Foi uma assinatura de Delfim Neto, então ministro da Fazenda, que liberou o início das apostas em partidas de futebol nacional e internacional no Brasil por meio da recém-criada Loteria Esportiva, nome que fez muitos brasileiros sonharem em se tornarem ricos do dia para a noite. O concurso de estreia foi em um domingo, como este 19 de abril, há cinquenta anos.
A influência do jogo legalizado acabou sendo maior do que o previsto e influenciou em outros aspectos da nossa cultura. Inspirou a criação de uma mascote para a loteria e também para um clube brasileiro, que foi a aclamada zebra, acabou mudando a cobertura de campeonatos pelas rádios esportivas e resultou em um dos maiores escândalos esportivos do país.
Abaixo, separamos momentos que marcaram a trajetória da Loteria Esportiva no Brasil.
Ditadura e futebol
O ministro da Fazenda, Delfim Neto, assinou a portaria regulamentando o funcionamento da loteria esportivo em 25 de março de 1970. Pode parecer estranho que o primeiro prêmio só ocorreu quase um mês depois, mas a verdade é que o atraso já estava quase completando um ano.
O decreto-lei instituindo a loteria esportiva foi assinado em 27 de maio de 1969 pelo então presidente Artur Costa e Silva, o segundo a ocupar o cargo durante a Ditadura Militar no Brasil. Demorou pela necessidade de a Caixa Econômica Federal regularizar e credenciar agências que seriam autorizadas a fazer a venda e a manipulação das cartelas dos jogos.
A criação da loteria naquele momento tinha diferentes objetivos para o governo militar, embora tenha sido colocada como parte do plano de incentivo do governo ao esporte nacional.
É um detalhe importante no contexto da criação da loteria. Entre as estratégias de comunicação dos militares, fazia parte impulsionar o esporte para que ao seu sucesso fosse creditado aos líderes da nação. O triunfo da Copa do Mundo de 1970 é um exemplo mais conhecido.
A instituição da Loteria Esportiva também acabou por fortalecer a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), que seria desmembrada em 1979 para a criação de confederações para cada um dos esportes. Parte da verba arrecada pela loteria ia para os cofres da CBD, depois CBF.
“Povo rico”
Os jornais da época dizem que, ao anunciar a criação da loteria esportiva, o presidente Artur Costa e Silva fez um anúncio empolgado, dizendo que tinha chegado a hora de o “povo ficar rico”.
De fato, a premiação era empolgante. Quem fizesse 13 pontos, ou seja, tivesse 100% de acerto naquele jogo inaugural, seria contemplado com uma premiação de 200 mil cruzeiros novos, algo equivalente a R$ 1,3 milhão nos dias atuais, já com a inflação corrigida.
Ninguém fez os 13 pontos (leia abaixo o por quê), mas a Loteria Esportiva acabou “viralizando”. Com o tempo a premiação subiu, chegando o prêmio maior valer 10 milhões de cruzeiros (R$ 68,4 milhões), embora fosse admitido vencedores que fizessem no mínimo nove pontos.
Zebra no jogo de estreia
O jogo inaugural da loteria esportiva foi disponibilizado apenas para o Estado da Guanabara (Rio de Janeiro). Embora oficial, ele foi feito assim para servir como teste para a Caixa Econômica.
Os 13 jogos listados (veja imagem abaixo) contemplavam duas partidas pelo Estadual do Rio de Janeiro, dois do torneio de juvenis do Rio, quatro do Campeonato Paulista, uma partida do Gaúcho, uma do Mineiro e uma do Paranaense, além de dois jogos do Campeonato Português.

Ninguém conseguiu fazer os 13 pontos. Tudo por causa de uma zebra.
O Esportivo derrotou o Grêmio por 1 a 0, no estádio Montanha dos Vinhedos, gol de Décio, em partida pela fase preliminar do Campeonato Gaúcho. Alguns argumentaram que não chegou a ser um “zebra legítima” porque os gremistas estavam com uma equipe reserva.
Mesmo assim, foi o suficiente para o time Bento Gonçalves adotar uma zebra como mascote. Um animal já comum como sinônimo de “surpresa” em jogos de azar. A referência era tão forte que uma zebra foi incluída dentro da exibição do “Fantástico”, da TV Globo, a partir de 1978, durante o quadro em que eram apresentados os resultados da Loteria Esportiva. Quem fazia a leitura era o jornalista Léo Batista. Quando aparecia uma zebra, a mascote dizia “Ah, olha eu aí”.
Mais testes e um ganhador
Depois daquele jogo inaugural, ocorreram outros pelo país, mas também em caráter de teste. O concurso nacional oficial foi apenas em 7 de junho de 1970.
Dois meses depois, uma surpresa. O maquinista Jovino Viriato de Campos acertou sozinho os 13 jogos da Loteria Esportiva e faturou prêmio de 2,9 milhões de cruzeiros (R$ 18,7 milhões).
Jornada esportiva
Outra coisa bem curiosa relacionada a Loteria Esportiva é que a inclusão de partidas que não faziam parte do “cardápio principal” das competições modificou a cobertura da imprensa.
Foi o início da jornada esportiva nos rádios, noticiando resultados de partidas entre equipes pequenas do próprio Estado ou de outros. Além de dar resultados de fora do país.
A revista “Placar”, já referência como publicação esportiva, passou a incluir em suas páginas guias para orientar os torcedores/apostadores na hora de escolher em qual coluna marcar o “x”.
Esse era outro detalhe. O jogador não tinha dificuldade em manejar a cartela da loteria. As 13 partidas apresentadas continham três colunas cada uma. A coluna da esquerda representava vitória do mandante, a do lado direito era para o visitante. A coluna central significava empate.
Máfia da Loteria
Mas nem tudo foi positivo na vida da Loteria Esportiva. Em 1982, a “Placar” descobriu um escândalo de manipulação de resultados para influenciar a premiação.
A capa da edição de outubro daquele ano tornou-se inesquecível. Sob um fundo preto, a chamada: Exclusivo. Desvendamos a Máfia da Loteria Esportiva”. Dentro uma reportagem de 12 páginas, fruta da investigação de dois anos do jornalista Sérgio Martins.
Uma denúncia completa, em que entrega arranjos feitos entre empresários, dirigentes, jogadores, árbitros, entre outros, que ele escreveu serem peritos em “fabricar zebras”. Eram 125 pessoas delatadas, mas ninguém foi indiciado ou punido nos meses que se passaram.
A revista acabou sofrendo um prejuízo grande com os processos e indenizações. Já a loteria esportiva caiu em descrédito e passou a viver a pior fase desde a criação.
Fim
Em 4 de setembro de 1989, a loteria esportiva teve seu último concurso. Ela já havia passado por mudanças ao longo dos anos 80 para tentar sobreviver. Não funcionou.
Cada vez mais em descrédito, passou a dar prejuízo e sumiu do mapa.
Retornou ao mercado em 1994, mas não conseguiu emplacar. Ainda foi envolvida em outras polêmicas. Como as premiações ao ex-deputado João Alves, noticiadas com frequência na “Folha de S.Paulo”, com chamadas como “ajuda de Deus”.
O ex-deputado chegou a ser investigado na CPI dos Anões do Orçamento com outros 37 parlamentares por suposto envolvimento em fraudes no orçamento nacional. Para não ter o mandato cassado, renunciou. Ao ser ouvido, disse que o patrimônio levantado foi com a “sorte dada por Deus em vencer tantas vezes a Loteria Esportiva”. Foram 221 premiações.
A premiação sobreviveu até 2002, quando foi extinta após 1.390 concursos realizados.
