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Copa de 94: Entre a maldição e a vingança, Dunga foi um dos maiores nomes do Tetra

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5 golaços emblemáticos de Romário com a camisa do Barcelona (1:41)

O Baixinho marcou 39 gols em 65 jogos no time catalão | via YouTube: FC Barcelona (1:41)

Dezessete de julho de 1994. Pasadena, Estados Unidos.

O relógio marca pouco mais de meio-dia. Sob sol forte, amarelos e azuis adentram ao Rose Bowl. Os amarelos chegam de mãos dadas, em uma fila puxada por um jogador de cara séria e cabelos arrepiados. Seu nome é Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga, capitão da seleção brasileira que derrotaria a Itália nos pênaltis naquela tarde e conquistaria seu quarto título da Copa do Mundo. Mas até chegar ao tetra, aquele jogador puxou outra fila, quatro anos atrás: a da “Era Dunga”, quando foi apontado, no Mundial disputado justamente na Itália, como símbolo da derrota e de um futebol pragmático. A vingança também pode ser uma taça que se levanta aos gritos e xingamentos. Ao seu estilo.

Sebastião Lazaroni era o técnico da seleção na Copa de 1990, que venceu sem brilho os três jogos na fase de grupos. Após derrotar a Costa Rica com gol solitário de Müller, o Brasil encararia uma oscilante Argentina nas oitavas. Quem assistiu ao primeiro tempo daquela partida não imagina como o Brasil não avançou. Foi disparada a melhor apresentação da seleção no Mundial. Sucessivas bolas na trave do goleiro Goycochea. Uma delas, logo aos 18 minutos, de Dunga. Mas a Argentina tinha Maradona, que em uma jogada de craque deixou Caniggia livre para driblar Taffarel e garantir a vitória por 1 a 0.

Dunga esteve exposto durante toda aquela Copa. Vestindo a camisa 4, ele foi escolhido pela Revista Placar para assinar uma espécie de diário durante o torneio. Lá, expunha todas as expectativas e sua visão sobre as críticas que o time recebia da imprensa e dos torcedores. “É incrível como muita gente ainda não viu que o barato deste time é não deixar a bola chegar ao nosso gol”, chegou a frisar durante o torneio.

A própria Placar e o Jornal do Brasil deram o tiro de misericórdia em suas capas após a eliminação: o paralelo entre a genialidade de Maradona e a ausência do “futebol arte” da equipe brasileira. Dunga não era um novo Barbosa, mas certamente levou, ao lado do treinador, a maior parcela da culpa. Nos livros é comum dividir grandes momentos da história por ‘Eras’. A de Dunga carregava uma crueldade difícil de ser revertida.

Mas a redenção começou pela própria manutenção do volante entre os selecionáveis. E Dunga chegou aos Estados Unidos novamente como capitão, agora trajando a camisa 8. A campanha do Brasil até o tetra teve momentos preocupantes, como o empate contra a Suécia na fase de grupos e jogos bem complicados na fase mata-mata. Mas o time comandado por Carlos Alberto Parreira não era só “joga no Romário e pronto”. A seleção sofreu apenas 3 gols em todo o Mundial, sem ser vazada em cinco dos sete jogos disputados. E grande parte da proteção era liderada pelos incansáveis Mauro Silva e Dunga. Na Seleção das Estrelas eleita pela Fifa em 1994 havia quatro brasileiros. Romário na frente e todos os demais do sistema defensivo: o zagueiro Márcio Santos, o lateral Jorginho e o volante Dunga.

A final contra a Itália, que acabou marcada pela primeira decidida nas penalidades, contou com uma atuação grandiosa de Dunga. Ajudou a anular Roberto Baggio, o craque da Azzurra, e foi completo em desarmes, saídas de bola e lançamentos ao campo de ataque. Um leão em campo, como reza o jargão do esporte. E o capitão fez valer sua faixa e assumiu a responsabilidade de bater o quarto pênalti do Brasil, o último antes de Baggio errar a trave e acertar o infinito. A comemoração esfuziante, repleta de cólera, parecia carregar também a certeza do título que não vinha desde 1970.

Ao levantar a taça da Copa do Mundo, sob o olhar de mais de 94 mil pessoas no estádio, Dunga esbravejou ainda mais, abusando dos ‘palavrões’, sustentando o objeto dourado com raiva. Há quem diga que faltou nobreza diante daquele momento único; há quem acredite que Dunga apenas espantou os fantasmas que teimavam em persegui-lo. O tetra abriu uma nova Era. Ainda de cabelos arrepiados, mas agora com um final feliz.