<
>

Pandemia provoca depressão, ansiedade e medo em jovens da base no futebol e ameaça futuro das categorias

Em um fim de semana marcado pela volta da Bundesliga, assim como notícias de que Espanha, Itália e Inglaterra avançam nos protocolos de saúde para retomarem suas competições, o futebol brasileiro completou dois meses de quarentena por causa da pandemia da COVID-19. Ainda em um cenário de incerteza, o impacto tem sido grande especialmente na base. Os jovens sofrem com quadros de ansiedade e depressão com o medo de verem o próprio futuro na modalidade comprometido.

Atual campeão da Copa São Paulo de futebol júnior, o torneio mais tradicional de base no Brasil, o Internacional foi um dos clubes que diagnosticou essa tendência e tomou medidas rápidas.

Desde 18 de março, data em que os 78 atletas alojados pelo clube iniciaram a quarentena, a diretoria tem feito o acompanhamento dos jovens à distância com bastante rigor. Profissionais da área técnica, assistentes sociais, psicólogos e médicos monitoram os jovens.

“A preocupação maior que temos nesse momento é a questão emocional. Nós lidamos com atletas de 14 a 20 anos que já têm vínculo com o clube, recebem ajuda de custo. Temos conversado muito com os pais para monitorar cada um”, diz Erasmo Damiani, gerente da base do clube.

À reportagem, Damiani disse que a preocupação número 1 na base é prevenir os efeitos psicológicos do confinamento. O grupo do Internacional é bastante heterogêneo tanto no que se refere à origem (há atletas das regiões Norte, Nordeste, Sul e Sudeste do Brasil, além de dois argentinos e um colombiano) quanto às condições sociais e culturais.

Até por isso o confinamento gera diferentes situações, explica Damiani. “Alguns moram em apartamento ou em casa com mais espaço. Outros dividem o teto com sete, oito pessoas, com cômodos menores. Muitos pensam: ‘E se eu for dispensado?’ É o medo pela incerteza”.

Ao falar da incerteza, Damiani olha além da realidade do Internacional. Clubes menores ou sem calendário anual têm feito cortes na base para amenizar o impacto financeiro.

O Coritiba suspendeu em maio os contratos de atletas, técnicos e demais profissionais das categorias de base “devido a indefinição sobre realização das competições”. O Sport demitiu funcionários e membros das comissões técnicas para enxugar quatro categorias de base (sub-13, sub-15, sub-17 e sub-20), informando que eles devem ser recontratados no futuro.

Os presidentes das Federações Paulista e Pernambucana também já declararam publicamente que não vão realizar os torneios de base neste ano. Em São Paulo a única categoria com o futuro ainda em aberto é a sub-20. Mas, ainda que ocorra a disputa, ela será encurtada.

No cenário nacional, a CBF suspendeu o Campeonato Brasileiro sub-17 após a primeira rodada e a Copa do Brasil sub-20, únicos torneios de base já iniciados. Mas pretende retomá-los no futuro. Em nota, a entidade também diz que prevê realizar as competições sub-15 e sub-20.

Mesmo entre os clubes que não fazem parte da elite nacional há aqueles que tomaram medidas para se prevenir sem recorrer aos cortes e impacto no futuro dos jovens. É o caso do Botafogo de Ribeirão Preto, que tinha 30 garotos alojados.

“Eles foram liberados para suas casas logo no início da quarentena e montamos uma cartilha visando a parte técnica e a parte física. São orientações de treinamentos e cuidados para a saúde. Também fazemos contatos diários e, ao mesmo tempo, mantemos acompanhando da parte psicológica, da parte social, da parte de pedagogia”, diz Diego Cabrera coordenador técnico do clube.

“Estamos falando de meninos que buscam o sonho no futebol, o sonho de uma família toda. A partir do momento que a gente escuta que não vai ter os campeonatos de base, muitos acabaram apresentando quadros de ansiedade. Alguns até o início de um processo depressivo”, acrescenta.

Perda de gerações

A preocupação com a base tem se mostrado mais impactante do que parece. Dirigentes como Damiani e Cabrera, mesmo que em clubes com realidades diferentes, já participavam de discussões para o futuro do setor. Algo que agora virou urgente.

Quando se fala em base, se fala em inúmeros garotos buscando a oportunidade de iniciar uma trajetória, desenvolver suas aptidões e subir de categoria até o profissional. Com a possibilidade de torneios deixarem de ser disputados, o impacto pode ser a perda de gerações.

“É prejudicial para o desenvolvimento. Mesmo que as categorias mais novas, como as sub-11, 13, 15 e 17 tenham tempo de recuperar, essa parada e um ano sem competições vai ser muito ruim para todas as categorias na parte física e na parte técnica”, diz Cabrera.

Aos 40 anos, com a experiência de ter trabalhado no Juventude, no Grêmio e no Internacional, onde foi coordenador da base, mesmo cargo que exerceu no São Paulo, acompanhando uma geração que começa a despontar agora no profissional, ele vê lacunas difíceis de serem preenchidas.

“A competitividade é uma parte importante na formação. Ficar um ano sem ter uma competição, sem ter essa condição de vivenciar esse processo, porque na formação tem o jogo que, é óbvio que eles querem ganhar, querem demonstrar talento, mas é uma troca de conhecimento, de conteúdo. Então, se eles passarem sem essa troca vai ser bastante prejudicial”, acrescenta.

Quartorze anos mais velho do que Cabrera, Erasmo Damiani tem ainda a experiência de ter sido coordenador de base da CBF durante o período que culminou até com o ouro olímpico conquistado pela seleção brasileira nos Jogos de 2016.

Ele cita uma necessidade que já vinha sendo trabalhada nos bastidores para melhorar o trabalho de base e que pode ser a salvação de tantas gerações de meninos no Brasil pós-pandemia.

“O exemplo que uso é da geração 2005, hoje sub-15. Ano passado era sub-14, para a qual não temos competições oficiais no Brasil. Eles jogam apenas torneios, mas nem todos têm um nível desejável para competição e formação. Esse ano eles fariam suas primeiras competições oficiais, mas por causa da pandemia não vão ter disputas. Ano que vem eles passam a ter 16 anos e não tem competições oficiais no calendário, somente alguns poucos torneios. Aí em 2022 eles passam a ser sub-17, mas com uma formação abaixo, pois foram quase quatro anos sem disputas”, disse.

Damiani ressalta que está analisando o cenário de forma geral porque o efeito será mundial.

“Eu não consigo mensurar o tamanho da perda por causa da pandemia. Será uma perda mundial. E aquele país que souber retomar esse trabalho bem vai ter ganho lá na frente com gerações de Copa do Mundo”, disse.