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Emoção e lágrimas na Premier League: A história do filho que seguiu os passos e se tornou ídolo no mesmo time do pai

Alvin Martin foi um dos grandes jogadores da história do West Ham. O zagueiro disputou 596 partidas pelo clube e foi um dos símbolos da conquista da Copa da Inglaterra de 1980, sobre o Arsenal. Embalado, em 1981, Martin ajudou o West Ham a voltar para a primeira divisão de seu país.

Foram anos de altos e baixos no clube, mas não para Alvin Martin. O zagueiro foi eleito o principal jogador da temporada em 1980, 1982 e 1983. David Martin só nasceu em 1986, seis meses antes de seu pai disputar a Copa do Mundo do México. Alvin foi titular na boa vitória da Inglaterra sobre o Paraguai.

As lembranças da infância são as melhores possíveis. Ele e os outros filhos dos jogadores do West Ham estavam sempre no centro de treinamento e cultivavam a paixão pelo clube.

David viu o dia da despedida de seu pai do West Ham. Foram quase 21 anos nos Hammers. Alvin, além de pai era o ídolo, a referência. O futebol foi o caminho natural, e o goleiro teve várias convocações para a seleção de base da Inglaterra.

A carreira profissional começava a decolar no Milton Keynes Dons. O Liverpool observou e fez a proposta. David aceitou. O sonho de disputar uma partida de Premier League estava logo ali.

Foram quatro anos de contrato. David esteve no banco de reservas na histórica goleada do Liverpool sobre o Besiktas por 8 a 0. Esteve no banco em alguns jogos de Premier League também, mas ele não conseguia jogar.

O ídolo da torcida do West Ham, Alvin Martin, com o filho pequeno no colo; David repetiria a emocionante história do pai no clube - Crédito: West Ham/Arquivo pessoal

A rotina de banco de reservas só era quebrada quando o clube aceitava emprestar o goleiro. O tempo ia passando. O jovem goleiro da seleção já não conseguia seu espaço no clube. Accrington Stanley, Leicester, Tranmere Rovers, Derby County e Leeds United. Os sonhos foram ficando distantes.

Os grandes momentos iniciais no Milton Keynes Dons poderiam voltaram. David Martin aceitou a proposta e voltou ao clube. Ele passou a ter sequência de jogos. Era ele o goleiro da impressionante goleada por 4 a 0 sobre o Manchester United, na época dirigido por Louis van Gaal, em 2014, em jogo válido pela Copa da Liga.

O pai acompanha à distância a carreira dos filhos. Sim, no plural. Ele via David lutar para vencer no gol e comemorava o prêmio que o zagueiro Joe Martin recebera em 2012, pelo Gillingham, como o melhor jogador do ano na League Two (quarta divisão).

O bom trabalho feito no Milton Keynes fez com que David tivesse de tomar uma decisão difícil. O maior rival do West Ham, time do coração da família, queria contar com ele. David pegou o telefone e ligou para Maggie. Ele precisava do apoio da mãe para contar para o pai sobre a transferência para o Millwall.

Apesar de sempre conviver com a desconfiança, David Martin era o titular nos jogos do Millwall na Copa do Inglaterra, a mesma Copa que fez seu pai se tornar uma lenda no West Ham. E o Millwall estava escrevendo uma linda história. A semifinal, contra o Brighton, estava controlada. Um suave 2 a 0 foi interrompido quando Locadia acertou um chutaço de virada e diminuiu o placar, quando faltavam dois minutos para o fim do jogo.

Maggie assistia à partida, mas o sofrimento era grande demais para Alvin. O pai andava de um lado para o outro e observava que as horas não passavam. Alvin foi surpreendido com o semblante de tristeza de sua esposa. Ele sabia que algo de muito ruim tinha acontecido com o filho.

Faltando poucos segundos para o apito final, que colocaria o Millwall na final da Copa da Inglaterra, Solly March bateu uma despretensiosa falta para a área, mas a bola acabou não encontrando qualquer atacante de seu time. David Martin imaginou que a bola estivesse indo para a fora e meio que recolheu os braços. Cálculo errado. Ele ainda tentou buscar de novo, mas já era tarde. O Brighton empatou e depois venceu nos pênaltis. Era o fim para o Millwall e o fim da linha para David Martin no clube.

Sem contrato, David Martin, já com 33 anos, era uma aposta barata para composição de elenco no West Ham. Sim, ele saiu do Milwall para o West Ham.

O time já contava com os goleiros Fabiánski, Roberto e Randolph. David Martin era a quarta ou terceira opção. Até que um se machuca, o outro não inspira confiança. Martin já havia trabalhado com Xavi Valero, treinador de goleiros do West Ham, em 2006, ainda no Liverpool.

A notícia de sua estreia em uma partida da Premier League, aos 33 anos, no time do coração e em um clássico contra o Chelsea foi muito forte para ele. O goleiro não conseguia comer. Cresswell, companheiro de time, ria quando o prato era recolhido sem que Martin tivesse conseguido dar uma única garfada.

A bola ia rolar. Mark Noble, ídolo do West Ham e amigo desde a adolescência de David, comemorava a estreia do companheiro. Declan Rice, jovem promessa do clube, vai até o goleiro e mostra que a torcida estava cantando para ele. Depois de tanto tempo, 23 anos sem gritar Martin, o torcedor queria muito relembrar o passado e honrar a família de Alvin.

David Martin ainda no primeiro tempo conseguiu ver seu pai nas cadeiras. Um aceno, um sorriso de confiança e nada mais. Cresswell abriu o placar para os visitantes. O gol sofrido só fez aumentar a pressão contra o gol de Martin. Foram 19 finalizações, mas, após 17 anos, o West Ham voltou a ganhar em Stamford.

A imprensa inteira apontou David Martin como o homem do jogo. Os companheiros foram até ele, que mal conseguia se pôr de pé. Ele havia realizado o sonho de jogar uma partida Premier League e o seu time bateu o favorito Chelsea, fora de casa.

O pai estava lá. Paciente, o ídolo do West Ham esperou vendo o filho ser quase esmagado pelos companheiros. Quebrando totalmente o protocolo, David Martin saiu do campo, subiu as cadeiras e, por menos de um minuto, repousou toda a ansiedade nos ombros do pai. Os dois nem se falaram. Não era preciso e nem foi possível.

Alvin, preocupado com a saúde da mãe, já com 88 anos e se recuperando de um acidente doméstico, ainda do estádio ligou para ela e percebeu pelas palavras que tudo estava bem. E que tudo tinha valido a pena.