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Roberto Baggio: o craque budista que é fã de Zico, tem poucos títulos e é bem mais que o pênalti de 1994

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Em aparição há quatro anos, Roberto Baggio mostrou frieza e categoria para fazer gol em jogo beneficente (0:16)

O astro italiano recebeu passe espetacular de Diego Maradona e, com o bom e velho faro de gol, e mandou para as redes (0:16)

Pep Guardiola está eufórico no vestiário do Barcelona naquela tarde de um dia qualquer de 2010. Abraça, beija e acaricia como se aquele homem à sua frente fosse uma divindade. "Foi provavelmente o melhor com quem já joguei", confidencia a Lionel Messi, então um jovem que caminhava para ser uma lenda, como aquele homem.

O homem em questão é Roberto Baggio. Sim, Guardiola jogou ao lado de Stoichkov, Romário, Ronaldo, Rivaldo e outros craques. Não, pelo visto nenhum deles foi capaz de encantar o espanhol como aquele italiano de rabo de cavalo (Il Divin Codino, apelido que carregou durante a carreira), capacidade técnica impressionante e habilidade rara que conheceu já no fim da carreira, no Brescia.

A curta visita ao vestiário do Barça amacia o ego de Baggio. Um ego que, é bom que se diga, talvez nunca tenha sido acarinhado como deveria. Até hoje, tem gente que lembra do craque italiano só pelo pênalti desperdiçado na final da Copa do Mundo de 1994. Mas ele foi mais. Muito mais. Algo que nem aquele erro nos Estados Unidos pode apagar.

"Sem problemas nos joelhos, teria sido o melhor do mundo", disse certa vez Carlo Mazzone, técnico que dirigiu Baggio no Bologna, em 1998, quando o meia-atacante ajudou a equipe a sair dos arredores do rebaixamento, se classificar à Copa da Uefa (atual Liga Europa) e ainda por cima terminar só atrás de Bierhoff e Ronaldo na tabela de artilheiros.

Baggio foi o melhor do mundo, uma só vez. Em 1993, ao levar a Juventus ao título da Copa da Uefa, venceu tanto o prêmio da Fifa como a Bola de Ouro, entregue pela "France Football". Nessa altura da carreira, aos 26 anos, já estava em seu terceiro clube e tinha passado por uma grave cirurgia no joelho direito.

Revelado pelo Vicenza, o craque italiano caminhava a passos largos para crescer no futebol. Admirador dos brasileiros Chinesinho (a quem viu na primeira vez em que pisou em um estádio, no Vicenza) e Zico (com quem foi constantemente comparado), Baggio rompeu o ligamento cruzado em 1985 e ficou um ano parado, o que adiou a estreia na elite do Campeonato Italiano, mas lhe abriu os olhos para a religião.

No momento de maior dificuldade da vida, quando chegou até a pedir à mãe que o matasse tamanha a dor no joelho, Baggio conheceu o budismo. Converteu-se e levou a fé para a carreira inteira, como explicou certa vez, em uma entrevista em 1995.

"Eu precisava de um ponto de referência forte, mas não encontrei ninguém que me encorajasse, que me dissesse que eu conseguiria chegar lá. O budismo favorece a vitória contra os obstáculos do dia a dia, é uma força que nasce dentro de mim e me ajuda a ser mais calmo e a fazer ser mais amado pelo próximo", disse.

Já convertido, estreou com gol pela Fiorentina, que havia bancado sua contratação mesmo após a lesão, em 1986. Brilhou muitas outras vezes, como no hat-trick contra o Napoli de Diego Maradona, em março de 1987, e na campanha que acabou com o vice-campeonato da Copa da Uefa, em 1990. O título ficou com a Juventus, onde Baggio se mudou quase que forçadamente na temporada seguinte.

A paixão pela Fiorentina e a vontade de ficar era tanta que, na primeira visita ao ex-clube no Artemio Franchi, Baggio recusou-se a bater um pênalti e ainda saiu de campo com um cachecol viola, atirado por um torcedor direto da arquibancada. A torcida da Juventus, claro, torceu o nariz para o reforço de 19 milhões de dólares. Mas não por muito tempo.

Foram cinco anos em Turim, 116 gols em 200 jogos e três de seus míseros quatro títulos na carreira: Copa da Uefa em 1992-93, Campeonato Italiano e Copa Itália em 1994-95. Conquistas que amenizam a dor pela perda da Copa de 1994, onde Baggio fez bem mais do que perder o pênalti que garantiu o tetra ao Brasil.

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Afinal, se não fosse por ele, é certo dizer que a Itália nunca chegaria à final em Pasadena. Após uma primeira fase ridícula, em que se classificou atrás de Irlanda e México, a Azzurra despertou graças a seu camisa 10. Baggio fez os dois gols contra a Nigéria nas oitavas, outro contra a Espanha nas quartas e ambos contra a Bulgária na semifinal.

Chegou à decisão contra o Brasil desgastado e prejudicado por uma lesão sentida no jogo anterior. Atuou no sacrifício, teve duas chances no tempo normal e depois ficou marcado pela cobrança por cima do gol. Em sua autobiografia, Baggio tentou explicar o lance que nunca mais saiu da sua cabeça.

"Quanto ao pênalti, não quero me gabar, mas só errei alguns na minha carreira. E eles foram porque o goleiro chutou, não porque eu errei o alvo. Quando fui para a marca da cal, estava bem lúcido. Sabia que Taffarel sempre pulava para um canto, então tentei chutar no meio, a meia altura, para ele não poder pegar com os pés. Foi uma decisão inteligente porque Taffarel foi para a esquerda e nunca teria defendido o chute do jeito que eu havia planejado", disse.

"Infelizmente, a bola subiu uns três metros e foi por cima do travessão. E sobre bater o pênalti, eu era o batedor oficial. Nunca fugiria das minhas responsabilidades. Só aqueles que têm coragem de bater um pênalti erram. Eu fracassei dessa vez. Ponto. E me afetou por anos. Foi o pior momento da minha carreira. Eu ainda sonho com isso. Se eu pudesse apagar um momento da minha carreira, seria esse".

Não apagou e seguiu a carreira. Sacado da Juventus para não intimidar a ascensão de Del Piero, passou a peregrinar por clubes italianos. Passou dois anos no Milan, onde venceu o seu quarto e último título (o Scudetto de 1995-96), fez uma temporada marcante no Bologna, que lhe garantiu a convocação para a Copa do Mundo de 1998, mais dois anos difíceis e cheios de lesões na Inter de Milão e outros quatro no Brescia, onde atuou com Guardiola.

Finalizou sua carreira sendo aplaudido de pé no San Siro, após uma derrota do seu Brescia para o Milan, em 2004. Com um cartel de 305 gols, sendo 205 somente na Série A, Roberto Baggio é até hoje aclamado como um dos maiores talentos que a Itália já produziu. Algo que nem os poucos títulos e as muitas lesões podem apagar.

Nem mesmo o pênalti de 1994.

"Nunca havia cobrado um pênalti por cima do gol. Acho que foi o (Ayrton) Senna que puxou aquela bola para o alto. É uma ferida que nunca vai se fechar. Sempre sonhei disputar uma final de Copa do Mundo e o rival dos meus sonhos era o Brasil. Quando tive a oportunidade, desperdicei aquele pênalti. Na hora, quis cavar um buraco para me esconder. Depois, pensei que, como o Brasil tem muito mais habitantes que a Itália, eu fiz mais gente feliz com aquela cobrança", disse, em entrevista à "TV Globo" em 2010.