'Era como se eu fosse hoje irmão de Neymar ou Messi': Raí relembra pressão por comparações com Sócrates

Muito antes do Paris Saint-Germain aparecer no futebol mundial como um dos clubes mais ricos e obcecados pela conquista da Champions League, havia uma equipe que tentava firmar sua grandeza em território local e buscava talentos em ascensão. Foi assim que Raí chegou ao clube em 1993, após ser o protagonista das conquistas da Copa Libertadores e do Mundial de Clubes no São Paulo.

O são-paulino teve uma trajetória marcante no PSG a ponto de ser ovacionado no jogo que marcou sua despedida do clube, em um lotado Parque dos Príncipes, em abril de 1998, na derrota para o Monaco por 2 a 1. A emoção foi tão grande que o jogador chorou.

Mas o que poucos sabe é que o brasileiro sofreu muito nos seus primeiros seis meses na França. O corpo e a mente, segundo ele disse em entrevista ao jornal “L’Equipe”, não estavam em perfeita sintonia após uma maratona com o São Paulo. A insistência custou caro.

Raí disse que apesar disso jamais pensou em desistir da França, pois carregava consigo uma outra experiência. Essa sim de anos antes, quando abandonar em largar o futebol por se sentir injustiçado quando o comparavam ao irmão Sócrates, craque do Brasil nos anos 1980.

“Era como se eu fosse hoje irmão de Neymar, de Messi. Quando eu era jovem, pensava em parar porque queria me divertir e isso me pressionou. Mas foi aí que vi que gostava de desafios”, disse ao "L'Equipe".

Na longa entrevista dada ao jornal francês, Raí relembrou os momentos mais importantes e difíceis no PSG, os técnicos e explicou porque valeu a pena defender a equipe francesa por cinco temporadas. Confira abaixo as principais respostas:

PSG mudou muito. Já Raí...

“Sim, tento não envelhecer demais [risos]. E toda vez que venho aqui, sinto o mesmo reconhecimento, o mesmo respeito.Naquela época, tínhamos meios mais limitados, mesmo que tivéssemos uma ótima equipe. Agora é outro dono, outra realidade, e é difícil comparar. Não imaginávamos um time que tivesse quinze ou dezesseis internacionais. É preciso pelo menos isso para reivindicar acesso ao nível mais alto hoje”

Momentos marcantes

“As quartas de final da Champions League contra o Barcelona (1 a 1 na primeira mão; 2 a 1 no jogo de volta), em 1995, e as semifinais (derrotas por 1 a 0 e 2 a 0 para o Milan). O jogo contra o Bucareste, em 1997, revertendo uma situação complicada. A festa em Paris após a [conquista da] Recopa Europeia. E o último jogo no Parque dos Príncipes. Ainda havia duas finais da Copa a serem disputadas no Stade de France, mas a despedida ali ainda é mágica”

Início complicado

“Isso tornou a história ainda mais forte. Porque no começo nós tivemos um drama [risos]. Quando cheguei lá, fiz duas ótimas apresentações. Mas saí de dois ou três anos sem férias, de uma série de partidas internacionais que tinham durado meses. Eu estava cansado fisicamente e mentalmente. Eu não estava pronto para enfrentar essa expectativa. Para o público, eu era o jogador que havia batido o Barcelona pelo São Paulo [em 1992, no Mundial Interclubes]. Eles esperavam o melhor jogador do mundo. Mas na minha cabeça eu não estava pronto”

Faltou maturidade

“Fiquei cego pela emoção ao chegar. Eu não percebi. Não era como hoje, onde a ciência nos permite ver quando o corpo está em forma ou não. Lembro que Artur Jorge [técnico do PSG entre 1991 e 1994] me perguntou se eu queria descansar. Ele não me tirou do time para descansar porque havia a Copa do Mundo logo depois. Eu era capitão da seleção, ele disse a si mesmo: se eu o trouxer, as pessoas no Brasil comentam, imaginam o que está acontecendo. Estou certo de que, se fosse hoje, eu descansaria um mês, acataria gentilmente, para voltar mais forte. Na época, eu não tinha essa visão, estava muito empolgado. Eu era o capitão do Brasil, que não ganhava a Copa do Mundo há vinte e quatro anos, era muita pressão”

A salvação

“Meu comportamento Não falei muito, fui respeitoso, molhei a camisa. As coisas não estavam funcionando, mas os fãs e meus companheiros de equipe viram que eu estava me jogando em campo, em treinamento, para retornar ao mais alto nível. Em um ponto, eu sabia que ia voltar. Quando encontrei alto desempenho, as pessoas duvidaram do meu sucesso”

Oposto de Sócrates

“Ele estudou medicina até os 24 anos de idade, sempre teve outra carreira quando o futebol possibilitou. Ele gostava de tocar, ele era um gênio. Eu não. Eu era pai aos 18 anos, decidi me casar e o futebol se tornou a fonte de renda para minha família. Não tive a chance de experimentar essa vida um tanto boêmia. Tornei-me um atleta de verdade quando Sócrates ainda estava no limite. Ele não estava em todos os aspectos, mas foi decisivo nas ações de que precisava."

Apelido dado por Sócrates

“Ele me chamava de ‘pivete’. Não sei se existe um equivalente em francês. Se diz para um garoto de rua, mas é uma maneira afetuosa de designar seu irmãozinho. Lembro-me de uma vez que um companheiro de equipe lhe disse: ‘Doutor, pare de beber, você está fazendo um mal para si’. Ele respondeu com uma risada: ‘Eu sei qual doença vai me matar morrer, você ainda não sabe’”

Após os jogos

“Depois das partidas, em São Paulo, tínhamos um bom grupo de amigos e saíamos com frequência. Aqui também. Ricardo, Valdo, Vincent Guérin, Bernard Lama, [David] Ginola, muitas vezes saímos com nossas mulheres. Também bebíamos um pouco de vinho, mas tentávamos beber na hora certa [risos]. Eu realmente descobri vinho tinto e champanhe durante o primeiro jantar para o qual fui convidado em Paris. Foi na casa de Daniel Bravo, vieram cinco e seis jogadores, e foi aí que esse acordo entre nós começou”

Diferença de treinador no PSG

“Ele não insistiu nos mesmos pontos que meus treinador no São Paulo. Nos últimos quatro anos, eu fui treinador por Telê Santana, o lendário técnico do Brasil de 1982 e 1986, aquele que nos fez sonhar. Havia um estilo do Telê Santana, que era muito ofensivo. Quando você vem aqui com Artur Jorge, é um pouco diferente [risos]. Sua vocação era mais defensiva. Tínhamos grandes jogadores pela frente, mas menos opções, liberdade para trocar. Havia mais bolas longas do que no Brasil, onde começamos com pequenos passes”

Desistir e voltar ao Brasil

“Nunca. Eu conhecia meu potencial, sabia que ficaria mesmo que fosse difícil de viver. Quanto mais o tempo passava, melhor eu me sentia. Então, eu realmente não pensei nisso. Já quando eu era muito jovem, eu tinha que ir além dessa comparação com Sócrates. No Brasil, era como se eu fosse hoje irmão de Neymar, de Messi. Quando eu era jovem, pensava em parar porque queria me divertir e isso me pressionou. Mas foi aí que vi que gostava de desafios”

Pior momento esportivo

"A lesão na final da Copa da França [de 1996] e os poucos jogos no início, onde saí sob vaias do Park. Foi o começo, as pessoas ainda não me conheciam. Foi difícil. Na final da Copa, eu me machuquei após dez minutos, quando consegui fazer ótimas partidas ao longo de todo o percurso e Sócrates chegou para ver a final. Meus cinco irmãos estavam lá e me machuquei: foi decepcionante”

Melhor momento esportivo

“A festa de adeus”

Um título em cinco anos

“Foi outra época. Era mais equilibrado, mas poderíamos ter, deveríamos ter conquistado mais títulos. Pelo menos dois outros que deixamos escapar, porque tivemos períodos complicados na temporada”