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Realização de 'sonho', lição de casa na quarentena e questionamentos: David Luiz em entrevista exclusiva à ESPN Brasil

Uma temporada no mínimo “desafiadora” para David Luiz. Surpreendeu muita gente ao deixar o Chelsea rumo ao rival Arsenal; enfrentou a adaptação, a falta de resultados, e principalmente as críticas ao sistema defensivo; viu Unai Emery sair, Freddie Ljungberg atuar como interino até a chegada de Mikel Arteta. E em meio a tudo isso, quem diria, ele conseguiu concretizar um “sonho” - de certa maneira.

“Sou grato porque realizei mais um sonho. Não de forma concreta, mas de um jeitinho diferente. Eu sempre tive o sonho de trabalhar com o Guardiola. Não pude trabalhar com ele, mas estou tendo a oportunidade de trabalhar com uma pessoa que cresceu e aprendeu e foi vitorioso junto com ele, que tem as mesmas ideias. Então de certa forma, estou realizando um sonho”, disse em entrevista exclusiva à ESPN Brasil.

David não mede palavras para elogiar o novo treinador. Arteta chegou no final de dezembro, e desde então foram 15 jogos, com oito vitórias, cinco empates e só duas derrotas. O Arsenal ainda ocupa a modesta nona posição na Premier League, mas já anima um pouco mais o torcedor pela postura em campo e as mudanças que começam a surgir. O treinador encantou desde o começo.

“A coisa que mais me impressionou foi que no dia em que ele chegou, ele reuniu todo o clube, não só os jogadores. E gostaria que o clube caminhasse junto, com as mesmas ideias, o mesmo propósito, o mesmo oxigênio. Que todo mundo entendesse por que estávamos ali, quem estávamos representando e a maneira que deveríamos fazer. Desde essa primeira reunião, eu vi, respirei e falei: agora estou entendendo o porquê de estar aqui. Desde então, fiquei encantando pela forma e conduta que ele teve.”

Durante esta pausa forçada pela pandemia, Arteta tem aproveitado o tempo para conhecer melhor os jogadores, e até mandar “lição de casa” para todos eles. O trabalho tem ido além dos treinos físicos em casa enviados pelos preparadores físicos do clube:

“A gente tem tarefa de casa, como as escolas e universidades! Eu estive com o Arteta dois dias atrás em uma ligação de vídeo de uma hora e meia fazendo análise de jogos, análise de treinamento, da nossa temporada. ‘Fala desse jogo sem ver o jogo, David’. E depois a gente assiste e vê que achamos que tínhamos feito um bom jogo, mas não conseguimos sair. Ou achamos ruim, mas nesta parte foi bom. Essa troca é muito positiva e vai nos ajudar bastante no futuro.”

O técnico do Arsenal, aliás, foi o primeiro caso confirmado de coronavírus na Premier League. Depois de Arteta testar positivo, a liga se pronunciou e resolveu paralisar os jogos.

“A gente ficou com medo. No dia em que ele testou positivo ficamos tristes, assustados, nos prendemos em casa. Entramos em quarentena antes de todo mundo aqui na Inglaterra por conta disso. Foi um grande aviso para nós ter uma pessoa tão perto (contaminada).”

David Luiz tem mantido sua rotina de atleta, dentro das limitações que todos enfrentam: criou o hábito de fazer uma live nas redes sociais todos os dias, no mesmo horário, para se exercitar. Segundo ele, para motivar aos outros e manter o compromisso com os treinamentos diários. A alimentação é um pequeno desafio: como tem o hábito de acordar cedo, tenta não comer de manhã para não “ficar comendo até meia noite”. Antes da entrevista, também brincou que só vai voltar a fazer a barba quando a quarentena acabar. Um David mais leve depois de meses de duras críticas.

“Primeiro de tudo, eu sempre fui muito feliz no Chelsea. E depois o entendimento de saber que meu ciclo tinha acabado, mesmo pensando que não ia acabar daquela maneira, em uma decisão rápida. Decidi sair do Chelsea antes mesmo de ter as portas abertas no Arsenal. Sei que o Arsenal não vinha num grande momento, vem com o peso em cima da defesa, eu indo pra lá vou ter que pagar a conta do restaurante sem ter comido. Mas vou porque quero algo novo pra minha vida, quero aprender.”

“Não foi fácil no início. Não só de adaptação, mas aguentar as críticas, a tristeza de muitos torcedores do Chelsea por não entenderem minhas decisões pessoais. Meu respeito e amor pelo Chelsea sempre foram verdadeiros. Era difícil lidar com a parte emocional, depois jogar, as coisas não estavam acontecendo em campo, os resultados não vinham. O Unai é um grande treinador e uma grande pessoa, mas as coisas tb não estavam acontecendo com ele. Então voce entrar num rebuliço de muita coisa e tentar continuar de pé, e forte. E eu muitas vezes me questionava o porquê desta decisão. Por que está acontecendo isso?”

O ponto de virada para David Luiz foi a chegada de Mikel Arteta, com sua liderança e metodologia.

“Viria uma pessoa que eu ia me encantar desde o começo por conta dessa visão coletiva e humana. E foi através das coisas difíceis que eu conheci melhor o Arsenal, pude entender e ter a conexão mais rápido. Hoje já consigo entender o porquê de eu estar no Arsenal, o que eu estou vivendo, a forma que devo viver, o que quero, a paixão que eu tenho dentro de mim porque eu quero fazer esse clube brilhar novamente.”

As melhoras também passaram pelo setor defensivo do time. O Arsenal ainda não perdeu em 2020 na Premier League (quatro vitórias e quatro empates) - apesar da eliminação para o Olympiakos na Europa League. Os números da defesa mostram mais consistência: o time não sofreu gol nos últimos cinco jogos, até a pausa.

“Hoje, a gente consegue entender como defender com a bola, como ser um time de posse de bola, que dita o ritmo, que sabe quando guardar a bola e quando respeitar, sabe entender o adversário. Isso ajuda muito a defesa. A gente entra naquela frase clichê que o primeiro defensor são os atacantes, mas é a verdade.”

E depois de três temporadas seguidas sem conseguir a vaga para a Champions League, em um período que incluiu a saída de Arsène Wenger e a passagem de três treinadores diferentes, o zagueiro brasileiro realmente acredita que os Gunners, enfim, caminham na direção certa.

“O que eu vejo hoje é que este processo está sendo bem feito. O clube vai ser sempre grande, é um clube vencedor, sempre ganhou. E depois passa por processos, acabaram ciclos de pessoas, acabaram ciclos de lideres, e isso faz parte para se reencontrar.”

“Agora, o Arsenal sem dúvida nenhum acertou na pessoa para ser essa cabeça, esse líder. Tenho total e plena consciência de que o Arteta vai ser um dos grandes treinadores do mundo. E as pessoas que estão liderando, não só o Arteta… O próprio Edu (Gaspar, coordenador técnico), que veio da nossa seleção brasileira e é uma pessoa do bem, de caráter; o Raul (Sanllehi, chefe de futebol), que trabalhou no Barcelona e sabe como trabalhar em uma grande equipe. Os jogadores estão entendendo, os funcionários também. E ter a esperança, a ambição de que esse clube deve brilhar novamente.”