo para fazer treinos táticos, ensaiar jogadas, o que fazendo falta”, encerrou.
Sebastião Lazaroni, por sinal, já estava com o foco no seu futuro: a Fiorentina lhe havia feito uma oferta - posteriormente aceita - ainda durante a Copa do Mundo, e a eliminação acelerou o processo.
