No começo dos anos 2000, o Real Madrid viveu a era dos galácticos, quando abriu os cofres e contratou alguns dos maiores craques do mundo.
Poucos jogadores tiveram coragem de recusar uma oferta do time merengue. Um deles foi o ex-volante Mauro Silva, campeão do mundo em 94 pela seleção brasileiro e ídolo do La Coruña.
Destaque da equipe que peitou os gigantes da Espanha por quase uma década, o brasileiro foi alvo do clube merengue.
“Em 2000, quando meu vinculo estava no fim, o Real Madrid veio falar para eu assinar um pré-contrato para sair de graça. Eu ganhava bem no La Coruña, que sempre se esforçou para me manter por lá, mas o salário que o Real me ofereceu era maior. Tinha uma diferença de alguns milhões (risos). Mas não me arrependo, ao contrário. Acho que fiz muito bem”, disse ao ESPN.com.br.
A identificação do jogador com La Coruña foi muito além do futebol.
“Eu acabei me envolvendo muito com a cidade e as instituições. A universidade criou o campus Mauro Silva, o prefeito me colocou no presépio municipal como rei Baltazar e deu meu nome para uma rua na cidade. Fui eleito o melhor jogador da história pelos torcedores”.
Além disso, Mauro tinha uma enorme gratidão pelo clube que o ajudou no momento mais difícil da carreira.
Logo após a Copa de 94, ele voltou com um problema no tendão patelar precisou e operar o joelho.
“Fiquei quatro meses sem jogar, mas continuei com um incomodo no tornozelo. Fiz uma ressonância magnética e tinha uma fibrose no tornozelo. O médico em Barcelona me disse: ‘Talvez você não se recupere e nunca mais volte a jogar futebol. É bom você estar consciente desta possibilidade’”, contou.
Ao voltar para o La Coruña, o médico do clube comunicou a diretoria sobre a situação.
“O presidente me disse: ‘Mauro, quero renovar seu contrato por mais quatro anos’. Ele fez isso mesmo sabendo que eu não poderia mais voltar a jogar. Esse gesto dele me marcou demais”, afirmou.
Tudo isso pesou para ele negar uma tentadora oferta do Real em 2000.
“Mas eu tinha uma dívida de gratidão muito grande com o clube e uma relação com os torcedores que extrapolava qualquer coisa. Tinha muita identificação pela torcida e pela cidade. É meio inexplicável”.
Perda do pai e começo no futebol
Criado no Riacho Grande, em São Bernardo do Campo, Mauro mudou-se aos 12 anos para Monte Alegre depois que o pai, funcionário da Ligth, faleceu em um acidente na represa Billings.
Ele começou no futebol na cidade e passou pela base do Serra Negra antes de ir para o Guarani, no qual se profissionalizou. Depois, foi para o Bragantino, no qual foi campeão Paulista e vice brasileiro.
Com o destaque e as convocações para a seleção braseira, o volante foi comprado pelo La Coruña, recém-promovido á elite espanhola após 19 anos.
“Quando chegamos nosso objetivo era permanecer na elite e jogar os torneios da Uefa. Nós conseguimos seis títulos: uma LaLiga, duas copas do Rei e três Supercopas da Espanha. Jogamos cinco edições de Champions League e chegamos a uma semifinal em 2004”.
Mauro ficou na equipe até 2005, quando resolveu pendurar as chuteiras.
“Assim que saí do La Coruña e voltei ao Brasil tive propostas do São Paulo e do Corinthians. Eu de criança eu tinha simpatia pelo são Paulo e eram propostas interessantes de dois times grandes do Brasil. Acho que o torcedor brasileiro poderia achar que estava voltando o Mauro Silva campeão do mundo de 94, que já não existia mais. Eu tinha quase 38 anos”.
'Poderia jogar posicionado no meio, mas em algum lance ia pegar um moleque de 18 anos e comprometer. Achei que não valia a pena porque quanto maior a expectativa, maior é a decepção”, contou.
Atualmente vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, Mauro Silva ainda segue ligado ao clube no qual é ídolo.
“Sou meio sentimental, acho isso importante. A performance esportiva é legal, mas receber tantas demonstrações de carinho e respeito toda vez que volta à Coruña é especial. Esse ano fui convidado pelo acionista Ignazio Bezerra para ser o presidente do clube. Isso é fruto da relação”.
