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Telê Santana armou 'eleição surpresa' para decidir próprio futuro no São Paulo e escalou jornalistas como fiscais

Há 14 anos, Telê Santana faleceu devido a uma falência múltipla dos órgãos. A trajetória do maior técnico da história do São Paulo durou mais de cinco temporadas e só acabou após o técnico sofrer uma isquemia cerebral no começo de 1996.

Mas se dependesse da vontade do treinador, ela poderia ter terminado de uma forma quase inédita no futebol brasileiro.

O time vivia uma fase de transição após ter vencido dois Mundiais Interclubes, duas Libertadores, um Brasileiro e o Paulista. O clube gastava muito dinheiro na reforma no Estádio do Morumbi e não conseguia repetir o sucesso dos anos anteriores mesmo com um elenco que mesclava alguns remanescentes como Zetti e Toninho Cerezo com jovens como Denílson e Caio Ribeiro.

As informações na imprensa de que a diretoria do São Paulo queria trocar de técnico ou de que Telê iria se aposentar eram cada vez mais frequentes. O 'Mestre' sofria um desgaste com parte dos jogadores por seus métodos rígidos e já não apresentava a mesma energia de outros tempos, porém, era impossível demitir o maior treinador da história do clube.

Mesmo em baixa, ele gozava de 84% de aprovação da torcida, segundo pesquisa de uma rádio à época. Irritado com essas conversas, na manhã fria do dia 11 de setembro de 1995, ele resolveu fazer um estranho plebiscito, nos moldes do programa "Você Decide", sucesso à época na Rede Globo.

"Telê chegou mais cedo, como de costume, rodando o apito no dedo e colocando plaquinhas nos campos. Nós setoristas do São Paulo sempre chegávamos antes dos treinos porque era o melhor momento para tirar informações e conseguir as melhores histórias. Quanto mais cedo, maiores as chances de ter matérias diferentes", conta o jornalista Arnaldo Ribeiro, então repórter da Folha de S. Paulo.

Desta vez a situação foi bem diferente, Telê não quis conversa com ninguém e se reuniu com os jogadores no centro do campo 1 do CT da Barra Funda, com os repórteres esperando à beira do gramado. "Ele pediu aos funcionários para levarem uma 'urna' e uma caneta com vários papeizinhos em branco", contou o ex-goleiro Zetti.

Telê foi até os setoristas e convidou alguns, entre eles estava eu e o Wladimir Miranda [Diário Popular], para acompanhá-lo até onde estavam os atletas. "Ele falou para os jogadores: 'Trouxe aqui os jornalistas que cobrem o São Paulo direto para serem nossos fiscais, já que estão falando muito que tem gente querendo que eu saia, mas estou muito tranquilo e aceito. Se tiver maioria simples eu saio, estou aqui há muito tempo, estou desgastado e tenho minha família para cuidar", relembrou Ribeiro.

"'Eu quero saber se isso é coisa da imprensa ou de vocês. Vou organizar uma votação secreta e vocês escreverão nos papéis assim: Telê fica ou Tele sai. Vocês estão em 33 pessoas, e se der mais da metade pego minhas coisas e vou embora'. Eu ia abrir a urna e ser um dos apuradores e alguns jogadores até pegaram o papel para votar (risos)", disse o jornalista.

"A gente ficou constrangido, até porque não seríamos nós quem iríamos decidir isso, tinha uma diretoria para tomar essa decisão. Foi um choque, eu era o capitão do time e nunca tinha visto isso. Todo mundo quieto, então eu levantei da roda e dei um toque no Toninho Cerezo, que pediu licença e foi falar com o Telê separadamente", contou o ex-camisa 1 do Morumbi.

O então auxiliar técnico Muricy Ramalho ficou estupefato ao lado dos jornalistas que aguardavam ansiosamente a conversa do jogador mais velho do elenco com seu comandante.

"Dava para ouvir a conversa assim: 'Ô mestre, não faz isso, essa história não tem cabimento, estamos todos com você. não tem necessidade de fazer uma coisas dessas, ainda mais envolvendo a imprensa'. Ele ficou uns 10 minutos conversando com o Telê (risos)", conta Arnaldo.

Além de ser o jogador mais experiente do elenco, o meio-campista tinha uma enorme gratidão pelo treinador que tinha pedido sua contratação para o time paulista em 1992, após longa passagem pela Europa.

"Ele não queria expôr o Telê, imagina se ele sai derrotado nas urnas, como seria?", disse Ribeiro. Toninho conseguiu convencer o treinador a mudar de ideia, e a 'Democracia são-paulina' durou apenas alguns minutos.

"Foi a única vez que vi isso no futebol, mas ia dar mais confusão que uma democracia (risos). Conseguimos contornar a situação e não tivemos a votação, ainda bem", analisou Zetti.


Reportagem publicada dia 9 de setembro de 2015.