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Pechincha para o Real e blefe do Barcelona: os bastidores da saída do aniversariante Beckham do United

David Beckham é o aniversariante do dia. Neste sábado, 2 de maio, o ex-meia e hoje dono do Inter Miami completa 45 anos, dos quais duas décadas foram de sucesso por onde passou: Manchester United, Real Madrid, Los Angeles Galaxy, Milan, Paris Saint-Germain e seleção da Inglaterra.

Entre tantos pontos de uma carreira quase inteira de alto nível, um vale menção honrosa na trajetória profissional do marido da ex-Spice Girl Victoria: a transferência do United para o Real, numa transação que custou 35 milhões de euros à época (25 milhões pagos antecipadamente).

Se o fã de esporte sabe que, de fato, Beckham mudou-se de Old Trafford para o Santiago Bernabéu, poucos sabem que o astro inglês na verdade ficou no meio entre uma "disputa falsa" entre Real Madrid e Barcelona, que acabaria afetando a história dos dois gigantes espanhois por muitos anos.

Vamos relembrar agora:

A FRITURA NO UNITED

David Beckham fez parte da chamada "classe de 92", nome dado a seis jovens que jogaram juntos da base até o principal e representaram o sucesso do Manchester nos anos 1990. Ao lado de Gary Neville, Phil Neville, Nick Butt, Paul Scholes e Ryan Giggs, o camisa 7 conquistou, para os Red Devils, a supremacia da Premier League, a Champions League de 1999 e o Mundial de Clubes do mesmo ano, sobre o Palmeiras.

Mas a relação com o técnico Alex Ferguson se desgastou a partir dessas conquistas. Na temporada 2002-03, os dois mal se suportavam no vestiário, o que causou atritos públicos e histórias embaraçosas, como a vez que Sir Ferguson, irritado, acertou uma chuteira no rosto de Beckham, que precisou ser contigo para não partir para cima do treinador escocês.

Por tudo isso, o United se preparou para colocar Beckham no mercado. Como Ferguson era intocável para a diretoria, o capitão da seleção inglesa perdeu a queda de braço em Manchester e foi "anunciado" no mercado. O que despertou interesse de Real Madrid e Barcelona - não com o mesmo propósito...

O BLEFE DO BARCELONA

Em 2003, o Barça não era nada do que é hoje. Tinha perdido meses antes seu maior astro, Rivaldo, para o Milan, e vivia na metade da classificação do Campeonato Espanhol. Lionel Messi era só um garoto da base, sem perspectiva de subir. Nesse cenário, surgiu um movimento político que prometia devolver o clube ao patamar que ele merecia.

A chapa liderada por Joan Laporta, com dirigentes jovens e sem tanta história no Camp Nou, sabia que precisava causar impacto. E foi o que fez ao convocar uma coletiva de imprensa e anunciar que tinha chegado a um acordo com o Manchester United pela transferência de David Beckham: 45 milhões de euros, valor exigido pelos ingleses.

Só que tudo isso não passava de uma farsa. O que o grupo catalão fez foi entrar em contato com Peter Kenyon, presidente do Manchester United, e perguntar o preço do meia inglês. Nunca houve, de fato, interesse do Barça na contratação. A ideia era mostrar ambição à torcida e dar uma amostra do que aquela geração de cartolas poderia fazer se fosse eleita - o que, em parte por essa "fake news", de fato aconteceu.

"Quando anunciamos o acordo com Beckham, estávamos ultrapassando nossos adversários nas pesquisas. Já tínhamos dado nosso primeiro sprint na corrida eleitoral, mas foi a negociação que promoveu nossa vitória, porque foi um atestado de credibilidade", revelou Marc Ingla, futuro vice-presidente de marketing do Barcelona, no livro "Barça - A construção e a trajetória do melhor FC Barcelona de todos os tempos", de Graham Hunter.

ENTRA O REAL MADRID

Em meio ao balão de ensaio do Barcelona, o Real Madrid não se posicionou. Dizem que a amizade de Sandro Rosell, dirigente catalão, e o presidente Florentino Pérez ajudou para que a situação não se tornasse pública. A verdade é que os merengues não tinham motivo para preocupação, porque já tinham um acordo pela transferência.

Meses antes do anúncio de Laporta, o Real deu o passo definitivo para fechar com Beckham. Graças ao diretor de marketing José Angel Sánchez, que se encontrou com Peter Kenyon para uma reunião escondida em Sardenha, na Itália. Foi lá que o cartola espanhol ficou em êxtase com o valor que o United queria pela venda.

"Eles estão pedindo peanuts", disse Sánchez, ao ligar para Florentino Pérez para dizer que eles comprariam o jogador mais publicitário do mundo por "dinheiro de amendoim", de tão barato. O diálogo, e toda a história, está no livro "Anjos Brancos à Beira do Inferno - Os Bastidores do Real Madrid", de John Carlin.

Florentino não gostou do preço, mas foi convencido pelo diretor de marketing, que foi persuasivo. Afinal, comprar Beckham por 25 milhões de euros no ato - e mais 10 milhões caso aquele Real Madrid galáctico ganhasse tudo como imaginavam - era, na sua visão, algo muito barato para o retorno que o jogador traria ao clube, em termos de merchandising, vendas de camisas, espaço na mídia, etc.

E assim foi feito.

FIM DA HISTÓRIA

Em 17 de junho de 2003, o Real Madrid apresentou David Beckham em um luxuoso evento no Bernabéu. O inglês ganhou a camisa 23, número imortalizado por Michael Jordan no Chicago Bulls, e se juntou ao elenco estrelado já por Luis Figo, Zinedine Zidane, Ronaldo, Raul e Roberto Carlos.

O super Real Madrid, como a história conta, ganhou apenas uma Supercopa da Espanha, em um dos primeiros jogos de Beckham. No restante, jamais passou das quartas de final da Champions League, perdeu um título quase ganho de LaLiga para o Valencia e foi desmontado aos poucos até abrir espaço para a geração seguinte, de Cristiano Ronaldo.

A quilômetros de Madri, o Barcelona seguiu sua vida. Joan Laporta ganhou a eleição e, como um dos primeiros atos, contratou não Beckham, mas Ronaldinho Gaúcho, do Paris Saint-Germain, por aproximadamente 28 milhões de euros. O brasileiro seria o rosto de mudança que a nova gestão queria implementar no Camp Nou.

Que aposta certeira!

Enquanto o Real Madrid galáctico cambaleava nas próprias pernas, o Barça de Ronaldinho - e mais tarde Deco, Eto'o, Xavi e Iniesta - iniciava uma época gloriosa de conquistas, com o bicampeonato espanhol e a Champions League de 2006. O Gaúcho saiu em 2007, mas passou o bastão para Lionel Messi, que, até hoje, carrega seu legado.

David Beckham, direta e indiretamente, participou de tudo isso.