O Barcelona e seus advogados já conhecem o caminho legal para tentar que Neymar volte ao Camp Nou uma vez que o brasileiro termine sua terceira temporada no Paris Saint-Germain, segundo apurou a ESPN.
Andy Webster, que foi convocado 28 vezes pela Escócia, se aposentou do futebol em 2017, mas ele poderia fornecer a chave para isso acontecer. O zagueiro abandonou seu contrato com o Hearts of Midlothian em 2006 para se transferir ao Wigan Athletic, time que disputava a Premier League naquela época. Ele ainda tinha um ano restante em um contrato de quatro anos quando invocou o Artigo 17 do regulamento de transferências da Fifa.
O Artigo 17 foi elaborado em 2001, quando a Comissão Europeia ameaçou proibir o sistema de transferências na União Europeia, pois este prejudicaria a liberdade de circulação dos jogadores em comparação a outros trabalhadores. Ele afirma que os jogadores podem deixar seus contratos "sem justa causa" quando o período de proteção de três anos terminar.
As conseqüências disso estão longe de ser claras, mas fontes explicaram à ESPN que o Barça considerará a transferência de Webster como um precedente neste verão europeu, quando, pelo segundo ano consecutivo, eles tentarão trazer Neymar de volta ao Camp Nou - e caso o Paris Saint-Germain se negue a negociar.
O brasileiro acertou com o time de Paris após depositar os 222 milhões de euros de sua cláusula de rescisão para cumprir uma série de objetivos comuns e individuais: desde conquistar a Champions League até tornar-se o líder dos parisienses e ganhar a Bola de Ouro. Nem uma nem outra foi cumprida durante estes três anos.
Neymar, a julgar pelo ranking da Bola de Ouro, retrocedeu no Parque dos Príncipes enquanto distintas vozes do Barcelona, como o próprio Lionel Messi e Gerard Piqué, admitem sem reparos que sentem sua falta.
O Barcelona vive agora pendente de como afetará o coronavírus seu orçamento para o próximo mercado, mas desde os escritórios do Camp Nou ninguém esconde que o brasileiro segue no topo da lista de desejos.
Uma fonte do clube disse à ESPN que Neymar, de 28 anos, ainda é "um jogador incrível e o herdeiro natural de Lionel Messi" e acrescenta que o Barça "fará todo o possível para trazê-lo de volta".
Tirá-lo do PSG pelo Artigo 17 representaria uma das transferências mais incríveis da história do futebol, juntamente da que tirou Neymar do Barça rumo ao PSG, da ida de Luis Figo do Barça ao Real Madrid em 2000 e a contratação de Di Stéfano pelo Real após disputa ferrenha com o Barça, na década de 50.
O presidente do clube catalão, Josep María Bartomeu, é um dos principais validadores de sua contratação e, segundo apurou a ESPN, tem entre seus principais objetivos fechar a volta do brasileiro e renovar com Messi antes do fim de seu mandato no meio de 2021.
A ida de Webster para o Wigan acabou na Corte Arbitral do Esporte (CAS) - o organismo criado para resolver disputas relacionadas ao esporte - mas não teve um final feliz para o Hearts. A CAS decidiu que o jogador e/ou o Wigan teriam que pagar uma quantia fixa de 150 mil libras, o que representava o último ano de seu salário no Tynecastle Park.
Foi um grande golpe para o clube escocês. A Fifa havia decidido anteriormente que deveriam receber 625 mil libras. Eles certamente não esperavam que a CAS os concedesse menos e reivindicavam 4,6 milhões de euros em compensação.
O caso Webster foi relatado como uma decisão histórica na época, comparada à "Lei Bosman", que afirma que os jogadores podem se mover de graça quando seus contratos expirarem. Como conseqüência, a transferência de Webster foi apelidada de "Decisão Webster".
Fontes disseram à ESPN que Neymar e Barcelona - juntamente de seus advogados - estão seguindo um caminho semelhante. A ESPN descobriu que o presidente Bartomeu contatou um advogado belga, Wouter Lambrecht, para analisar todos os resultados possíveis. Lambrecht trabalha para o clube desde 2017 e é especialista em assuntos relacionados a Fifa, Uefa e Associação Europeia de Clubes (ECA) - ele já trabalhou em duas dessas organizações, Fifa e ECA.
Lambrecht não estava disponível para comentários.
Uma fonte legal com experiência na situação disse à reportagem que o primeiro passo é que Neymar, após o terceiro ano, "rompa seu contrato com o PSG". É nesse ponto que o período protegido da Fifa termina. Ele deve informar o PSG de suas intenções dentro de 15 dias do último jogo da temporada.
Uma vez que Neymar se desvincule do clube francês, o Barcelona teria três vias para tentar repatriá-lo.
A primeira seria tentar negociar um preço de venda com um PSG que em 2019 colocou muito cara sua saída. Então, os catalães já estiveram muito interessados no regresso do brasileiro, mas após várias semanas de negociações a transferência foi frustrada pelas altas exigências dos donos cataris do clube de Paris.
O Barcelona chegou a enviar diversas ofertas que, além de uma importante soma econômica, incluíam jogadores como Ivan Rakitic, Samuel Umtiti e Philippe Coutinho. Contudo, o PSG rejeitou pedindo mais dinheiro e outros atletas considerados "intocáveis".
Neymar tentou também forçar sua saída, mas após o fechamento do mercado fontes do Camp Nou admitiram que tinham a sensação de que o PSG "nunca quis realmente se desfazer de seu jogador".
Na próxima janela poderia acontecer a mesma conjuntura, mas o Barça teria nesta ocasião um Ás na manga para tentar cumprir seus desejos. Porém, se os dois clubes não chegarem outra vez a um acordo, o clube espanhol buscaria uma segunda vez para conseguir sua contratação, já que a Fifa entraria em ação para tratar de resolver o caso.
A entidade estabeleceria um preço para o brasileiro de acordo com vários parâmetros e após uma minuciosa análise dos laudos. No caso de PSG ou Barça não estar de acordo com o preço fixado pela Fifa, a terceira e definitiva via para que Neymar acabar na Espanha seria a intervenção da CAS.
A Corte Arbitral do Esporte também realizada um estudo profundo do caso para estabelecer um preço, mas nesta ocasião já seria uma quantidade definitiva e imutável que as duas partes deveriam respeitar.
E se uma vez dado o valor o Barcelona não seguisse com a operação?
A realidade é que o Barça estaria dando um passo para o desconhecido. A Decisão Webster não se tornou a nova Lei Bosman do futebol. Até a presente data, não há nenhum caso assim há mais de uma década. O caso que envolve o brasileiro Matuzalém, que veio depois da transferência de Webster, fornece um exemplo dos riscos que Barcelona e Lambrecht estariam assumindo.
Matuzalém buscou o mesmo caminho que Webster ao tentar forçar uma mudança do Shakhtar Donetsk para o Real Zaragoza em 2008. O clube ucraniano o contratou do Brescia por 8 milhões de euros em 2004. Três anos depois, ele rescindiu unilateralmente o contrato e depois assinou com o Zaragoza. A Fifa ordenou que o clube espanhol pagasse 6,8 milhões de euros, mas a CAS mais tarde decidiu que a taxa deveria ser quase o dobro: 11,9 milhões de euros. Entre outras coisas, eles também consideraram quanto custaria substituí-lo por um jogador de um tipo semelhante.
Quando nem Matuzalém nem Zaragoza puderam pagar a indenização, a Fifa impôs novas sanções, incluindo a proibição de o jogador de todas as atividades relacionadas ao futebol. Esta decisão foi posteriormente anulada pelo Tribunal Federal Suíço.
"É difícil para clubes, jogadores e empresários pré-prepararem um caso e saber que um jogador vale X ou Y", disse à ESPN o advogado de esportes Juan de Díos Crespo. "Não há critérios fixos. É isso que a Fifa quer. [Dessa forma], eles podem evitar uma situação em que um jogador ou um empresário possa terminar um contrato sabendo quanto terão que pagar para se mudar para outro lugar."
Díos Crespo representou jogadores e clubes nos casos do Artigo 17. Ele foi advogado de Webster, obtendo um resultado favorável para o jogador e o Wigan, mas depois trabalhou para o Shakhtar no caso Matuzalem. Ele também representou Morgan De Sanctis quando o goleiro invocou o Artigo 17 para deixar a Udinese rumo ao Sevilla em 2007. A CAS acabou por conceder à Udinese 2,2 milhões de euros. O time italiano havia pedido cerca de 4 milhões de euros.
Quando a Decisão Webster foi tomada, a Fifa disse que ficou "consternada" com a decisão da CAS. O presidente da FIFA, Joseph Blatter, disse que "foi muito prejudicial para o futebol que os jogadores e seus agentes brincam com a ideia de rescindir contratos antes de serem cumpridos."
Tony Higgins, membro da FIFPro, o sindicato dos jogadores europeus, adotou uma visão diferente. Ele disse que "agora existe um certo grau de certeza sobre qual será o valor em questão". Isso não se provou verdade. Perguntado pela ESPN se eles apoiariam Neymar se ele decidisse invocar o Artigo 17 para avançar com a transferência para o Barça neste verão, a FIFPro não respondeu.
Uma fonte com conhecimento dos planos de Neymar apontou que existem poucos precedentes e nenhum envolvendo jogadores do tamanho de Neymar. É isso que torna esse caso tão complicado. Vários fatores podem ser considerados, incluindo salários pendentes e quanto custaria para substituir o jogador, mas a realidade é que tudo é julgado caso a caso.
Está longe de ser algo que não vá chegar ao Barça. Se o time catalão assinar com Neymar e depois recusar - ou não conseguir - aumentar o valor fixado por Fifa e / ou CAS, o Barcelona corre o risco de ser punido com severidade. Uma fonte explica que seria uma proibição de transferência de duas janelas (semelhante àquela que o clube catalão sofreu por conta da assinatura de menores de idade há cinco anos) e uma verdadeira fortuna de multa.
"Não acho que os clubes ousem usá-lo novamente", diz Díos Crespo. "Muitos clubes continuam me pedindo conselhos [sobre o Artigo 17], mas não há casos há anos."
