Matéria publicada originalmente em 26/02/2019
Para os fãs de esporte de Brasil, quando El Clásico é jogado na casa do Real Madrid, é difícil não lembrar da histórica partida do dia 19 de novembro de 2005, quando Ronaldinho Gaúcho só não fez chover no estádio da capital espanhola.
Nesse dia, o então camisa 10 do Barcelona, simplesmente humilhou o adversário, fazendo dois gols antológicos na vitória catalã por 3 a 0 e forçando a torcida dos blancos a aplaudi-lo de pé em pleno Bernabéu, em uma cena única e que ficou eternizada.
14 anos depois desse confronto, a ESPN conversou com o pentacampeão do mundo Edmílson, que foi titular do meio-campo naquele dia, e descobriu grandes histórias de bastidores sobre a partida.
Confira algumas:
O ENTREVERO ENTRE R10 E LUXA
Entre 2004 e 2006, Ronaldinho vivia o auge de sua carreira, e parecia imparável. Sua alegria de jogar era contagiante, e o sorriso nunca saía de seu rosto. A motivação para atuar ao lado de craques como Xavi, Deco, Iniesta, Messi, Eto'o era claramente enorme para o Gaúcho.
No entanto, naquele 19 de novembro, ele entrou em campo no Santiago Bernabéu ainda mais elétrico por conta de outro fato: o reencontro com o técnico Vanderlei Luxemburgo, com quem tinha "contas a ajustar".
"Os bastidores desse jogo foram um pouco complicados na época, porque o Roni [N.R.: apelido com que Edmílson costuma se referir a Ronaldinho] teve alguns problemas pessoais com o Luxemburgo alguns anos antes. Se não me engano, foi na seleção brasileira. E quem era o técnico do Real Madrid naquele dia? Justamente o Luxa...", recordou Edmílson.
O entrevero aconteceu em 2000, quando Vanderlei, que havia sido o primeiro técnico a convocar o então destaque do Grêmio para a seleção, em 1999, deu um puxão de orelha público no meio-campista ao dizer que ele estava acima do peso.
Isso ocorreu antes de um jogo contra o Equador, pelas eliminatórias da Copa do Mundo 2002, em São Paulo. Em coletiva, Luxemburgo disse que havia sentido R10 fora de forma, e que portanto o atacante Amoroso seria escalado em seu lugar.
"Isso pode ser uma coisa natural. Mas, no momento, está atrapalhando. Sentimos no treino que ele perdeu mobilidade", justificou Luxa.
A frase do treinador causou revolta no jogador e também na comissão técnica do Grêmio. O técnico Antônio Lopes, por exemplo, criticou Vanderlei abertamente e negou que o Gaúcho tivesse qualquer problema com a balança.
Em entrevista ao iG em 2011, porém, o ex-treinador Candinho, que era auxiliar de Luxa na seleção no período em questão, reafirmou que Ronaldinho estava gordo.
“Ele realmente estava mais gordo. Nós fazíamos um controle durante cada convocação e ele estava com dois ou três quilos acima do peso. O Vanderlei ficou muito brabo”, revelou.
"Não acho que foi desleixo. Ele teve uma folga grande antes de se apresentar e acabou se excedendo. Sanduíche, churrasco, refrigerante, coisa de garoto”, afirmou.
"Foi só um problema daquele jogo, depois ele voltou a ser titular. Fomos nós que chamamos ele pela primeira vez para a seleção", completou, colocando panos quentes.
O fato é que Ronaldinho nunca engoliu aquela entrevista de Vanderlei, e fez questão de mostrar sua fúria naquele 19 de novembro de 2005, no Santiago Bernbéu. Pior para Luxa...
"A gente estava na nossa melhor fase daquele time, jogando num tridente com Ronaldinho, Eto'o e Messi. E naquele dia o Roni estav amais inspirado e pilhado do que nunca (risos). Os caras do Real tinham que marcar os três, ficaram loucos", brincou Edmílson.
O 3 a 0 na casa merengue fez Luxemburgo balançar ainda mais no cargo. Três rodadas depois daquela humilhação, o brasileiro acabaria demitido pelo presidente Florentino Pérez.
'PARECIA UM COMERCIAL'
Segundo Edmílson, o Real Madrid também tinha uma equipe muito boa, mas, nessa época, era impossível marcar o endiabrado trio de ataque do Barcelona.
Naquele dia, os merengues de Vanderlei Luxemburgo jogaram com Casillas; Salgado, Sergio Ramos, Helguera e Roberto Carlos; Pablo García (Júlio Baptista), Beckham e Zidane; Robinho, Raúl (Guti) e Ronaldo "Fenômeno".
Já o Barça de Frank Rijkaard foi de Victor Valdés; Oleguer, Rafa Márquez, Puyol e Van Bronckhorst; Edmílson, Deco e Xavi; Ronaldiho, Messi (Iniesta) e Eto'o.
"Não tinha jeito: se eles marcavam um dos três, sobravam dois, e eles resolviam. Estávamos preparados para fazer um grande jogo no Bernabéu, porque estávamos em um momento bem melhor do que eles. E o Real, mesmo tendo a qualidade de Raúl, Beckham, Zidane e Ronaldo, não era tão equilibrado como a gente", observou Edmílson.
Recordando os aplausos dos torcedores a Ronaldinho, o ex-volante diz que até hoje não acredita direito em tudo aquilo que aconteceu.
"Foi mais ou menos como um atacante do Palmeiras dar um show na Arena Corinthians e quase toda a torcida levantar para bater palmas para ele. Eu nunca vi isso acontecer no Brasil, e acho que nunca verei...", espantou-se.
"No terceiro gol foi algo inacreditável, ele deixa os caras para trás como se não fossem nada. Derrubou o Sergio Ramos, o Helguera e tirou do Casillas com uma facilidade incrível. Isso tudo só no balanço do corpo, nem precisou passar o pé por cima da bola", recordou.
"Para falar a verdade, parecia uma cena de gravação de publicidade de algum patrocinador. Não parecia real (risos)! Em um clássico contra o maior rival, na casa deles, o cara fazer dois golaços e toda a torcida adversária se levantar para bater palmas para ele é coisa de cinema", salientou.
Para Edmílson, aqueles aplausos são algo único na história do futebol.
"É diferente ser aplaudido pela torcida do Getafe, do Sevilla, até do Atlético de Madrid... Ganhar aplausos no Santiago Bernabéu é outra história, até por conta da rivalidade incrível que existe e só aumenta. E eu fico feliz de poder dizer que vi a história sendo feita naquele dia. No fim das contas, eu também faço parte da história de Real Madrid x Barcelona", orgulhou-se.
'NEM FOI O MELHOR JOGO DELE'
Para Edmílson, Ronaldinho é um ponto fora da curva na história do futebol mundial. O ex-meio-campista, aliás, não tem medo de polemizar ao considerar R10 muito melhor que Lionel Messi, apontado por muitos amantes do futebol como o melhor de todos os tempos.
"Ronaldinho viveu três temporadas fantásticas no Barcelona. Ele poderia ter feito uma história própria muito maior do que qualquer outro grande jogador que já existiu, se ele quisesse. Ganhou Copa do Mundo, Champions, mas tinha o mesmo gênio que o Maradona tinha. Aí é coisa pessoal dele. Mas é o cara mais talentoso com quem joguei na carreira. Muito mais talentoso que o Messi", disparou.
"O talento do Roni era coisa natural, raiz, de essência. Eram coisas que ele aprendeu na rua. O Messi é diferente. Ele saiu jovem da Argentina e foi aquele cara construído e melhorado na filosofia do Barcelona", explicou.
"O Eto'o também era muito bom, trabalhava para caramba, mas o Ronaldinho estava no melhor momento da vida dele, era insuperável. Naquele época, ninguém ia chegar perto dele. Não que Eto'o ou Messi não fossem bons, ao contrário. Mas o R10 era um ponto fora da curva", opinou.
Curiosamente, Edmílson diz que a performance histórica de R10 no Bernabéu não foi sequer o melhor jogo que ele viu do dentuço com a camisa do Barcelona.
"Por incrível que pareça, essa não foi a melhor partida que vi do Roni no Barça. Teve um jogo contra o Athletic Bilbao [N.R.: vitória por 3 a 1 do Barcelona, pela temporada 2006/07] em que ele foi ainda melhor, acredite se quiser (risos). Claro que era um time menor, mas também era muito duro. Tem uma coletânea desse jogo no YouTube desse jogo que é um negócio absurdo!", encerrou.
