Só uma situação especial seria capaz de reunir argentinos, em meio à quarentena, dentro de um estádio de futebol - e ela, infelizmente, aconteceu na sexta-feira. Fãs passaram por cima dos protocolos de saúde e amontoaram-se no acanhado Alfredo Terrera para prestar uma última homenagem ao ídolo Tomás Felipe Carlovich.
Se você nunca ouviu falar de Carlovich, mais conhecido como "El Trinche", há muito o que saber sobre esse peculiar ídolo argentino, que morreu vítima de um derrame cerebral, resultado de um assalto em Rosário. Por ora, fiquemos com uma mensagem escrita por Diego Maradona: "Trinche, foste melhor que eu".
Mas quem foi esse cidadão que inspirou um dos maiores jogadores de todos os tempos?
Carlovich nasceu em 1946, num bairro pobre de Rosário, cidade que anos mais tarde traria ao mundo Ezequiel Lavezzi, Angel Di Maria e ele, Lionel Messi. Desde cedo, mostrou um talento nato para futebol, o que o fez ingressar no esporte e vestir as camisas de Central Córdoba, Flandria, Cólon de Santa Fe e Deportivo Maipu de Mendoza.
O currículo do meio-campista não faz jus a seu talento. A prova de sua qualidade aconteceu em 1974, quando, com a camisa 5 de um combinado de Rosário, colocou na roda a seleção argentina, que meses mais tarde disputaria a Copa do Mundo daquele ano.
A atuação no amistoso deu fama ao "Trinche", que chegou a ser convocado para a seleção dois anos mais tarde. A estreia não aconteceu por um motivo: ele não apareceu. Nas palavras do técnico César Luis Menotti, Carlovich "preferiu ir pescar" em vez de atuar no time que, em 1978, seria campeão mundial pela primeira vez.
Mora aí a explicação para a carreira modesta do talentoso meio-campista: ele jogava futebol por prazer, não por profissionalismo. Por isso, faltava a treinos, se indispunha com técnicos e árbitros, uma forma de mostrar uma certa rebeldia pela formalidade do esporte.
"Não tive outra ambição a não ser jogar futebol. E, sobretudo, não me quis afastar do meu bairro, da casa dos meus pais, de estar com Vasco Artola, um dos meus melhores amigos. Sou uma pessoa solitária. Gosto de estar tranquilo, não é por má vontade", disse El Trinche, em uma entrevista antiga.
Ainda que não tenha brilhado como poderia, Carlovich virou um ícone do futebol argentino, a ponto de ser personagem de causos contados por quem o viu jogar. Reza a lenda que, certa vez, ele disputou uma partida só tocando a bola com o calcanhar. Dizem também que ele é dono do recorde mundial de posse de bola: dez longos minutos, interrompidos por uma travada violenta de um adversário.
Jornais argentinos contam também outra partida brilhante da sua carreira, quando, em 1979, jogou pelo Talleres contra o Milan, em uma excursão do time italiano à América do Sul. Relatos da época dizem que ele enlouqueceu um jovem zagueiro rubro-negro, chamado Franco Baresi, que mais tarde se tornaria um dos maiores da sua época.
Mas não foi páreo para "El Trinche".
"O jogador mais maravilhoso que vi jogar", disse certa vez José Pekerman, um dos grandes técnicos da história do futebol argentino.
Esta é a história de Tomás Felipe Carlovich. O talentoso futebolista que inspirou lendas, foi espelho para gerações e gerações de torcedores, mas escolheu o anonimato em vez da fama.
