A memória de um dos maiores ídolos do Palmeiras está de mudança. O museu particular do ex-goleiro Oberdan Cattani, que completaria 101 anos nesta sexta-feira (12), deixará São Paulo e será instalado em uma chácara perto do centro de Itu.
O motivo da mudança é simples: Walkyria Cattani, 72, primeira filha do palmeirense, vai deixar a capital paulista para morar com a irmã Mônica e o sobrinho na cidade do interior paulista (90 Km distante da capital).
“Até o final do ano acredito que já estará aqui. Ele já foi desmontando, mas ainda não transportamos por causa da pandemia do coronavírus. Faz praticamente três meses que tudo parou. Estamos indo aos poucos”, diz Walkyria para a ESPN.
Ela tem sido a responsável pelo museu há anos e tem uma forma particular de nomear o espaço: “É o cantinho do Oberdan”.
O museu foi idealizado pela esposa do ex-goleiro, Marcília, falecida em 1977. Ela já tinha o hábito de guardar reportagens publicadas sobre o marido nos jornais. Mas o acervo vai além dos recortes. São fotos, ingressos de jogos que ele atuou, duas estátuas (mais de 4m cada um), troféus, uma chuteira e um uniforme original, mais de mil medalhas, entre outras coisas.
“Começou com recortes de jornal de quando ele deixou Sorocaba e passou a defender o Palmeiras. Desde então, guardamos tudo. Essa reportagem eu também vou colocar aqui”, diz Walkyria, cuidadosa e orgulhosa da memória do pai.
Para palmeirenses, o museu preserva um verdadeiro tesouro: um relógio dado pelo Palmeiras aos campeões da Copa Rio de 1951. Uma relíquia pela conquista do maior título do clube e uma prova de como o futebol era mais modesto e generoso.
“É difícil dizer o que meu pai mais gostava. Ele tinha orgulho de tudo. Gostava de mostrar o espaço. Era muito palmeirense” diz Walkyria, que reconhece que reunir tamanho acervo não foi fácil.
Oberdan tem a própria biografia ligada ao Palmeiras. O casamento dele com Marcília, em 1945, e as bodas de prata, em 1970, foram no salão nobre do antigo Parque Antarctica. Logo após o matrimônio, ele passou a morar com a esposa na casa onde está o museu e onde ficou até o fim da vida. Oberdan morreu em 2014, aos 95 anos, após complicações cardíacas.
“Meu pai amou o Palmeiras do início ao fim da vida, e eu sei que os palmeirenses o amam até hoje”, diz Walkyria sobre o homem que foi considerado o maior ídolo de todos os tempos até Ademir da Guia aparecer. Hoje, eles dividem o pódio com Marcos.
Museu particular
Diferentemente de outros museus, o espaço dedicado a Oberdan Cattani sempre foi particular. Inicialmente ocupava um cômodo da casa do ex-goleiro na Pompeia, a cerca de um quilômetro da sede do Palmeiras, onde hoje se impõe o Allianz Parque.
Há alguns anos, Walkyria fez uma reforma e ampliou o espaço. Como boa palmeirense, ela abria as portas para visitantes que pediam autorização para visitar o museu por meio de amigos ou faziam contato usando os caminhos da Internet.
Em Itu, com mais espaço, o museu continuará sendo particular, com funcionamento igual, e passará a contar com objetos da esposa de Oberdan e também de Roberto, o marido de Walkyria, falecido em 2018. Uma outra “relíquia” estará lá.
“Em 2001, o Palmeiras deu um Gol bolinha, preto, aos campeões da Copa Rio. Meu pai conservou o carro enquanto esteve vivo, e a gente o mantém até hoje. Posso te garantir que tá melhor do que muito carro novo por aí”, diz Walkyria, aos risos.
Bandeira e busto
Oberdan chegou ao Palmeiras ainda nos tempos de Palestra Itália e vivenciou todo o sofrimento que diretores, jogadores e torcedores sentiram quando o clube foi obrigado a abandonar o nome de fundação por pressão política, especialmente de dirigentes do São Paulo, no contexto da Segunda Guerra Mundial, passando ao nome atual.
Ele carregou a bandeira do Brasil na "Arrancada Heroica", em 20 de setembro de 1942, no Pacaembu, quando os jogadores entraram em campo para enfrentar o São Paulo. A vitória por 3 a 1 garantiu naquele dia a taça do Campeonato Paulista.
Por causa do episódio, o ex-goleiro afirmava que “o Corinthians é adversário, o São Paulo é inimigo”. Jamais perdoou o acontecimento. Assim como não perdoou o presidente Paschoal Giuliano por tê-lo cedido ao Juventus no fim de carreira.
Durante muitas décadas, os dois jogos que Oberdan fez pelo time da Mooca contra o Palmeiras nos anos 50 viraram argumento para que ele não ganhasse um busto no clube alviverde. Uma exigência do estatuto, que, embora não estivesse escrita, e sim acordada verbalmente, como explica o pesquisador Fernando Galuppo, servia para evitar que a honraria fosse banalizada.
A “dívida” com o ídolo só foi corrigida décadas depois, quando o presidente Paulo Nobre aprovou com o conselho alviverde a confecção de um busto, em 2013. Mas o ídolo morreu antes de ver o monumento enfeitando os jardins do Palmeiras, em 2014.
Em 14 anos de Palmeiras, Oberdan Cattani fez 358 jogos (214 vitórias, 75 empates e 69 derrotas). Foi campeão do Paulista em 1942, 1944, 1947 e 1950, do Torneio Rio-São Paulo em 1951 e da Copa Rio de 1951.
"O Palmeiras foi tudo na minha vida", resumiu Oberdan, em 2013, ao resumir a este repórter o sentimento pelo clube alviverde.
