Eu acompanhei a final da Copa do Mundo de 1994 em casa, ao lado de meu pai. Tiago era um sexagenário, feirante aposentado, sem muita paixão pelo futebol.
Eu estava voltando de uma viagem pelo interior de Minas Gerais e Bahia, percorrendo um caminho paralelo ao Rio São Francisco. Ganhei uma folguinha para torcer pelo Brasil diante da Itália.
Confesso: torci e não sofri.
O time de Carlos Alberto Parreira era tão compacto que a gente tomava poucos sustos. Até a final, o Brasil sofreu gols contra a Suécia (1) e Holanda (2).
Contra a Itália, no domingo dia 17 de julho, no Rose Bowl de Pasadena, num calor de 40 graus, o Brasil colocou à prova seu sistema defensiv .
Os dois, pai e filho, estavam meio mornos com relação ao jogo.
Os tempos eram outros. Joseph Blatter era apenas o secretário geral que falava vários idiomas, inclusive português e atendia os telefonemas que eu dava para a Fifa em Zurique, sempre com bom humor. Ainda era vassalo do rei Havelange. O presidente da CBF era Ricardo Teixeira, o filho que o homem mais poderoso do planeta bola não teve. Pelé comentava na TV Globo formando dupla com Galvão Bueno. Ayrton Senna tinha morrido em um acidente em Imola, Itália. E a seleção não arrancava suspiros. Não tomava gols, sofria pouca pressão de adversários e foi avançando até encarar os italianos, que chegaram até ali a trancos e barrancos. Foi o confronto de dois países tricampeões mundiais.
Para mim, o zero a zero no tempo normal e na prorrogação só reforçou a sensação de que o Brasil ficou muito forte depois que Mauro Silva, Dunga e Mazinho compuseram o meio de campo tendo apenas Zinho como meia de ligação. Nos pênaltis, 3 a 2 para a seleção brasileira.
Deste jogo final eu lembro de três lances. Um deles foi a chance desperdiçada por Romário já na prorrogação, quando não conseguiu empurrar a pelota vinda da direita para dentro do gol. Outra foi a jogada individual de Viola que passou por três adversários sem achar brecha para chutar. Se fizesse o gol, entrava para a história como grande predestinado.
A terceira jogada foi, para mim, a mais importante. No segundo tempo, Mauro Silva acertou um chute da meia direita, a bola fez uma curva, o goleiro Gianluca Pagliuca tentou encaixar e ela escapou indo bater na trave direita do gol da Itália. O arqueiro, o primeiro da história a ser expulso numa Copa do Mundo, ainda tocou no poste e deu um beijinho agradecendo a ajuda.
Lamentei o azar do Mauro. Uma cara que se encarregou de deixar os zagueiro Aldair e Márcio Santos mais felizes durante a Copa do Mundo. Ele marcou muito e, ao lado de Dunga, evitou que a seleção passasse a imagem de uma equipe frágil. Se tinha problemas na armação para o ataque é porque o futebol brasileiro na época carecia de ótimos meias.
Para contar esta história resolvi ligar para o Mauro Silva, hoje vice presidente da Federação Paulista de Futebol e nome de rua em La Coruña.
Nossa conversa foi assim:
LB - Mauro , você lembra daquele chute que bateu na trave?
Mauro Silva – Lembro de quase tudo. Eu acho que recebi do Mazinho e chutei para o gol. Fui acompanhando a bola e achei que ela foi meio centralizada. Eu poderia mandar mais no canto. Aí eu vi o Pagliuca tentar encaixar, a bola escapou e bateu na trave.
LB – Você viu quando o Pagliuca agradeceu ao poste?
Mauro Silva – E você acha que eu não ia olhar? O Brasil não ganhava uma Copa do Mundo há 24 anos, era o segundo tempo da prorrogação, eu tinha que olhar. Fiquei no lance até o fim.
LB - Seria um gol importante.
Mauro Silva - Até hoje eu torço para a bola entrar. Mas ainda bem que ganhamos nos pênaltis e este gol não fez falta. Se não, eu estaria lamentando até hoje.
LB – Eu lamento. E também torci para o Viola fazer aquele gol.
Mauro Silva – Ele foi incrível! Entrou muito bem na prorrogação, mudou o jogo. Achei que ele poderia ter chutado, mas serviu o Romário. Pena que a bola foi para fora. O Viola entrou muito bem.
LB – Agora, eu não tenho uma lembrança de ter sofrido muito na final. A Itália teve uma grande chance com o Baggio, mas de resto eu ficava tranquilo.
Mauro Silva – Tem um lance na primeira etapa em que não cheguei a tempo para desarmar o Massaro e ele entrou pela direita. O Taffarel defendeu o chute.
LB – Foi um jogo em que você temia perder?
Mauro Silva – O time da Itália era muito bom. Para mim tinha a melhor zaga do futebol italiano e mundial com Baresi e Maldini. Tinha Donadoni, Baggio e Massaro. Era um time forte. Se a gente tomasse um gol,nosso time ia penar para virar. Eram dois super times em campo, Se a gente faz um gol antes, de repente a Itália se abriria e a gente tiraria da zona de conforto deles. O futebol italiano gosta de ir especulando durante o tempo todo, aproveitando brechas.
LB – Uma coisa que senti como telespectador nesta Copa foi a falta de sustos que levei com este time do Brasil.
Mauro Silva – A seleção jogava compacta. Depois, Copa do Mundo é diferente de qualquer torneio. Você não pode perder porque não recupera depois. É um torneio muito difícil.Por isso, o Brasil estava sem ganhar há 24 anos. E vai disputar a próxima Copa com 20 anos sem título mundial.
LB – E o time ficou mais compacto quando Mazinho entrou no lugar do Raí?
Mauro Silva – Ficou porque o Mazinho, que era um grande jogador, tinha mais característica de volante e não de meia. O Raí exercia liderança e era um dos homens de criação. Mas ele ficou dois anos sem férias. Ele precisava estar bem fisicamente para desempenhar todo futebol dele.
LB - Com Mauro Silva, Dunga e Mazinho, sobrou para o Zinho armar e dar posse de bola? Lembro que ele até ganhou apelido de enceradeira por conta do drible que ele dava rodando e nem sempre para a fremte.
Mauro Silva - Você tem que entender que a gente tinha uma seleção com ótimos atacantes: Bebeto, Romário, Viola, Muller e o Ronaldo Fenômeno. O Evair, que não foi convocado, era muito bom. Mas a gente não tinha meias como Djalminha e Ronaldinho Gaúcho. Com três volantes, o Zinho ficou sobrecarregado na criação. Mas ele jogou uma grande Copa. E o Mazinho foi esplêndido.
Feliz com este papo com o Mauro Silva, me animei a tentar trocar letras com o Viola.
Mandei o seguinte zap:
[14:16, 25/04/2020] Luciano Borges: Alô Viola, boa tarde
[14:17, 25/04/2020] Luciano Borges: Querido queria fazer uma pergunta sobre a final da Copa do Mundo de 1994. Vc me ajuda? [15:50, 25/04/2020] Luciano Borges: É sobre a jogada em que vc se livrou de três adversários e por pouco poderia ter chutado. mas fecharam a frente e vc passou para o Romário
[15:51, 25/04/2020] Luciano Borges: Ali, vc pensou em chutar em gol?
[15:51, 25/04/2020] Luciano Borges: Porque se tivesse dado certo seria o golaço numa final na porrogação. Já pensou?
Se pensou, não saberei por um tempo. Ele leu e não respondeu. Pena.
PS: Tenho na memória que meu pai, Tiago, ficou mesmo impressionado com um homem-foguete que voou em Chicago na cerimônia de abertura. Mas não me lembro se alguém voou por lá. Recordo da Diana Ross.
*Luciano Borges é jornalista há mais de quatro décadas, cobriu várias Olimpíadas e Copas do Mundo, já trabalhou em Folha de S. Paulo, TV Globo, Band, entre outros veículos, e já há alguns anos está na ESPN Brasil
